Com as políticas da UE, vários países europeus vão parecer de Terceiro Mundo

24 de novembro 2011 - 0:35

Um dos erros é apresentar esta crise como uma crise de dívida soberana, e não como uma crise da dívida do setor privado, principalmente da banca. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón

PARTILHAR
Pobreza nas ruas de Lisboa. Foto de Paulete Matos

À medida que a economia mundial se dirige em linha reta para uma recessão que ameaça ser mais profunda que a de 2008, entrámos numa evolução política e social bastante alarmante. Prova disso é a queda simultânea de cinco governos europeus. É provável que quando no próximo ano cair Nicolas Sarkozy, acabe de uma vez a comédia do euro, que só significou grandes desequilíbrios monetários que nunca houve vontade de aceitar. Pelo momento, as autoridades da OCDE e da UE viram-se obrigadas a reconhecer a magnitude da catástrofe económica que ameaça a estabilidade social e política da Europa. Mas isto não conduziu a uma melhor compreensão da crise, ou a uma admissão das suas causas.

Um dos erros é apresentar esta crise como uma crise de dívida soberana, e não como uma crise da dívida do setor privado, principalmente da banca. Em vez de reconhecer que o aumento da dívida soberana é o resultado, e também o sintoma de uma profunda crise no setor financeiro, os políticos da UE continuam a culpar a dívida pública como o problema central. Isto levou a adotar uma série de políticas erradas para a redução da dívida, que em vez de aliviar a crise estão a agravá-la e levam a Europa a uma situação insustentável.

Enquanto os líderes europeus continuam no seu mar de confusões, a crise no sistema bancário privado continua a toda a força, com corridas maciças dos nervosos investidores, que fogem da dívida dos governos europeus e da banca aumentando perigosamente os riscos de uma severa contração do crédito. As contínuas e prolongadas quedas nas bolsas da Ásia, Europa e Estados Unidos são uma demonstração contundente destas vendas maciças. As instituições financeiras estão a desfazer-se das suas posses em títulos soberanos, especialmente da Itália e da Espanha, e muitos não renovam os empréstimos de curto prazo que são necessários para financiar o dia a dia. A propagação da incerteza está a levar a economia a uma espiral descendente e prolongando o estancamento e o desemprego.

Que país chega primeiro ao terceiro mundo?

Em resposta, a Alemanha e o BCE exigem aos países com problemas medidas de austeridade que só aprofundam a crise. O objetivo destas medidas é reduzir salários e provocar uma deflação para tornar mais competitivos países como Irlanda e Portugal. Foi o que se fez na Grécia e que também se fará na Itália e em Espanha. No entanto, a redução dos salários reduz a procura do setor privado; e as reduções dos gastos públicos também afundam a procura do setor privado. Portanto, produzir-se-á uma queda simultânea tanto do setor público quanto do setor privado que aprofundará mais a crise da economia, que provocará mais desemprego e que contrairá mais a procura e afundará mais o setor privado. O que, pelos vistos, procuram os líderes da UE é ver que país europeu se converte primeiro num país do terceiro mundo. Algo fácil de conseguir.

Como vemos, a crise financeira e económica mundial que começou em agosto de 2007 intensificou-se em todas as suas áreas e mantém-se muito longe de estar resolvida. Mas se uma coisa era a crise da dívida desencadeada nos Estados Unidos pelas fraudes do sistema financeiro, outra coisa foi a crise do euro, desencadeada quando em outubro de 2009 o recém-eleito governo da Grécia declarou que as contas estavam viciadas e que o governo anterior tinha mentido no valor do défice público. Este facto foi o primeiro a pôr em evidência as debilidades do euro, das quais a UE nunca assumiu a responsabilidade. Se, decorridos dois anos, não se resolveu a dívida de um país que é apenas 2% da UE, podemos esperar que haverá vontade de resolver a crise de países maiores como a Itália ou a Espanha? Nem pensar. Com os planos de austeridade, muitos países passarão à lista do “terceiro mundo”.