Papa Bento XVI "tratou os reacionários com luva de pelica" e os progressistas "à bastonada"

11 de fevereiro 2013 - 16:14

O teólogo brasileiro Leonardo Boff, uma das principais vozes da Teoria da Libertação no Brasil, classificou hoje o papa Bento XVI como um pontífice "controverso", acusando-o de atuar com "dois pesos e duas medidas". Associação de vítimas de abusos cometidos pelo clero saúda renúncia.

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"Este papa teve uma grande oportunidade para enfrentar décadas de abusos na Igreja Católica. Prometeu muitas coisas, mas acabou por não fazer nada", disse à AFP John Kelly, do grupo Survivors of Child Abuse

"Bento XVI teve dois pesos e duas medidas. Tratava com luvas de pelica os reacionários seguidores de Lefebvre [movimento conservador católico que contesta algumas das mudanças do Concílio Vaticano II] e nós, da Libertação [doutrina católica de esquerda que defende a intervenção social dos católicos], a bastonadas", afirmou Boff na sua conta de Twitter, numa referência ao período em que Joseph Ratzinger dirigiu a Congregação para Doutrina da Fé.



Também pelo twitter, onde está a responder questões dos seus seguidores, Boff disse que Joseph Ratzinger foi um papa "controverso", que tentou "interpretar" o Vaticano "à luz da autoridade do Papa e não da Igreja do Povo de Deus".



No entanto, Boff admitiu ainda ter aprendido com Ratzinger, a quem chamou "teólogo brilhante", mas salientou que ele não trouxe nenhuma "novidade" para a Igreja.



O expoente da Teoria da Libertação no Brasil, Leonardo Boff foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de suas funções ligadas ao ensino religioso em 1984, devido às questões colocadas à hierarquia católica no seu livro "Igreja: Carisma e Poder".



O processo que levou à sua condenação foi realizado pela Congregação para a Doutrina da Fé, então sob a direção de Joseph Ratzinger (Bento XVI). A pena foi suspensa em 1986 mas, seis anos mais tarde, perante uma nova ameaça de punição feita por Roma, Boff renunciou às suas atividades de padre e desligou-se da Ordem Franciscana.



No Twitter, Boff começou por considerar que a renúncia de Bento XVI foi um "ato de razoabilidade" e "humildade". "A renúncia do papa é um ato de razoabilidade. Humildemente deu-se conta dos limites da natureza que o impediam de exercer sua função. Foi digno", disse em sua primeira mensagem a respeito.



Entre os possíveis candidatos a assumir o cargo, Boff apontou Óscar Madariaga, das Honduras, como o seu preferido.



Leonardo Boff continua a exercer como professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).



Associação de vítimas de abusos cometidos pelo clero saúda renúncia



O porta-voz de uma associação de vítimas de abusos cometidos por membros da Igreja Católica contra crianças na Irlanda saudou hoje a resignação de Bento XVI, afirmando que o pontífice não fez "nada" para punir os responsáveis.

"Este papa teve uma grande oportunidade para enfrentar décadas de abusos na Igreja Católica. Prometeu muitas coisas, mas acabou por não fazer nada", disse à AFP John Kelly, do grupo Survivors of Child Abuse (Sobreviventes de Abuso Infantil), uma das associações que representam as crianças vítimas de violência física, sexual e moral.

A Irlanda, um país com forte tradição católica, foi palco de décadas de abusos cometidos contra crianças pelo clero católico e encoberto pela hierarquia.

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