No dia 17, cerca de 1.900 jovens trabalhadores de uma grande fábrica da Honda, que produz transmissões para carros, em Foshan, no sudeste da China, iniciaram uma greve por aumentos salariais. A greve, com duração de vários dias, forçou a Honda a parar, na segunda-feira, a produção em todas as fábricas que possui no país.
A China é o único país na economia mundial com crescimento de dois dígitos, seguida pelos 8.6% da vizinha Índia, mas possui grandes desigualdades nos ingressos da população.
Os trabalhadores de Foshan, na província de Guangdong, cansaram-se da longa jornada de 12 horas de trabalho, seis dias por semana, ganhando menos que trabalhadores de outras áreas do pais. Eles reivindicam que os salários sejam aumentados para 2.000 a 2.500 yuans, contra os actuais 1.500. Uma quantia que seria de cerca de 250 euros, para menos. No dia 24, a Honda propôs aumentar cerca de 14 a 18 euros por mês, mas os trabalhadores recusaram a proposta, permanecendo o impasse. É um movimento independente, já que os sindicatos chineses são controlados pelo Partido Comunista. Na paralisação, o sindicato oficial serviu apenas como intermediário entre a empresa e os trabalhadores, que estão organizados, ao que parece, de forma autónoma. Mas, na segunda-feira, membros do sindicato atrelado ao PC confrontaram-se com os grevistas, que protagonizavam uma greve longa para os actuais padrões chineses.
A ironia ou coincidência é que a greve se desenvolve exactamente no momento em que o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, encontra-se em visita de três dias ao Japão, concretizando uma série de acordos bilaterais. E ainda encontra tempo para praticar tai chi chuan com japoneses no Parque Yoyogi, em Tóquio.
As informações são escassas e desencontradas. A Honda despedirá algumas dezenas de grevistas, entre os quais dois dirigentes da mobilização. Por outro lado, aumentou a sua proposta para um aumento de 24%, o que dividiu os trabalhadores. Uma parte parece ter aceitado a proposta, e outra recusou. Não existem informações precisas se a greve continua ou foi encerrada, ou se segue parcialmente. Mas, sem dúvida, ela irá desempenhar um papel importante na luta dos trabalhadores chineses, já que se trata de um momento particular na vida do país.
A situação da greve é uma questão política peculiar e, provavelmente, grave. E isso pode-se perceber pela maneira como a imprensa chinesa, controlada pelo governo, tem acompanhado o assunto. A princípio, foi um silêncio total. Depois, dois dias de intensa cobertura. E agora, outra vez, silêncio total. Fontes externas dizem que a greve de Foshan não é um caso isolado. Várias greves foram realizadas na China nos últimos meses, mas o governo, obviamente, não divulga nenhum dado, já que não tem interesse que isso seja um rastilho de pólvora na sociedade chinesa, como foi o surgimento do Solidariedade, na Polónia, em época e situações distintas. Um resultado imediato da greve é que existem informações de que outras empresas, preocupadas com a situação, já começaram a dar aumentos aos seus funcionários
A economia chinesa, ainda que a crescer, parece ter chegado a um período de esgotamento da estratégia de exportação, principalmente devido à crise em vários países importadores, da Europa, da América, e da Ásia. O mercado interno chinês é potencialmente imenso, mas os trabalhadores carecem de recursos financeiros para poder aumentar o seu padrão de consumo. O que fazer? A China acumulou profundas contradições nas últimas décadas como produto do desenvolvimento da globalização. Mas é de se pensar que, por causa disso, o eixo histórico, que durante séculos esteve no Ocidente, se mudou de maneira anárquica para o Oriente. No sentido de que isso não foi um acontecimento planeado. Buscando uma mão-de-obra barata, as empresas multinacionais fizeram um maciço investimento na China. Mas isso, por outro lado, transformou-se numa espécie de buraco negro, que pode engolir todo o mundo.