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HEY YOU – desculpem o incómodo, estamos a tentar mudar o mundo

Espetáculo envolve um grupo de 70 pessoas de todas as idades da zona de Castelo Branco e é reposto no dia 2 de outubro. Os seus criadores preferem, para defini-lo, “o uso da palavra ação, em vez do termo teatro, no sentido em que o último se torne lugar de confronto do público consigo próprio, enquanto coletivo”. Entrevista a Ana Gil & Nuno Leão. Por Rui Matoso.

No próximo dia 2 de Outubro será reposto no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, o espetáculo HEY YOU, um projecto da Terceira Pessoa (associação) produzido em parceria com o Município de Castelo Branco/Cultura Vibra, e com direção de Ana Gil & Nuno Leão.

HEY YOU - desculpem o incómodo, estamos a tentar mudar o mundo, envolve um grupo de 70 pessoas de todas as idades da zona de Castelo Branco. O título foi pedido de empréstimo a uma canção do álbum “The Wall”, lançado no final dos anos 70 pela banda de rock inglesaPink Floyd. A canção termina com a frase emblemática “together we stand, divided we fall” (juntos conseguimos, separados falhamos”).

Ao longo da história essa frase foi sofrendo usos diversos: começando por ser moral de fábula clássica, passando por slogan de movimentos populares, para depois ser capturada por uma proliferação de dispositivos garantes do capitalismo e do poder. No espetáculo procura-se restituir o slogan à sua força política original - o seu livre uso e propriedade dos homens.

Movidos pela crença de que a arte desempenha um papel ativo na sociedade, a dupla Ana Gil & Nuno Leão procura, nos diversos projetos que vem criando, refletir sobre a força do indivíduo no seu desejo de encontrar o outro e, com ele, formar um corpo coletivo.  No manifesto sobre o qual assenta o seu trabalho, os criadores preferem “o uso da palavra ação, em vez do termo teatro, no sentido em que o último se torne lugar de confronto do público consigo próprio, enquanto coletivo, por oposição à distância da representação. Entendemos o acontecimento ao vivo, enquanto espaço de manifestação estética e política dos seus intervenientes, onde não existe qualquer regra específica, qualquer hierarquia dos temas, dos géneros e das artes”1.

Trailer HEY YOU desculpem o incómodo, estamos a tentar mudar o mundo from terceirapessoa on Vimeo.

A entrevista foi realizada entre 23 e 24 de Setembro 2013, através de email, com intuito de nos aproximarmos ao seu universo estético e político, e do modo como fazem funcionar a “partilha do sensível”, definida por Jacques Rancière como sendo a existência de um comum e dos recortes que nele definem espaços, tempos e tipos de atividade que determinam a participação e a partilha.

No subtítulo do projecto HEY YOU, “desculpem o incómodo, estamos a tentar mudar o mundo”, sentem a necessidade de um pedido de desculpa (irónico ?), mas a quem se dirige esta interpelação ?

Na génese do projeto HEY YOU encontra-se o desejo de iniciar uma reflexão sobre a força do indivíduo na sua tentativa de encontrar o outro e, com ele, formar um corpo coletivo. Ao longo do projeto fomos questionando várias frases-slogan que foram surgindo na História, tais como: “together we stand, divided we fall”. Nesta pesquisa surgiu o subtítulo "desculpem o incómodo, estamos a tentar mudar o mundo", frase-slogan que se repete em vários cartazes segurados por pessoas nas mais recentes manifestações populares que têm surgido por todo o mundo. Assim, partindo da frase de Jacques Rancière "A realidade precisa de ser ficcionada para ser pensada", o que fizemos foi pedir de empréstimo uma frase à realidade para, através da ficção, poder pensar o fenómeno de uma manifestação popular - artisticamente. Da nossa parte não existe qualquer tipo de ironia nem necessidade de pedido de desculpas, mas sim uma necessidade de forte comprometimento com o real, no sentido de construir um objeto performativo que desempenhe um papel ativo na sociedade. Neste sentido, a interpelação presente no subtítulo é dirigida a todos os potenciais espetadores do nosso espetáculo. Em última instância serão eles as "testemunhas" da nossa ação, deste espetáculo-revolução que operamos "aqui e agora". Será sempre através deles que o objeto artístico poderá encontrar ecos e disseminar-se pela realidade, pelas ruas.

