Greve no setor do calçado - São João da Madeira, 1943

11 de agosto 2013 - 18:47

Há 70 anos, mais de 2.500 operários do setor do calçado de São João da Madeira entraram em greve. A corajosa luta foi a 5 de agosto de 1943, e para além da greve realizou-se uma manifestação que terá juntado 4.000 trabalhadores e trabalhadoras. Os trabalhadores exigiam aumentos salariais, num ano de fome, miséria e grande repressão.

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Greve dos operários do calçado de S. João da Madeira - Jornal "Avante" clandestino, segunda quinzena de setembro de 1943

Num documento autobiográfico, citado por Elísio Estanque1, António da Costa Santos – conhecido por “Carreirinha”, presidente do sindicato dos manufactores de calçado do distrito de Aveiro em agosto de 1943 e militante do PCP, conta:

“Pelas 8 horas da manhã, muitos operários não se apresentaram ao trabalho, concentrando-se em lugar previamente combinado. Dividiram-se em grupos e, de fábrica em fábrica, foram incitar os outros trabalhadores à greve. Antes do meio dia estavam na rua os operários de todas as fábricas. De tarde, aderiram à greve os operários de Cucujães, S. Roque, Nogueira do Cravo, Milheirós de Poiares, Arrifana, Escapães e outras localidades.

Pelas 15 horas encontravam-se na rua 2.500 operários que, de fábrica em fábrica iam dialogando com a Gerência de várias firmas, esclarecendo os objectivos da greve – dado o malogro do entendimento entre os industriais e a Direcção do Sindicato, por melhor salário e melhores condições de vida, melhor racionamento e distribuição dos géneros alimentares e o não pagamento, por parte dos operários, das chamadas 'miudezas' que deveriam ser consideradas matéria-prima na fabricação do calçado e, portanto, estar a cargo dos patrões”.

Segundo o jornal “Avante” da segunda quinzena de setembro de 19432, os trabalhadores lutavam por melhores salários, exigindo “20$00 diários para os que trabalham nas fábricas e 20$00 livres de todas as despesas para os que trabalham como domiciliários (artesãos)”.

Os trabalhadores constituíram três comissões que apresentaram, a 4 de agosto, a exigência de aumento imediato de salário, 13 patrões dispuseram-se a pagar, mas os restantes não. No dia seguinte os operários entraram em greve.

A partir da hora do almoço, os grevistas iniciaram uma manifestação, “contra a falta de géneros”, e juntando “mais de 4.000 trabalhadores e trabalhadoras”, segundo o jornal “Avante”, antes citado.

O protesto prosseguiu com uma concentração junto à câmara local, que foi dispersa pela intervenção de uma força armada da GNR, que deu ordem de prisão a todos os grevistas. Ainda segundo o relato do “Avante”, “foram cercados 200 operários, mas ao posto só chegaram 80” e destes só 30 foram enviados presos para o Porto. Os restantes conseguiram fugir devido à oposição dos manifestantes e, em particular, das mulheres que se puseram à frente das camionetas que deviam transportar os presos para o Porto e conseguiram a sua libertação.

O referido jornal, assinala que “o não encerramento das fábricas”, “a entrada dos mesmos operários para o trabalho sem nova inscrição individual”, assim como o envio “de grandes quantidades de sola” revelavam que tinha sido “uma luta vitoriosa”.

Elísio Estanque, no documento citado, lembra que “estes acontecimentos não estão de todo desligados do clima de descontentamento geral que se vivia no país”, referindo a guerra mundial e recordando que em Portugal “imperava a generalização da miséria no seio do operariado, o aumento da repressão e a lei da censura”.

Estanque sublinha também que “a greve dos operários do calçado em S. João da Madeira, constituiu uma luta dirigida mais contra o Estado do que contra o patronato”, salientando que os operários para além das suas reivindicações económicas específicas “pretendiam que o Estado garantisse o fornecimento de matérias-primas para a indústria poder funcionar” e destaca o papel das estruturas do PCP, que naquele quadro, “se tornou decisivo na acção mobilizadora dos trabalhadores do calçado em Agosto de 1943, nesta vila”.


1 “Entre a fábrica e a cidade”, estudo para tese de doutoramento em Sociologia, de Elísio Estanque e disponível na internet em: http://www.ces.uc.pt/myces/UserFiles/livros/764_Entre%20a%20Fabrica%20e%20a%20Comunidade_EE_2000.pdf

2 Disponível no site do jornal “Avante” em http://www.ges.pcp.pt/bibliopac/imgs/AVT6040.pdf