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2013, Um ano faustoso para o 1 % mais rico

A desigualdade entre ricos e pobres acentuou-se ainda mais no último ano. Nos EUA, os mais afortunados detêm mais de metade dos rendimentos nacionais, atingindo um grau de concentração nunca visto desde 1917. Por Martine Orange.
De Nova York a Tóquio, passando por Frankfurt ou Londres, os mercados bolsistas voaram de recorde em recorde, apagando todos os rastos da crise de 2008 – Foto de pwallace81/flickr

Segundo os peritos, o ano 2013 foi muito melhor do que o previsto. Muitos felicitam-se de que tenham sido superados os problemas causados pela crise económica. Para justificar este retorno a uma situação mais normal, os comentadores sublinham os rendimentos “históricos” dos mercados bolsistas mundiais. De Nova York a Tóquio, passando por Frankfurt ou Londres, voaram de recorde em recorde, apagando todos os rastos da crise de 2008.

Outro dado igualmente reconfortante para os especialistas é que os mercados imobiliários, que estiveram no fundo durante mais de seis anos consecutivos, voltam a evoluir em subida. Os andares e as casas recuperam os preços estratosféricos que tanto satisfazem os comentadores. O mercado londrino está na cota mais alta dos últimos seis anos, e o de Nova York ascende a bom ritmo. Em suma, tudo está a voltar a como era dantes. Por fim, para alguns; ainda que só para um punhado.

O que distingue 2013 é o aprofundamento da fratura que separa os mais ricos dos mais pobres, o aumento cada vez mais escandaloso da desigualdade. A recuperação só valeu, e só vale, para o 1 % mais rico, em detrimento do 99 % restantes.

Segundo a classificação da agência Bloomberg, elaborada no passado dia 2 de janeiro, os 300 multimilionários mais ricos do mundo viram a sua fortuna crescer no ano passado, em 524.000 milhões de dólares norte-americanos. Juntos acumulam uma riqueza de 3,7 biliões de dólares, o que equivale ao PIB conjunto da França e da Espanha. O fundador da Microsoft, Bill Gates, volta a ser o homem mais rico do mundo, com um património de 78.500 milhões de dólares. Simplesmente, graças à especulação bolsista (as ações da Microsoft aumentaram 40 % em 2013) embolsou 15.800 milhões de dólares.

Paralelamente, as classes médias e os setores mais pobres dizem que não notam nenhuma melhoria na sua vida. Nos EUA, cuja economia é a que se considera que mais tem avançado, as condições de vida continuam a degradar-se. O rendimento médio por habitante ascende a 28.281 dólares, pelo que é inferior em valor constante ao rendimento médio de 1998. Oficialmente, a taxa de desemprego é apenas de 7 %, mas milhões de pessoas ficaram fora das estatísticas oficiais de procura de emprego. Mais de 46 milhões de norte-americanos vivem abaixo do limiar de pobreza. Enquanto a pobreza tinha descido continuamente desde meados da década de 1960, não deixa de crescer desde meados da década de 2000 e ainda mais desde que se iniciou a crise. 20 % dos jovens de 18 a 24 anos de idade vivem atualmente na indigência.

Os dados são ainda mais esmagadores no caso da Europa, onde à crise se somou a austeridade. Enquanto a economia anda aos tropeções, o desemprego atinge níveis recorde em toda a Europa do sul: mais de metade dos jovens espanhóis e gregos estão no desemprego. A pobreza reapareceu em todo o continente. Mais de oito milhões de franceses vivem abaixo do limiar de pobreza, fixado em 977 euros por mês. 15 % da população alemã também se encontra abaixo do mínimo. No seu último relatório, a agência de estatísticas de Itália assinala que 12 % das famílias deste país vivem na miséria. Na Grã-Bretanha, a Cruz Vermelha teve que reabrir centros de acolhimento para ajudar os mais pobres. As organizações caritativas multiplicam a partilha de alimentos a famílias pobres. Uma situação nunca vista desde a época da guerra, dizem.

Enquanto se dispõe a deixar a presidência da Reserva Federal (Fed), o banco central dos EUA, Ben Bernanke apresentou um balanço prudente da sua atuação. Sem a ação decidida da Fed, a situação económica seria agora bastante pior, explicou para defender as suas decisões. No entanto, reconheceu que “apesar dos avanços, a recuperação continua a ser a todas as luzes incompleta”, e prometeu que se manteria a política de baixas taxas de juro e de medidas não convencionais (quantitative easing).