Na canção homónima dos Pink Floyd, o “muro” é uma metáfora do isolamento e do individualismo exacerbado e o álbum The Wall (1979) surge em Inglaterra no mesmo ano que Margaret Tatcher é eleita primeiro-ministro. Encontram alguma conexão entre o nosso tempo e essa época?

A escolha de uma canção do álbum "The Wall" dos Pink Floyd para intitular o projeto tem, de facto, uma forte ligação com os factos históricos que aconteceram no final dos anos 70/princípio dos 80's, entre os quais encontramos um paralelo com os tempos que vivemos hoje. Nessa altura existiram, em muitos países, crises económicas, políticas e sociais, incluindo Portugal. Foi nessa época que, por exemplo, o FMI esteve no nosso país pela primeira vez. E, apesar de este facto não ter merecido, na altura, muita atenção mediática (talvez por termos saído recentemente de uma ditadura fortemente opressiva e subsistirem ainda ecos da mesma), existiram grandes manifestações populares que reclamaram direitos que começavam a ser postos em causa ou até mesmo a desaparecer. Hoje o fenómeno da depressão merece já uma forte atenção por parte dos meios de comunicação mas, ao invés do que seria de esperar, parece existir uma crescente alienação das populações em relação ao seu exercício de cidadania e de manifestação. Para além disso, o desaparecimento das margens da sociedade pode ser um fator de uma crescente tecnocratização do poder. E é isso que consideramos bastante perigoso, uma vez que pode levar a que as particularidades humanas ou sociais sejam cada vez mais eliminadas do exercício da política. O nosso projeto artístico pretende precisamente ser uma contra-resposta a esta tendência. Não pretendemos, obviamente, ser portadores de uma qualquer bandeira de "salvação nacional ou mundial". O que propomos é que, através da experiência artística, surjam possibilidades de emancipação do espetador e, consequentemente, processos de subjetivação dos indivíduos.

A noção de política (o seu sentido e a sua prática) parece não merecer a melhor das considerações, hoje muita gente expressa o seu menosprezo e até repugnância pela “política”. Como é que vocês conseguiram agregar tantos jovens ao vosso projeto ?

O trabalho que estamos a desenvolver junto da comunidade iniciou-se em 2012 com o projeto "Kurt Cobain". Nesse projeto envolvemos um grupo de adolescentes da cidade de Castelo Branco, com os quais criámos um espetáculo-manifesto que teve forte impacto tanto nos seus intervenientes como nos seus espetadores. O trabalho que propomos é ainda muito virgem na zona onde o desenvolvemos (não só, mas também) e temos noção de que existe muito por fazer. A verdade é que esta primeira experiência aproximou, não só muitos jovens, mas também pessoas de todas as idades à proposta da Terceira Pessoa. Este facto revelou-se fundamental na nossa decisão de desenhar o projeto HEY YOU para que todos pudessem participar nele sem qualquer restrição etária ou social. Começamos a perceber que a nossa proposta trabalha num lado marginal (no sentido de questionar hábitos ou práticas que estão já instituídas) e, contrariamente ao que seria de esperar, talvez isso possa explicar a adesão do público aos nossos projetos. As pessoas estão sedentas de oportunidades que lhes permitam vivenciar uma experiência significativa, e este "espaço-outro" que a Terceira Pessoa pretende ser vai de encontro a este desejo. Talvez esta seja uma via de, através da arte, voltar a uma política no seu verdadeiro sentido.

Falem-nos um bocado desse ímpeto revolucionário, que revolução é essa que de alguma forma prescrevem no HEY YOU ?

