França: ampliam-se as greves dos intermitentes e dos ferroviários

18 de junho 2014 - 0:01

Principais festivais de Verão estão ameaçados devido à mobilização dos intermitentes do espetáculo. Manifestação em Paris contou com dez mil. Greve ferroviária entra no 8º dia de paralisação contra o projeto de reforma, acusado pelos trabalhadores de se inscrever no quadro da liberalização do transporte europeu.

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Intermitentes do espetáculo defendem o direito ao subsídio de desemprego quando estão sem trabalho. Foto da Coordenação dos Intermitentes

Milhares de intermitentes do espetáculo franceses manifestaram-se esta segunda-feira contra um acordo assinado em 22 de março entre o governo e três sindicatos pouco representativos, muito contestado por piorar as condições de acesso ao subsídio de desemprego. Em Paris foram à manifestação dez mil pessoas, em Marselha cerca de 2.000, 1.000 em Bordeaux, 450 em Rennes, 400 em Montpellier, cem em Estrasburgo.

O governo, porém, anunciou no mesmo dia que não pretende voltar atrás e que as novas condições de acesso ao subsídio de desemprego entrarão em vigor no início de julho.

“Se a esquerda assassina o festival de Avignon e os outros festivais, assinando este acordo, vai pôr fim também a uma certa ideia de esquerda”, acusou Olivier Py, diretor do mais famoso festival de teatro de França, referindo-se ao primeiro-ministro Manuel Valls.

Se a esquerda assassina o festival de Avignon e os outros festivais, assinando este acordo, vai pôr fim também a uma certa ideia de esquerda

Samuel Churin, porta-voz da Coordenação dos intermitentes e precários, disse que o discurso do governo é esquizofrénico, ao teimar na entrada em vigor do acordo e dizer, ao mesmo tempo, que é preciso chegar rapidamente a uma solução.

A CGT-Spectacle apelou, durante uma assembleia de mais de mil trabalhadores, a “ampliar a greve”.

Festivais cancelados

Cerca de 30 estúdios de animação e de pós-produção estão já paralisados, e o festival Le Printemps des Comédiens de Montpellier é o primeiro da temporada de Verão a ser afetado pelo protesto. Alguns festivais começam mesmo a ser cancelados, como o Uzès Danse, que decorreria de 13 a 18 de junho.

A ameaça paira também sobre os mais importantes festivais, o de Aix-en-Provence e o de Avignon. O pessoal de ambos ameaça entrar em greve no próprio dia de abertura, respetivamente 2 e 4 de julho, se o governo não voltar atrás.

Os intermitentes do espetáculo são 220.000 em França, englobando atores, músicos, coreógrafos e outros trabalhadores da cultura. O regime de segurança social foi conquistado por estes trabalhadores em 1992 e beneficia cerca de 112.000 pessoas que trabalham no setor. Este sistema garante aos intermitentes o subsídio de desemprego nos períodos em que estão sem trabalho.

Oitavo dia de greve dos ferroviários

Entretanto, os ferroviários da empresa de caminhos de ferro SNCF decidiram prosseguir a greve que entra esta quarta-feira no seu oitavo dia, o que já a torna a maior mobilização de ferroviários desde 2010.

O secretário-geral da CGT acusou o governo e a direção da SNCF de mentir aos franceses acerca da reforma ferroviária, dizendo que o seu objetivo é reunificar a SNCF. “É precisamente o contrário”, garantiu o sindicalista.

Cerca de 3.500 trabalhadores manifestaram-se terça-feira diante da Assembleia Nacional, no dia em que o Parlamento começou a debater a proposta de reforma dos caminhos de ferro. Nesse mesmo dia, os ferroviários cortaram as linhas na gare de Montparnasse e, em Lyon, 300 grevistas invadiram os estúdios da France 3 Rhône-Alpes para poder falar à população.

Thierry Lepaon, secretário-geral da CGT, acusou o governo e a direção da SNCF de mentir aos franceses acerca da reforma ferroviária, dizendo que o seu objetivo é reunificar a SNCF. “É precisamente o contrário”, garantiu o sindicalista.

Um documento assinado por uma longa lista de personalidades diz o mesmo do projeto de lei da reforma ferroviária, afirmando que “a alegada reunificação da SNCF e da RFF leva, na verdade, à criação de três entidades que reforçarão a separação entre a gestão das infraestruturas e a exploração da rede”.

“Esta dita 'reforma' inscreve-se no quadro da liberalização do transporte europeu e volta a submeter os transportes ferroviários à lógica dos mercados, no mesmo momento em que o fracasso da abertura da concorrência do frete está patente”, diz o documento.

O Presidente da República, François Hollande, e o primeiro-ministro Manuel Valls recusam-se a estabelecer uma negociação séria com os ferroviários, limitando-se a apelar pura e simplesmente aos trabalhadores a que voltem ao trabalho.