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6 notas para compreender o que acontece na Ucrânia

Nos últimos 3 dias pelo menos 86 pessoas morreram na praça central de Kiev e nos seus arredores. O que causou este banho de sangue? Artigo de Alberto Sicília em Kiev, publicado no blogue Principia Marsupia
Fotos de Alberto Sicilia

Antes de responder à pergunta, permitam-me retroceder umas semanas para recordar qual era a situação na praça.

No final de novembro, milhares de manifestantes tomaram o centro de Kiev, instalaram um acampamento e protegeram-no com uma espetacular fortificação de barricadas.

Durante dois meses a situação permaneceu “relativamente” estável (comparada com o que ocorreu nas últimas horas). Os polícias anti-motim esperavam no outro lado das barricadas e davam-se confrontos entre os dois lados, mas o território controlado pelos manifestantes e pela polícia permanecia mais ou menos estável.

Quando visitei Kiev há três semanas escrevi um post com o título “O que ocorre na Ucrânia?” Talvez seja útil como complemento a este.

Quando começou a onda de violência sem controle?

Nesta terça-feira, os manifestantes começaram a marchar para o Parlamento, que se encontra a cerca de trezentos metros da sua última barricada.

Os Berkut, as forças especiais da polícia, bloquearam o possível assalto ao Parlamento e lançaram um contra-ataque para tomar o acampamento.

Nessa noite morreram pelo menos 26 pessoas entre manifestantes e polícias.

De manhã, os polícias anti-motim tinham conquistado metade do acampamento.

Aqui têm duas fotografias para compreender qual era a situação antes e depois da noite de batalha.

A) Situação da praça até terça-feira à tarde: ocupada pelos manifestantes como esteve durante os dois meses anteriores. (Fiz a foto há três semanas).

 

B) Situação da praça na quarta-feira de manhã: a polícia controla metade.

Bom, então na quarta-feira de manhã a polícia tinha controlada metade do acampamento. E depois o que se passou?

Durante a quarta-feira a situação permaneceu estável. Os anti-motim desmontavam as barricadas da zona que tinham conquistado enquanto, a poucos metros, os manifestantes gritavam que não retrocederiam mais.

O inferno aconteceu às dez da manhã de quinta-feira. Em poucos minutos pelo menos 60 pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Os anti-motim tiveram que retroceder e abandonaram as posições que tinham recuperado apenas um dia antes.

(Devo reconhecer que nessa manhã apanhei um susto).

3 dias e 86 mortos depois, cada lado voltou às suas posições iniciais. A tragédia e o absurdo.

E aqui quem são os bons e quem são os maus?

Não creio que haja irmãs da caridade em nenhum dos dois lados. Os confrontos (pelo menos os que eu presenciei) foram entre bárbaros e bárbaros: linchamentos, balas reais, franco-atiradores.

Alguns meios de comunicação dizem que todos os manifestantes são de extrema direita, é verdade?

Há muitos militantes de extrema direita. Fotografei vários desses grupos para este outro post. Mas dizer que são a grande maioria parece-me erróneo. Basta descer à praça e falar com as pessoas.

Conheci bastantes manifestantes que estão simplesmente fartos dos partidos políticos, cansados da corrupção e da falta de oportunidades.

É certo que o número de moderados desceu notavelmente nos últimos dias: após verem morrer dezenas de pessoas, muita gente razoável preferiu não arriscar e voltou para casa.

Os que ficam sabem que se estão a arriscar a vida em cada momento. E claro, para isso os extremistas são mais fáceis de convencer. Um deles dizia-me anteontem: “Ou vêm com os tanques e passam-me por cima ou eu não me movo daqui até que Yanoukovich se demita”.

Alguns jovens universitários que conheci na praça há 3 semanas disseram-me que têm demasiado medo e que por isso se foram embora.

Isto é uma batalha entre a Rússia e o Ocidente?

No conflito da Ucrânia sobrepõem-se batalhas a vários níveis:

A) É um conflito entre a Rússia e o Ocidente pela sua influência na Ucrânia.

B) É um conflito nacional entre Yanoukovich e a oposição pelo controle do país.

C) É um conflito social entre os políticos e os cidadãos que não se sentem representados nem pelo presidente nem pela oposição.

D) É um conflito civil entre grupos da extrema direita nacionalista e a população de língua russa da zona leste do país e da região autónoma da Crimeia. (Este ponto está explicado de forma mais extensa no final deste outro post).

Quanto mais tempo passo na praça, quantos mais argumentos escuto, mais complicada me parece esta história.

NOTA: Continuo na praça de Kiev e durante todo o dia vou publicando no Twitter as cenas com que me deparo.


Artigo deAlberto SicíliaemKiev, publicado no blogue Principia Marsupia. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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Comentários

Eu sou militante do BE há já muitos anos. Comecei em almada e mesmo depois de emigrar para França continuei a defender e promover o Bloco junto das várias concentrações de emigrants portugueses no sul de França.
Os recentes acontecimentos a nivél nacional, com a saida da Ana Drago e as propostas ridiculas do Livre não me fizeram vacilar nem um pouco. Até hoje eu senti que o BE era a minha casa mas isso foi até eu ver a posição de alguns membros com responsabldade no partido e relaão aos actos em Kiev.
Eu não defendo nenhum regime pró soviético nem nunca defendi mas também não aceito defender nem ignorar as movimentações nazis mesmo que não sejam em maioria.
Eu acho as "7 perguntas e respostas" coisa muito vaga para algo tão importante daí que peço uma resposa concreta sobre a posição do BE face aos acontecimentos na Ucrânia pois eu já pedi pelo privado do facebook da Alda de Sousa mas ela não me respondeu.
Até hoje eu não tinha vacilado mas agora vacilo porque eu não quero pactuar com nazis nem extrema direita mesmo que não sejam maioria.
Aguardo a vossa resposta em silêncio mas solicito que não se esqueçam e mim.

Saudações Revolucinárias

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