Japão tem novo governo

04 de junho 2010 - 13:06

O ex-ministro das Finanças Naoto Kan, do Partido Democrático do Japão, é o novo chefe do governo e vai herdar muitas dores-de-cabeça deixadas pelo antecessor Hatoyama. Por Tomi Mori, de Tóquio, para o Esquerda.net

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O novo primeiro-ministro japonês é Naoto Kan. Kan foi eleito na manhâ de sexta-feira para a presidência do Partido Democrático do Japão, logo após a renúncia de Hatoyama e do seu gabinete. Foram 291 votos na sua candidatura contra os 129 do seu oponente, o inexpressivo Shinji Tarutoko. Na parte da tarde, foi eleito primeiro-ministro pelas câmaras baixa e alta do parlamento. Na câmara baixa obteve 313 votos, sendo seguido por Sadakazu Tanigaki, líder do Partido Liberal Democrático, que obteve 116.

Kan fora vice-primeiro-ministro e ministro de finanças do gabinete Hatoyama. Quando nomeado, carecia de experiência na área económica, tendo desempenhado um papel medíocre na administração, o que leva muitos a questionar a sua capacidade de enfrentar os problemas económicos japoneses. Com a permanência na activa de Ichiro Ozawa, que mantém a maior força política dentro do partido, apesar de ter renunciado ao cargo de secretario-geral, será difícil de se desvincular da questão “política e dinheiro”, determinante para resgatar o prestígio perdido frente à opinião publica.

A subida de Kan ao posto significa apenas que uma outra face assumiu a crise japonesa.

Segundo alguns, apenas se trocou a capa do livro. Produto da queda vertiginosa de Hatoyama, com a imagem do seu partido bastante desgastada, já entra num governo que começa a cair, e com menos força e capacidade de manobra que o seu antecessor. Basta lembrar que, antes de sair, Hatoyama rompeu a coligação governamental com o Partido Social Democrático, ao demitir a líder Mizuho Fukushima devido à questão da base de americana de Futenma. A ruptura da coligação custará ao seu governo inúmeras dores de cabeça para aprovar as políticas do seu gabinete, ainda que mantenha o apoio do pequeno Novo Partido do Povo, que continua como força aliada.

Ao sair, Hatoyama afirmou que não interferiria na sua sucessão e tampouco irá concorrer às próximas eleições, dando a entender que pretende sair da cena politica. Isso permitirá ao ex-primeiro-ministro ter mais tempo para desfrutar a mesa com sua senhora, Miyuki, que entre outras actividades, parece ter dotes culinários e é autora de livros de receitas, entre eles um de comida macrobiótica havaiana. Nada mal…

Em compensação, deixa a Kan uma outra mesa com pratos nada apetitosos. O principal deles é a questão da base de Futenma, em Okinawa, que lhe poderá custar também o cargo, já que caberá a ele implementar o que foi aprovado por Hatoyama. Para fazer isso, Kan, terá de se chocar com a já enfurecida população de Okinawa. Uma população que arca com o peso de aguentar as bases americanas por 65 anos e se viu traída por Hatoyama. E também terá de se chocar com uma grande parte da população japonesa que é contrária a manutenção das bases americanas, seja em Okinawa ou noutras partes do país.

O outro prato não agradável de digerir é o apoio ao governo sul-coreano, que traz como consequência o aumento de fricções desnecessárias com a Coreia do Norte.

Hatoyama, sem dúvida, deixou servidos uma infinidade de pratos indigestos, mas o mais difícil de engolir será o que tem entre os seus ingredientes as questões económicas. Entre elas o défice publico, que é gigantesco e pode estar na origem de mudanças impopulares na área fiscal.

A duração no cargo de um primeiro-ministro japonês é bastante curta, basta lembrar que nos últimos tempos, o único que conseguiu manter-se por alguns anos foi Junichiro Koizumi, do Partido Liberal Democrático, que saiu em 2006. Desde então, o Japão já teve quatro gabinetes. Qual o político que não deseja ser primeiro-ministro ou presidente? E isso também ocorre com Kan, que tem consciência da quantidade de problemas que irá enfrentar, e que, pouco provavelmente, terminará o seu governo com popularidade. Mesmo assim, Kan, não resistindo à oportunidade, sobe ao governo, mas já se pergunta quem será o próximo…