Estes milhares de milhões de dólares, ienes e euros não foram parar em nenhum caso à economia real, mas provocaram uma deformação económica nunca vista até agora. O essencial foi para o setor financeiro, que o utilizou como é seu costume: especulando em massa com todos os ativos que lhe pareçam rentáveis, desde o petróleo até ao sector imobiliário, passando pelas ações e obrigações.

No passado mês de novembro, enquanto a Fed anunciava que ia continuar a injetar nos mercados 85.000 milhões de dólares em cada mês, um gerente (multimilionário) de fundos de cobertura, Stanley Druckenmiller, aplaudia esta decisão: “É uma notícia formidável para os ricos. É a maior redistribuição de riqueza das classes médias e dos pobres a favor dos mais ricos. Quem possui os ativos? Os ricos, os multimilionários. Pensam vocês que Warren Buffet disparata contra esta decisão? […] Pela minha parte, hoje foi uma jornada excelente. É possível que esta política monetária, que dá dinheiro aos multimilionários, dinheiro que vamos gastar, funcione. No entanto, desde há cinco anos não está a funcionar.”

A grande distorção

É difícil resumir melhor a política aplicada pelas economias ocidentais desde o começo da crise. Desde há cinco anos leva-se a cabo uma transferência massiva dos pobres e das classes médias para os mais ricos. Num estudo sobre o período 2009-2012,o economista Emmanuel Saez (autor de numerosos trabalhos com Thomas Piketty) conclui que “95 % dos ganhos da recuperação foram açambarcadas pelo 1 % mais rico”. Os 10 % mais ricos (com rendimentos anuais superiores a 114.000 dólares) tiveram uma descida brutal dos seus rendimentos (–36,3 %) no começo da crise devido à queda dos mercados bolsistas e imobiliários. Não obstante, ao contrário das recessões anteriores, 99 % também viram minguar os seus rendimentos em 11,6 % durante este período.

A partir de 2010, os lares mais acomodados conseguiram ultrapassar os efeitos das suas perdas. “Os rendimentos do 1 % mais rico aumentaram depois 31,4 %, enquanto as dos 99 % mais pobres só cresceram 0,4 %. Estas cifras indicam que a grande recessão afetou temporariamente os rendimentos mais altos, mas não limitará o aumento espetacular dos rendimentos dos mais ricos a que assistimos desde a década de 1970”, assinala o economista.

O longo período de redução das desigualdades que se iniciou após a crise de 1929, e sobretudo depois da segunda guerra mundial, passou definitivamente à história. Os norte-americanos mais afortunados pagaram em 2012 menos de metade dos impostos que os demais cidadãos do país, devido à fiscalidade privilegiada sobre o património. Segundo o estudo, os 10% mais acomodados da população –equivalente ao primeiro decil– recebia 50,4% do total dos rendimentos norte-americanos em 2012. Esta proporção teve que aumentar ainda mais em 2013. Semelhante nível de acumulação de riqueza em tão poucas mãos nunca se viu desde 1917, ano em que começaram as estatísticas nos EUA, assinala o estudo. Nem sequer na véspera da crise de 1929 se atingiu uma percentagem tão elevada.

Pode ser que os dados não sejam tão escandalosos no caso da Europa, mas a tendência é a mesma, como demonstram os estudos do instituto de estatística francês em relação à França e do Eurostat em relação à Europa. Em todo o lado se aprofunda a fratura entre ricos e pobres.

Nos EUA, o empobrecimento da população e o afundamento das classes médias converteram-se num tema de debate político, ainda que meramente incipiente. No começo de dezembro, Barack Obama inquietava-se perante o fim do “sonho americano”, quando uma maioria da população está convencida de que os seus filhos não poderão tomar o ascensor social. O presidente dos EUA diz que quer lutar contra as desigualdades e devolver a esperança às classes médias, que constituem a base da democracia norte-americana. Num artigo publicado a 6 de janeiro no Financial Times, Lawrence Summer, ex conselheiro económico de Bill Clinton e candidato frustrado à sucessão de Ben Bernanke na presidência da Reserva Federal, inclusive vai mais longe. Após destacar os riscos de que a economia dos EUA caia numa estagnação secular, reclama uma mudança de política, uma política de investimento em todos os âmbitos, insistindo no facto de que “o problema está mais na falta de procura que na falta de oferta”.

A Europa nem sequer começou a refletir sobre isso. Da Grã-Bretanha à Espanha, passando por França, tudo continua sob o signo da austeridade, da redução da despesa pública, da redução dos impostos, do corte dos salários e da redistribuição social. As grandes fortunas europeias não têm com que se preocupar: 2014 promete ser também em um ano excelente para elas.

Artigo da jornalista Martine Orange publicado em mediapart.fr e traduzido para espanhol por vientosur.info. Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net

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