Está aqui

A Grécia mostra-nos como protestar contra um sistema falhado

A violência da reação na Grécia é um grito que ecoa por todo o mundo. Por quanto tempo vamos ficar parados a ver o mundo ser destroçado por estes bárbaros, os ricos, os bancos? Por John Holloway
Manifestação em Atenas, junto ao parlamento grego, 12 de fevereiro de 2012

Não gosto de violência. Não acho que haja muito a ganhar em queimar bancos e partir montras. E no entanto, sinto um frémito de prazer quando vejo a reação em Atenas, e noutras cidades gregas, à aceitação por parte do parlamento grego das medidas impostas pela União Europeia. Mais: se não tivesse havido uma explosão de raiva, eu teria ficado perdido num marasmo de depressão.

A alegria é a alegria de ver o tão maltratado mexilhão levantar-se e rugir. A alegria de ver aqueles cujas faces foram esbofeteadas um milhar de vezes, esbofetearem de volta. Como podemos nós pedir que as pessoas aceitem passivamente a ferocidade dos cortes do nível de vida que as medidas de austeridade encerram? Queremos que elas simplesmente aceitem que o enorme potencial criativo das novas gerações seja liminarmente eliminado, os seus talentos aprisionados numa vida de desemprego sem termo à vista? Tudo isto apenas para que os bancos possam ser ressarcidos, os ricos tornados mais ricos? Tudo isto, apenas para manter um sistema capitalista que há muito passou a sua data de validade e que agora oferece ao mundo nada mais que destruição. Para os gregos, aceitar passivamente estas medidas seria multiplicar depressão por depressão; a depressão de um sistema falhado pela depressão da perda de dignidade.

A violência da reação na Grécia é um grito que ecoa por todo o mundo. Por quanto tempo vamos ficar parados a ver o mundo ser destroçado por estes bárbaros, os ricos, os bancos? Por quanto tempo vamos assistir impassíveis ao aumento das injustiças, ao desmantelamento dos serviços de saúde, à redução da educação para os níveis do disparate acrítico, à privatização das águas do mundo, à eliminação de comunidades e à destruição do planeta, tudo a bem dos lucros das grandes empresas mineiras?

O ataque, que é tão intenso na Grécia, está a acontecer em todo o mundo. Por todo o lado o dinheiro sujeita a vida humana e não humana à sua lógica, a lógica do lucro. Isto não é novo, mas a intensidade e alcance do ataque são novos, e nova é também a consciência generalizada de que esta dinâmica é uma dinâmica de morte, de que é provável que estejamos todos a caminhar para a aniquilação da vida humana na Terra. Quando os ilustríssimos comentadores explicam os detalhes das últimas negociações entre os governantes acerca do futuro da zona euro, esquecem-se de mencionar que o que está a ser negociado tão levianamente é o futuro da humanidade.

Nós somos todos gregos. Todos somos cobaias cuja individualidade é simplesmente arrasada pelo cilindro da história determinada pelo movimento dos mercados do dinheiro. Ou pelo menos é o que parece e o que eles desejariam. Milhares de italianos protestaram uma e outra vez contra Silvio Berlusconi mas foram os mercados do dinheiro que o derrubaram. O mesmo se passou na Grécia: manifestação após manifestação contra George Papandreou, mas no fim foram os mercados do dinheiro que o demitiram. Em ambos os casos, servos leais e comprovados do dinheiro foram nomeados para substituir os políticos derrubados, sem sequer um simulacro de consulta popular. Isto não é sequer a história a ser feita pelos ricos e poderosos, apesar de obviamente estes lucrarem com ela; é história feita por uma dinâmica que ninguém controla, uma dinâmica que, se nós deixarmos, destruirá o mundo.

As chamas de Atenas são chamas de raiva, e nós regozijamo-nos nelas. E no entanto, a raiva é perigosa. Se é personalizada ou dirigida a um determinado grupo de pessoas (os alemães, neste caso), pode tornar-se apenas destrutiva. Não é coincidência que na Grécia tenha sido o líder do partido de extrema-direita, Laos, o primeiro ministro a demitir-se após a última vaga de medidas de austeridade. A raiva pode tornar-se muito facilmente nacionalista ou fascista; uma raiva que em nada contribui para tornar o mundo melhor. É, por isso, importante ser claro e afirmar que a nossa raiva não é contra os alemães, nem sequer contra Angela Merkel ou David Cameron ou Nicolas Sarkozy. Estes políticos são apenas símbolos arrogantes e patéticos do objeto real da nossa raiva - o poder do dinheiro e a sujeição de toda a vida à lógica do lucro.

Amor e raiva, raiva e amor. O amor tem sido importante nas lutas que redefiniram o significado da política ao longo do último ano, um tema constante dos movimentos Occupy, um sentimento profundo no coração até de confrontos violentos em muitas partes do mundo. E no entanto, o amor anda de mãos dadas com a raiva, a raiva do "como se atrevem eles a despojar-nos da nossa vida, como se atrevem eles a tratar-nos como objetos". A raiva de um mundo diferente a forçar passagem através da obscenidade do mundo que nos rodeia. Talvez.

Esta obstinação na construção de um mundo diferente não é apenas uma questão de raiva, apesar da raiva ser uma das suas componentes. Isto implica necessariamente a construção paciente de uma forma diferente de fazer as coisas, a criação de formas diferentes de coesão social e de suporte mútuo. Por detrás do espetáculo dos bancos a arder na Grécia encontra-se um processo mais profundo, um movimento silencioso de pessoas que recusam pagar os bilhetes nos transportes, contas de eletricidade, portagens de auto-estradas, dívidas bancárias; um movimento, nascido da necessidade e convicção, de pessoas a organizar as suas vidas de uma forma diferente, criando comunidades de suporte mútuo e redes de alimentos, ocupando edifícios e terras vazias, trabalhando hortas comunais, regressando ao campo, voltando as costas aos políticos (que agora têm medo de se mostrar nas ruas) e criando formas de democracia direta para tomar decisões coletivas. Ainda insuficientes talvez, ainda experimentais, mas cruciais.

Por detrás do espetáculo das chamas, é esta procura e criação de uma maneira diferente de viver que irá determinar o futuro da Grécia e do mundo.

Para este sábado ações em todo o mundo foram convocadas em solidariedade com a revolta na Grécia. Somos todos Gregos.

John Holloway, Artigo original em “The Guardian”, 17 fevereiro 2012.

Tradução de Sandra Paiva, revisão de Paulo Coimbra

Termos relacionados Sociedade

Adicionar novo comentário