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Bernie Sanders e Jean-Luc Mélenchon

Não se sabendo quem da direita vai passar à segunda volta (até pode ser entre dois candidatos de direita – mas admitamos que passam Le Pen e Mélenchon), já começa a surgir uma teoria decalcada daquela que ajudou a afastar Bernie Sanders da disputa da Casa Branca. Por José Manuel Rosendo, publicado no blogue meu Mundo, minha Aldeia.

Aquando das primárias do Partido Democrata nos Estados Unidos da América, não faltou quem defendesse que uma vitória de Bernie Sanders traduzir-se-ia numa derrota frente a Donald Trump. A teoria assentava no pressuposto de que o eleitorado democrata mais à direita, perante um candidato “esquerdista”, deslocaria o voto para Trump. Até Noam Chomsky, um insuspeito académico de esquerda, alinhou nessa teoria. Ninguém sabe se, de facto, assim seria, mas todos sabemos o que aconteceu e quem é agora o inquilino da Casa Branca. Podemos até dizer que entre uma direita desbocada e com o freio nos dentes e uma outra direita mais envergonhada e com algumas boas maneiras, os norte-americanos preferiram a primeira.

Lembrei-me deste caso a propósito das eleições presidenciais francesas, onde as sondagens mostram quatro candidatos com possibilidades de passar à segunda volta. E a surpresa, qual é? Chama-se Jean-Luc Mélenchon, o único candidato de esquerda. Sim, o único, porque Benoit Hamon, por muito boas intenções que tenha, é o candidato daquela pseudo-esquerda a que já nos habituámos: bandeirinha de esquerda e decisões de direita (basta olhar para François Hollande). Aliás, ainda não se percebe porque é que, lá como cá, ainda não nasceu um “partido tangerina”. Entenda-se de cor laranja, mas com perfume mais requintado. A rosas, por exemplo.

Dito isto, e não se sabendo quem da direita vai passar à segunda volta (até pode ser entre dois candidatos de direita – mas admitamos que passam Le Pen e Mélenchon), já começa a surgir uma teoria decalcada daquela que ajudou a afastar Bernie Sanders da disputa da Casa Branca: Mélenchon não terá qualquer possibilidade na segunda volta perante Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional. Isto é, considera quem assim pensa que entre um candidato de esquerda e uma candidata de direita, a maioria do eleitorado francês vai, por receio do "esquerdismo", dar o voto à direita. O efeito desta teoria pode, claramente, prejudicar Mélenchon nesta primeira volta e pode afastar da corrida o único candidato que, de facto, tem algo de substancialmente diferente para propor aos franceses (tal como Bernie Sanders tinha para os norte-americanos).

É certo que algumas sondagens dão Mélenchon a vencer Le Pen numa eventual segunda volta, mas agitar papões e condicionar o voto faz parte de qualquer campanha eleitoral. A ver vamos qual vai ser a primeira decisão dos franceses. Dia 23 de Abril, à noite, vamos ligar a televisão (ou a rádio) e esperar. A 7 de Maio saberemos quem é o próximo Presidente francês. Em Bruxelas há velinhas acesas para que a coisa não descambe.

 

Pinhal Novo, 11 de Abril de 2017

José Manuel Rosendo

Artigo publicado no blogue meu Mundo minha Aldeia

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