O espetáculo "HEY YOU – desculpem o incómodo, estamos a tentar mudar o mundo" assume-se enquanto espetáculo-revolução, onde o Teatro é proposto como espaço de manifestação estética e política dos seus intervenientes. O espetáculo é interpretado por um grupo de 40 pessoas de todas as idades de Castelo Branco que, ao longo de 60 minutos, operam uma revolução através do teatro. Esta é talvez a nossa primeira revolução: o facto de juntar em palco este grupo numeroso de pessoas a apresentarem o objeto performativo que, juntas e durante 6 meses, criaram como testemunho da sua vivência subjetiva e artística. A revolução que se constrói neste espetáculo não pretende ser representativa de qualquer outra revolução, é uma revolução que se torna no próprio espetáculo-acontecimento, aquele que se produz perante os corpos dos espetadores que são as nossas testemunhas. Falamos aqui de um espaço-revolução que é simultaneamente físico e mental e que implica o espetador, na perspetiva deste descobrir o seu espaço íntimo neste universo. Nesse sentido é também uma revolução que se opera através de um questionamento do próprio ato teatral: neste espetáculo (aka Revolução) recusa-se o teatro enquanto representação, para se passar a tomá-lo enquanto espaço de presença, enquanto acontecimento único e irrepetível. Com a invasão do capitalismo e do hiper-consumismo em todos os campos, o sentido da palavra "Revolução" passou também ele a ser um produto ou meio de consumo. No nosso espetáculo procura-se restituir esse termo à sua força política original - o seu livre uso e propriedade dos homens.

De que modo concebem a relação entre arte e política no vosso trabalho?

No nosso trabalho procuramos que os objetos artísticos que criamos se confrontem com a máxima responsabilidade do espetador, permitindo-lhe uma apropriação ativa dos mesmos. Existe uma imagem que gostamos de utilizar para apresentar a Terceira Pessoa: "... enquanto me conhecem imaginem uma banda de rock a tocar música bem alta ao fundo de cena ou que, a qualquer momento, dinossauros podem irromper pelo palco adentro e destruir isto tudo num silêncio ameaçador. Sejam bem vindos ao meu mundo." E esta imagem pode ser representativa do movimento que procuramos no nosso trabalho, que se pode definir como uma estabilidade altamente instável. É nesse sentido que vemos a política no nosso trabalho: a arte enquanto algo que reside entre opostos, entre a "legibilidade da mensagem que ameaça destruir a forma sensível da arte e a estranheza radical que ameaça destruir qualquer significação política" (Rancière).

Acham que existe o perigo do lema “together we stand, divided we fall” ser distorcido e apropriado pelo capitalismo e pelos media? De que forma vêem a instrumentalização e a manipulação das consciências hoje em dia?

Por todo o lado vemos a apropriação que os dispositivos publicitários fazem de frases-slogan como essa. Se observarmos com atenção alguns anúncios de produtos de telecomunicações, por exemplo, percebemos a forma como estes dispositivos capturaram esses lemas. Diogo Martins (que colaborou connosco na pesquisa do projeto HEY YOU) escreve no programa do espetáculo: "Ser punk, hoje, é um código de barras: as portas do shopping abrem-se automaticamente, poupando-nos os músculos para que não sintamos as mãos cansadas na hora de puxar o cartão e comprar o casaco de cabedal, as botas de militar, as correntes e um punhado de piercings (até mesmo a ganga das calças vem já rasgada; a rebeldia é um produto da confeção, não um estado de espírito).". Na nossa opinião é fundamental que a arte não "vire as costas" a essa lógica de entretenimento, não compactuando com ela, mas sim confrontando-se com a mesma no sentido de produzir pensamento em relação a esses fenómenos. Pensamos ter sido esse o trabalho, por exemplo, da pop arte. Por todo o lado somos bombardeados com formas de consumo cada vez mais rápidas e, consequentemente, acríticas. Afigura-se assim fundamental agir sobre este fenómeno e não fechar os olhos, negando-o. Desde o seu início a Terceira Pessoa tem desenvolvido um trabalho de forte proximidade com a população, democratizando uma prática cada vez mais bloqueada por esta sociedade de hiper-consumo. O objeto artístico, ao invés do objeto de puro entretenimento, será aquele que desafia o espetador à emancipação e que o leva, consequentemente, a operar "um conjunto de ferramentas simbólicas e conceptuais que lhe permita lidar com a realidade difusa do mundo contemporâneo e elaborar novas estratégias de vida coletiva." (cf. Rui Matoso)

Quais serão os vossos próximos projetos com as comunidades? Onde, quando... falem-nos um pouco da vossa missão enquanto estrutura de criação, a “Terceira Pessoa” ?

