O meu brinde ao Wikileaks

03 de dezembro 2010 - 0:48

Revelações instantâneas dificultam ou, pelo menos, diminuem a probabilidade de que os patifes escapem. E isso, parece-me, justifica a divulgação. Por Bernard Porter, London Review of Books

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"Não me incomoda ver tantos políticos tão atrapalhados; e adoraria – embora sem qualquer esperança de que aconteça – que todos os políticos que hoje tanto nos envergonham fossem trocados por outros que nos envergonhassem menos."

Bem, grande coisa não há. Mas, até aqui, só nos serviram pequenas fatias saborosas seleccionadas pelos editores dos jornais premiados com uma prévia da coisa toda: seleccionados por critérios dos jornais (em geral, os temas que renderiam as melhores manchetes, por país); e aparentemente pesadamente ‘editados’ pelos jornalistas. O que ainda esteja por vir, não sabemos. (Tentei entrar directamente na página de Wikileaks, mas não consegui. O meu computador estará envelhecendo? Tráfego congestionado na Internet? Alguma espécie de bloqueio?1) Mas é pouco provável que se encontrem lá coisas realmente perigosas, tipo ‘top secret’, que provavelmente é material mais bem protegido.

O que mais se encontra nas WikiFugas, a julgar pelo que vi, são fofocas, e praticamente nenhuma novidade. As fofocas são evidentemente embaraçosas e poucos dizem sobre os assuntos ‘fofocados’: o que nos importa que o coronel Kaddafi ande pelo mundo com uma “voluptuosa enfermeira ucraniana”?! Será verdade? Será mentira?

Por outro lado, as fofocas dizem muito sobre o modo de pensar dos fofoqueiros; sobretudo quando se tem a oportunidade de examinar uma grande amostra de material redigido, por exemplo, pelos embaixadores dos EUA em Londres.

Descobri esse filão quando pesquisava as cartas privadas trocadas entre o Foreign Office e vários embaixadores britânicos nos anos 1850s: as cartas acompanhavam os telegramas oficiais, mas, diferentes dos telegramas, não eram reveladas ao Parlamento. O sistema de preconceitos que se inferia daquelas cartas tornava muito mais inteligíveis as políticas britânicas, do que os argumentos ‘oficiais’ que acompanhavam, como “justificativas”, as propostas políticas.

Quanto a “já sabíamos disso”: sim, sim, muita gente sabia, mas muito do que já se sabia foi oficialmente desmentido no momento do evento, ou – o que é ainda pior – foi atribuído a alguma paranóia esquerdista ou sumariamente descartado como produto de alguma “teoria da conspiração”.

Em geral, são necessários no mínimo 30 anos para que historiadores afinal possam exibir provas de que a sempre tão demonizada esquerda afinal tinha mesmo razão numa ou duas das suas análises. (Ou, vez ou outra, é a direita. Por exemplo, a velha história do “ouro de Moscovo” do velho Partido Comunista da Grã-Bretanha.) Mas quando afinal a verdade aparece já é tarde demais e ninguém se interessa por ela. E é assim que, depois de 30 anos, os patifes conseguem escapar, outra vez.

Revelações instantâneas, no calor da hora, dificultam ou, pelo menos, diminuem a probabilidade de que os patifes escapem. E isso, parece-me, justifica a divulgação, pelo WikiLeaks, dessa recente imensa quantidade de documentos semi-secretos da diplomacia dos EUA.

Mas vejo alguns problemas. Primeiro, o problema da escala astronómica. Quem, afinal, conseguirá examinar tantos documentos e saber o que realmente documentam? Os historiadores só poderiam trabalhar com razoável segurança se todo esse material tivesse aparecido, digamos, ao longo de trinta anos, ano após ano. E em todos os casos aproximar-se-iam do material já com algumas ideias reunidas de outras fontes, e mesmo que provisórias, que lhes dariam um contexto histórico para os aspectos que mais lhes interessasse investigar. E trabalhariam com todo o conjunto dos dicta de cada embaixador dos EUA, por exemplo. Para isso, precisamente, inventaram-se as análises quantitativas.

Um segundo problema é o modo como essa informação é abordada pela imprensa e pelos leitores: todos à procura de ‘revelações’, de porções mais sexy, de alguma ‘denúncia’, todos trabalhando com programas de busca por palavras-chaves e por aí vai. Respostas instantâneas (espero que não aconteça no caso dessa minha resposta instantânea) estimulam esse tipo de reacção.

