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As armadilhas de Draghi para baixar salários

O Presidente do BCE, Mario Draghi, deixou calado François Hollande, quando este reclamava que se pusesse fim às políticas de austeridade. Draghi apresentou aos líderes europeus uns gráficos inquestionáveis. Dias depois, o professor de macroeconomia Andrew Watt comentou os gráficos e demonstrou que o que há por trás do argumento de Draghi é algo pior que pura ideologia. Artigo de Juan Torres López
Mario Draghi “ignora os conceitos económicos de base que utiliza ou utiliza-os introduzindo intencionalmente um erro – para não dizer mais - a fim de forçar os demais a seguir uma política conforme as suas preferências ideológicas mas contrária à estabilidade e à recuperação da zona euro e, neste caso particular, não conforme ao seu mandato constitucional”.

O diário Frankfurter Allgemeine Zeitung comentou há uns dias que o Presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, deixou calado o Presidente da República francesa, François Hollande, quando este reclamava que se pusesse fim às políticas de austeridade.

Segundo o diário alemão, Draghi apresentou aos líderes europeus uns gráficos que resultaram inquestionáveis. Neles, como se pode ver na apresentação que se encontra no site do Banco Central Europeu (aqui), reflete-se a evolução da produtividade e das retribuições salariais em diferentes países europeus, e a conclusão do antigo executivo do Goldman Sachs dizem que foi inapelável: o que faz falta em países como França, Espanha, Portugal, Grécia, Itália, Irlanda… é reduzir os salários para diminuir a brecha tão grande que existe entre ambas as variáveis.

Dias depois, o professor de macroeconomia Andrew Watt comentou esses gráficos num artigo publicado em Social Europe Journal (Mario Draghi's Economic Ideology Revealed?) e demonstrou que o que há por trás do argumento de Draghi é algo pior que pura ideologia.

A questão é a seguinte.

Os gráficos com os quais o presidente do Banco Central Europeu tratou de convencer os demais líderes europeus refletem o crescimento da produtividade entre 2000 e 2011 em termos reais (isto é, uma vez descontado o efeito da subida de preços) e o crescimento dos salários entre ditos anos mas este em termos nominais (isto é, sem descontar aquele efeito).

Draghi compara assim o que ocorre, por um lado, nos países com superavit (Alemanha, Áustria, Bélgica…) e, por outro, nos que têm défice (França, Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda, Itália). E o resultado que mostra é que nos primeiros a brecha entre o crescimento da produtividade e o dos salários é menor, enquanto é maior nos segundos. Daí deduz, como assinalei antes, que o que há que fazer nestes últimos é baixar os salários.

Como bem diz o professor Watt no seu artigo comparar assim estas variáveis (isto é, uma em termos reais e outra em termos nominais) é um absurdo.

Se em lugar de comparar o crescimento da produtividade e dos salários como faz Draghi, se se comparar bem, a conclusão a que se chegaria, como assinala Watt, seria outra muito diferente e que não permite justificar a proposta ideológica do banqueiro.

Vejamos.

Se um país segue a norma de inflação imposta pelo Banco Central Europeu (1,9%) não pode dar-se um paralelismo entre a evolução da produtividade real e a evolução dos salários nominais (como faz Draghi), mas sim uma diferença progressiva e acumulada em cada ano de 1,9%, isto é, cerca de 28 pontos nos doze anos considerados. Isto é assim porque ao crescimento da produtividade se “tira” esse 1,9% a cada ano, dado que se considera em termos reais, enquanto o dos salários não, porque se toma em termos nominais.

Daí deduz-se então que, segundo os gráficos que apresentou Draghi, países que parece que têm incumprido a norma e que devem ser “castigados” com baixos salários (como França, e inclusive Espanha) na realidade têm estado mais perto da norma de estabilidade que impõe a própria instituição que ele preside do que a Alemanha, que ele põe como exemplo.

Efetivamente, segundo se conclui dos gráficos de Draghi, tanto França como Espanha registam uma brecha de uns 32 pontos aproximadamente (isto é, 2 pontos acima da norma, que devia ser de 28), enquanto que a Alemanha tem uma brecha entre salários nominais e produtividade real de uns 10 pontos, isto é, 18 pontos abaixo da norma.

Portanto, o que se deduz dos dados de Draghi não é que em França ou Espanha os salários tenham crescido demasiado acima da produtividade (se se toma como referência a norma de estabilidade imposta pelo próprio Banco Central Europeu) mas que na Alemanha os salários têm crescido demasiado abaixo da produtividade. E ao estar abaixo dela, a Alemanha não se converte num exemplo a seguir mas sim numa causa do desequilíbrio dentro da união monetária que foi o principal fator da crise.

E, finalmente, tudo isso mostra, diz Watt, que “um decisor económico essencial da União Europeia ignora os conceitos económicos de base que utiliza ou utiliza-os introduzindo intencionalmente um erro – para não dizer mais - a fim de forçar os demais a seguir uma política conforme as suas preferências ideológicas mas contrária à estabilidade e à recuperação da zona euro e, neste caso particular, não conforme ao seu mandato constitucional”.

É assim como se constrói o discurso com que justificam o empobrecimento constante das classes trabalhadoras, que as suas políticas provocam.

Artigo de Juan Torres López, publicado em Público.es a 2 de abril de 2013 Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Málaga (Espanha). Conselho Científico de Attac-Espanha. A sua página web é: www.juantorreslopez.com
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Comentários

Há uns meses, na SIC Notícias, num debate entre Miguel Frasquilho e Manuela Arcanjo, o primeiro sacou de uns gráficos para argumentar sobre uma questão económica de que não me recordo. Comentário da segunda: "Ó Miguel, um gráfico é o que um homem quiser". Pelo que se vê, nada mais verdadeiro. Só que, como a maioria dos dirigentes europeus ou está totalmente ao serviço da alta finança ou, quando não é o caso, pouco ou nada entende dessas nuances económicas. Então, deixam-se convencer pelos "papagaios" de serviço.

Complica-se o que é simples. Um diz que a diferença é que um é mais alto ou outro diz que não, a diferença é que o outro é mais baixo. O problema é o mesmo e, no que toca à Europa, irrelevante.
Se esquecermos o resto do mundo, seria indiferente que se corrija o problema baixando salários num lado ou aumentando no outro, iria dar ao mesmo (num caso, o mercado trataria de baixar preços no outro, a inflação de comer o "ganho").

No entanto, existe o "resto do mundo" com quem a Europa também compete. Podemos ver pela ausência de soluções para os países periféricos na base das exportações extra-comunitárias, que os salários "altos" não são competitivos, pelo que a solução de aumentar salários nos países fortes da Europa, iria somente aumentar os nossos problemas.

Restam assim duas soluções, aumento da competitividade face a países extra-comunitários com base na quebra salarial, ou tornar a Europa uma federação e com isso, impostos europeus e transferências de verbas entre estados a título de doação.

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