Neste primeiro ano de existência conseguimos ter um arranque em força: desde o desenvolvimento de um trabalho de criação em estreita relação com as comunidades no qual abrangemos pessoas de todas as faixas etárias, passando pelo extraordinário trabalho desenvolvido pela dupla Afonso Fontão & Tiago Moura, que se associaram à Terceira Pessoa desde o início, na construção de ferramentas de documentação (através da edição de DVD's, livros-programa, materiais vários de divulgação e comunicação,...) e chegando à disseminação crescente da nossa atividade (através de uma digressão nacional e internacional e do estabelecimento de parcerias com várias associações, teatros, escolas e instituições de apoio à criação artística). Gostaríamos de sublinhar que tudo isto só foi possível com uma grande dedicação (e capacidade de sacrifício até) dos criadores que trabalham na estrutura, despendendo muito tempo e esforço por vezes com um retorno financeiro próximo do irrisório. E se este primeiro ano foi o de lançar sementes, queremos que o novo ano seja o de começarem a surgir folhas, flores, frutos... Quer isto dizer que é necessário que a Terceira Pessoa consiga evoluir para um trabalho cada vez mais intenso e regular. Afigura-se assim fundamental que as entidades responsáveis pela gestão cultural, potenciem este crescimento através de apoio à nossa atividade. Para o futuro temos já alguns projetos confirmados, tais como a digressão do projeto HEY YOU até ao final do ano de 2013, e ainda outros em fase de definição. Um dos projetos que queremos continuar, e que nos é muito querido, é o "Serviço Público", que iniciámos este ano no âmbito do processo criativo do projeto HEY YOU. "Serviço Público" é um ciclo de conversas em torno da arte e cultura contemporânea onde convidamos um criador, pensador, professor... para dinamizar um diálogo com o público em torno de uma temática. Este tipo de conversas partilhadas revelam-se fundamentais para que existam trocas de pensamentos cada vez mais intensas. É isso que nos faz continuar a pensar. Outro trabalho que se encontra em fase de preparação (e esta é a primeira vez que falamos dele publicamente) é o projeto "Inscrição", que parte do livro "Portugal, Hoje - O medo de existir" do filósofo português José Gil. Aqui pretendemos reunir um grupo de pessoas em torno desta obra e, com elas, produzir uma reflexão crítica da mesma e que resulte num acontecimento performativo. Existem ainda convites que várias associações nos fizeram, no sentido de estabelecerem parcerias com a Terceira Pessoa, como é o caso de uma associação de Idanha-a-Nova e outra de Castelo Branco. Ideias não faltam, as pessoas querem continuar este caminho, as ligações com outras estruturas e outros meios culturais começam a surgir cada vez mais, por isso o único caminho que vemos é o de uma intensificação das dinâmicas criativas que temos vindo a desenvolver. Convidamos todos os leitores desta entrevista a irem acompanhando a nossa atividade através do nosso site, blog ou página do Facebook. Também através destes meios esperamos encontrar ecos e novas Terceiras Pessoas que se queiram juntar a este projeto.

Para mais informação:

http://heyyouprojeto.blogspot.pt/

http://terceirapessoa-associacao.blogspot.pt

https://www.facebook.com/terceirapessoa2012

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Comentários

Gostei de saber de vós e dos vossos interessantes projectos. É animador ver em momentos tão dificeis como este, em que a desesperança é muito perigosa, gente tão jovem (e não só...) a lutar e com tanta criatividade
Força pois e bom trabalho
MJ

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