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Diretor do ICS acusado de censurar imagens na revista “Análise Social”

José Luís Cardoso mandou destruir a edição já impressa por conter imagens com “linguagem ofensiva”. O diretor cessante da revista diz que se trata de “um gesto de censura”. Veja aqui as imagens da polémica.
Uma das imagens do ensaio visual agora retirado das páginas da revista "Análise Social"

Segundo a notícia divulgada pela TVI24, a razão para esta edição da “Análise Social” não ter chegado a sair da tipografia foi a reação do diretor do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa contra o ensaio visual “A luta voltou ao muro”, assinado por Ricardo Campos, investigador do Cemri-Universidade Aberta, que tem os graffitis como uma das áreas do seu trabalho de investigação.

“A luta voltou ao muro” contém fotografias de graffitis em centros urbanos, contextualizadas por uma apresentação escrita. Para o autor, que pretende “retratar esta dinâmica de manifestação popular” surgida no meio da crise e da austeridade,  as paredes estão a “servir cada vez mais para expressar não apenas uma revolta difusa, mas para acicatar o poder político, satirizar a classe partidária e afrontar o status quo”.

Contrariando os argumentos de José Luís Cardoso, Pina Cabral defende que “a preservação e publicação de material desta natureza não fere em nada a seriedade científica da revista”. Pelo contrário, “existe mesmo uma volumosa e respeitável tradição nas ciências sociais de estudar e preservar as formas públicas reprimidas de manifestação de insatisfação popular”, acrescenta o antropólogo social.

Mas para José Luís Cardoso, o ensaio é de “mau gosto e uma ofensa a instituições e pessoas que eu não podia tolerar”. Para retirar “A luta voltou ao muro” da edição 212 da revista, o diretor do ICS argumenta também que este ensaio visual “não passa pelo processo de avaliação científica”, ao contrário dos restantes artigos da “Análise Social”.

A decisão do diretor do ICS foi imediatamente contestada pelo diretor da revista. “Na minha qualidade de Director cessante (que se responsabilizou por três anos e meio da produção da revista) discordo profundamente deste ato, que associo a um gesto de censura”, declarou João de Pina Cabral à TVI24. Contrariando os argumentos de José Luís Cardoso, Pina Cabral defende que “a preservação e publicação de material desta natureza não fere em nada a seriedade científica da revista”. Pelo contrário, “existe mesmo uma volumosa e respeitável tradição nas ciências sociais de estudar e preservar as formas públicas reprimidas de manifestação de insatisfação popular”, acrescenta o antropólogo social.

O diretor do ICS rejeita as acusações de censura e crê que a sua decisão, enquanto representante da instituição proprietária da revista que comemorou 50 anos no ano passado, “não representa qualquer ato de privação de liberdade”.

O esquerda.net disponibiliza aos leitores as páginas da Análise Social que serão retiradas da edição 212 da revista. Clique aqui para ver “A luta voltou ao muro”, de Ricardo Campos.

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Comentários

a Adriana Calcanhoto deu a devida resposta a atitudes como esta, censórias, que invocam invariavelmente o «bom-senso»; é de aplaudir a decisão de Pina Cabral, a cada censura nova resistência; cito parte da letra e recomendo a audição da sua canção Senhas, disponível aqui, tão a propósito: http://letras.mus.br/adriana-calcanhotto/66697/
[...]
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem (2x)
[...]

Pronto. Retirem o Caralh.. e a revista já sai. Deve ter sido por essa palavra de certeza. Há muito que continuam a reprimir as opiniões das pessoas tal como no antigo regime, é só mais um exemplo mas a luta continua.

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