O terceiro problema é que agora que toda aquela gente já sabe que as suas opiniões e fofocas não são protegidas, de facto, por nenhum tipo de protecção confiável, e podem acabar publicadas em jornais, eles nunca mais vão escrever tanto, nem tão descuidadamente. Assim, os historiadores do futuro não terão tanta informação da qual inferir os preconceitos que geram as actuais políticas quanto temos hoje – nesse que provavelmente foi o último jorro diluviano de material escrito para ser secreto, mas que acabou por chegar aos ouvidos do povo.

Nada disso deve ser lido como argumento contra revelar tudo o que foi revelado. Não gostaria de pôr os meus interesses de historiador acima dos meus interesses de cidadão. Tenho-me divertido muito lendo o que fulano ou beltrano pensa de David Cameron ou de Nicolas Sarkozy ou de seja lá quem for, tanto quanto qualquer leitor de jornal não historiador.

Estou a gostar de ver com que facilidade algumas revelações já lançam dúvidas sobre o velho mito das boas relações anglo-norte-americanas – e não vai me incomodar se a coisa toda ruir como um castelo de cartas. Não me incomoda ver tantos políticos tão atrapalhados; e adoraria – embora sem qualquer esperança de que aconteça – que todos os políticos que hoje tanto nos envergonham fossem trocados por outros que nos envergonhassem menos.

De facto, encho-me de novas esperanças, ao ver que todos esses políticos e autoridades e embaixadores são tão ingénuos a ponto de entregar toda a sua correspondência confidencial a um sistema tecnológico que pode ser facilmente violado por um hacker de 23 anos. Em certo sentido, vejo a coisa como deserção do sistema oficial de vigilância ao qual nós, cidadãos ordinários, estamos submetidos há anos2. Não me parece, pelo que vi até aqui, que alguma vida tenha ficado ameaçada por causa disso. Assim sendo, no geral, congratulo-me, com algumas reservas, com o WikiLeaks, por ter feito o que fez.

E estamos ainda no começo. Será interessante ver o que mais aparecerá nas próximas semanas; e se o que aparecer fará alguma diferença. Se fizer, seja qual for, é possível que eu descarte parte da minha reserva.

29/11/2010

Bernard Porter é professor emérito de História da Universidade de Newcastle, e professoor visitante das Universidades de Yale e Sydney. Entre os seus livros estão “Empire and Superempire” (uma comparação entre os imperialismos britânico americano), “The Absent-Minded Imperialists” e “The Lion’s Share”. Vive principalmente na Suécia.

Traduzido pelo colectivo da Vila Vudu

1 Entramos facilmente na página, a partir de http://cablegate.wikileaks.org/, todas as vezes que foi preciso conferir alguma citação. À direita, na página inicial, há uma caixa intitulada “Traduções”. Lê-se ali que, nos ficheiros já divulgados, há 2.855 telegramas enviados do Brasil; 1.947 da embaixada em Brasília (54 secretos; 409 confidenciais); 12 do Consulado do Recife; 119 do Consulado do Rio de Janeiro; 777 do Consulado de São Paulo. Classificados por ano: 1989 – 1; 2002 – 1; 2003 – 45; 2004 – 196; 2005 – 306; 2006 – 391; 2007 – 321; 2008 – 279; 2009 – 348; 2010 – 59. Ao final dessa página, há um endereço para contactos: [email protected] e uma nota: “Contacto somente para veículos com público superior a 500 mil [NTs].

2 Ver “Thank God for Traitors” [Graças a Deus, há traidores!], Bernard Porter, 18/11/2010, LRB, vol. 32, n. 22, pp. 20-22, em http://www.lrb.co.uk/v32/n22/bernard-porter/thank-god-for-traitors, resenha do livro de Richard Aldrich GCHQ: Government Communications Headquarters. The Uncensored Story of Britain’s Most Secret Intelligence Agency (ed. Harper, 2010). Nessa resenha, lê-se: “GCHQ reúne segredos de espionagem, mas electronicamente, sem usar espiões: ‘sigint’ em vez de ‘humint’. (E também há ‘comint’, ‘elint’, ‘comsec’, ‘sinews’ e ‘sigmod’.) Foi o último dos três serviços secretos britânicos (de que temos notícia) a ser criado e é o mais secreto de todos.”