Bloco promove sessão pública "Feminismo Contra a Guerra"

03 de março 2016 - 18:28

Este domingo às 15h no Auditorio do Liceu Camões, em Lisboa, o Bloco de Esquerda assinala o 8 de Março com uma sessão internacional que destaca a condição das mulheres refugiadas e migrantes.

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Cartaz da iniciativa "Feminismo contra a Guerra"

A iniciativa pretende assinalar o Dia Internacional da Mulher, lembrando "estas mulheres refugiadas, sírias, afegãs, iraquianas, curdas, eritreias, guineenses, malinianas, palestinianas, entre tantas outras, verdadeiras heroínas deste início de século". Mas também denunciar "a hipocrisia e a vergonha que constitui a postura da União Europeia" e defender "o embargo da venda de armamento aos verdadeiros mentores desta crise humanitária".

A sessão pública conta com a participação de Shaza Alsalmoni, investigadora síria especialista em legislação internacional sobre Direitos Humanos na universidade britânica de Exeter. Às 15 horas de domingo, 6 de março, Shaza Alsalmoni participa na conferência "Condição das Mulheres Refugiadas e Migrantes" com a ativista feminista Sofia Roque, a atriz e encenadora Sara Carinhas e Elsa Sertório, do Comité de Solidariedade com a Palestina.

Em seguida, a partir das 17h, a sessão "Feminismo Contra a Guerra" volta a contar com uma intervenção de Shaza Alsalmoni, da eurodeputada Marisa Matias, da deputada Sandra Cunha e da porta-voz do Bloco Catarina Martins.

A sessão termina com um espetáculo de dança das Orchidaceae Urban Tribal e conta ainda com uma exposição de Rita Guimarães, intitulada "Wally na Fronteira".


Leia aqui o manifesto de apresentação da iniciativa:

AFIRMAMOS A LUTA FEMINISTA CONTRA A GUERRA E A SOLIDARIEDADE COM TODAS AS PESSOAS REFUGIADAS E MIGRANTES

O dia 8 de Março em que se comemora o Dia Internacional da Mulher tem um peso e uma importância que, indo muito para além da dimensão local e nacional, convoca toda a sociedade para olhar para a situação vivida pelas mulheres em todo o mundo e expressar a solidariedade e a intenção de lutar para alcançar a igualdade.

Quando em 1910, no II Congresso da Internacional Socialista, Clara Zetkin apresentou uma proposta para que todos os anos em todo o mundo se instituísse um dia específico para lembrar a situação particular das mulheres na sociedade, ela partia da constatação das cada vez mais frequentes movimentações de operárias desde meados do século XIX, sobretudo das fábricas do sector têxtil e do calçado nos EUA e no Reino Unido. Sujeitas a uma exploração desenfreada, a condições de trabalho desumanas e discriminatórias, eram a luta por um salário justo, pela redução do horário de trabalho, pela igualdade salarial e condições de trabalho dignas e saudáveis os motivos que levaram aquelas mulheres a lutar e a resistir a violentas cargas policiais, à repressão e até à morte. Tantas lutas que se seguiram, pelo direito ao voto, à educação e à saúde sexual e reprodutiva, entre outras, constituem um património de que as feministas se orgulham e são avanços e conquistas para as mulheres e para a sociedade como um todo.

Entre nós, que só em 1975 comemorámos pela primeira vez o 8 de Março em liberdade, houve um desfasamento grande entre a produção legislativa e os direitos inscritos na Constituição e a aplicação das conquistas democráticas à vida. A lei da paridade para repor a dignidade da representação de género nas listas para os diferentes órgãos de poder é aprovada em 2006. A luta pela descriminalização do aborto só em 2007, ao fim de mais de três décadas depois do 25 de Abril de 74, conseguiu ser vitoriosa, o que prova a dificuldade de afirmação dos plenos direitos das mulheres em igualdade com os homens. Sabemos bem como os direitos já alcançados não são invioláveis e como, em períodos de crise e de maior agressividade conservadora neoliberal, é muito fácil perder o que tanto custou a construir. Basta recordar o que aconteceu no fim da última legislatura, em que a direita se uniu para de novo humilhar as mulheres no seu direito à autonomia e à escolha, atacando a lei do aborto ainda tão recente! Mas sabemos também que, cada vez mais, as jovens mulheres reivindicam novos direitos, rejeitando a violência estrutural da sociedade patriarcal e capitalista que quer normalizar as suas vidas, os seus corpos e a sua sexualidade.

Vivemos actualmente um período particular de agravamento da pobreza e da violência de género, de recuo e de ataque conservador aos nossos direitos, fruto dos últimos anos de governação da direita, numa subserviência aos ditames neoliberais que percorrem o mundo e a Europa, em particular.

A escalada da guerra que tem vindo a intensificar-se e a alargar-se desde a intervenção no Iraque obriga a deslocações de milhares de pessoas que fogem da guerra e da destruição em luta pela sobrevivência. Nesses êxodos em massa, no desespero de chegarem a um país que as acolha, arriscam a vida e muitas vezes morrem às mãos de redes mafiosas de tráfico humano. Se conseguem ultrapassar o cemitério que tem sido o mar Egeu, encontram uma Europa muralhada e blindada com arame farpado. Entre homens, pessoas idosas, crianças indefesas e muitas perdidas dos pais e à sua própria sorte, milhares e milhares de mulheres arriscam tudo mesmo sabendo que a viagem e o destino poderão ser um pesadelo e não um refúgio tão desejado. Mulheres no fim da gravidez que dão à luz em condições inimagináveis, mulheres sujeitas a violações e outras formas de violência ao longo do trajecto, mulheres que perdem os filhos e filhas ou que são obrigadas a escolhas impensáveis quando a réstea de esperança quase não existe! E que dizer dos campos de refugiados, onde se amontoam milhares de seres humanos sem o mínimo de condições de dignidade! Os senhores da guerra que se confundem com os senhores do mundo olham impávidos para esta onda de gente desesperada e brincam com as suas vidas, estabelecendo quotas, levantando mais muros, espoliando-as dos seus únicos bens, expulsando-as, deportando-as, quando não imputando-lhes crimes de modo a gerar a onda de xenofobia que lhes convém.

O Bloco de Esquerda quer neste 8 de Março lembrar estas mulheres refugiadas, sírias, afegãs, iraquianas, curdas, eritreias, guineenses, malinianas, palestinianas, entre tantas outras, verdadeiras heroínas deste início de século, que nos fazem recordar imagens do holocausto tão recentes ainda, mas que acreditávamos impossíveis de se repetirem. O Bloco de Esquerda denuncia a hipocrisia e a vergonha que constitui a postura da União Europeia e exige que os direitos humanos deixem de ser retórica e sejam implementados com políticas concretas de paz, nomeadamente com o embargo da venda de armamento aos verdadeiros mentores desta crise humanitária.

Neste 8 de Março o Bloco de Esquerda apela à solidariedade com os refugiados e em especial com as milhares de mulheres e meninas forçadas a sair do seu país, especialmente vulneráveis e a viver situações dramáticas e inadmissíveis que envergonham a sociedade neste início de um novo século e milénio.