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“Cada fotografia é um pedaço de memória e de recordação”

Mostrar as fotos de Bin Laden assassinado “seria muito paradoxal para a questão dos direitos humanos no âmbito da guerra contra o terrorismo”, defende Fernando Báez, numa entrevista. “Mas não as mostrar terá outras consequências”.
Movimentos pacifistas americanos exigem que uma das consequências da morte de Osama Bin Laden seja então a retirada das tropas dos EUA do Afeganistão.

O Presidente Barak Obama foi claro: não se mostraram as fotografias do cadáver do terrorista saudita Osama Bin Laden, aniquilado numa operação secreta no Paquistão. O Presidente fecha desta forma, talvez apenas de forma momentânea, o debate em torno da publicação de imagens para aqueles que albergam dúvidas sobre o anúncio da morte do terrorista mais procurado na história moderna dos Estados Unidos.

“Mas não as mostrar terá outras consequências”, adverte Fernando Báez*, historiador e antropólogo cultural, autor do clássico Historia Universal da Destruição dos Livros. De acordo com Báez “as fotos são importantes face aos rumores do que sucedeu. Há duas versões. A primeira e oficial: dispararam-lhe na fronte e o rosto ficou despedaçado. Falam duma imagem forte e esta prova de que o mataram é contraproducente porque a sua exposição seria incendiária. Se foi assassinado dessa maneira e desarmado, seria muito paradoxal para a questão dos direitos humanos no âmbito da guerra contra o terrorismo. A guerra contra o terrorismo não pode ser terrorista”.

Havia outra opção que não a de mostrar ou de desfazer-se do corpo de Osama Bin Laden da forma que teoricamente aconteceu?
Assinalaria vários pontos, sobretudo simbólicos, o de se ter atirado o corpo de Bin Laden ao mar. Isso, contrariamente ao que se disse, não é uma tradição muçulmana. Ignoro que lenda urbana poderá ter gerado essa ideia colectiva, nem sequer sei de que poderá ter nascido semelhante aberração.

A água, tanto para os muçulmanos, cristãos como asiáticos é ante do mais um dos elementos que simbolizam a fonte de vida, mas também de regeneração, purificação. Por isso se faz o batismo, o banho em água, que é uma purificação do pecado. Desde os tempos da Mesopotâmia, a água é muito celebrada. Sendo um deus e um dos factores mais terríveis.

Também está muito ligada ao esquecimento. No se esqueçam os gregos, quando falavam da lagoa Estígia que era preciso atravessar de barco, com Caronte, para chegar ao infra-mundo. Essa lagoa é o esquecimento. A verdade, para os gregos, não significa outra coisa senão esquecimento. Desta forma a água é o esquecimento.

Em todo o que se está a passar, outro elemento simbólico muito forte é a água como símbolo de vida e o oposto da morte. As pessoas que executaram esta operação de lançar o corpo de Bin Laden ao mar arábico, fizeram-no porque primeiro querem evitar que se institua alguma forma de santuário de alguns sectores islâmicos e muçulmanos, podendo perturbar o processo que eles estão a levar a cabo de luta e combate contra o terrorismo.

Por trás de toda esta simbologia descrita, há muitos elementos de rompimento com as verdadeiras tradições muçulmanas. Por exemplo, a de o ter colocado num cemitério muçulmano, fora das cidades árabes. Mas a água dava-lhes a oportunidade de o dissolver no esquecimento, e por sua vez de condenar o corpo ao isolamento absoluto, a não ter qualquer possibilidade de consagração ou sacralização.

Que influência pode ter tido a forma como se procedeu com os criminosos de guerra alemães depois dos julgamentos de Nuremberga, e mesmo a forma como o cadáver de Hitler foi feito desaparecer?
Depois dos julgamentos e uma vez estabelecida a sentença, muitos dos prisioneiros foram cremados. O enterro de todos os restos que foram lançados em diversos rios da Europa constituiu um segredo. Era uma operação muda. Ninguém sabe hoje em que rios da Europa, se no Danúbio ou no Reno, se espalharam esses restos.

No caso de Eichmman, o homem que viveu tão oculto como Osama bin Laden, o homem dos campos de concentração, foi capturado na Argentina em 1962, transferido para Israel, julgado e enforcado. Quando não encontram que fazer com os seus restos, são lançados ao mar Mediterrâneo num dos barcos de guerra de Israel, para que não se possa fazer dos restos de Adolf Eichmman um santuário neonazi na Europa. O que acaba de acontecer com Osaba Bin Laden é algo recorrente.

Mas a forma como se procedeu com o corpo de Bin Laden e a sua eliminação no mar Arábico, só vai alimentar a imagem de mártir e ícone nas filas dos seus adeptos?
Isso mesmo. Aí há vários aspectos que ficam no âmbito do que poderíamos chamar os erros das políticas de estado. É complexo alimentar teorias da conspiração, O Presidente disse que não mostrará a foto. Porque isso significaria um problema maior. Do meu ponto de vista, o erro foi não ter realizado uma autópsia em condições, com os médicos forenses respetivos. Já estava morto e havia tempo suficiente para a realizar.

Quem diga que não está morto, que Osama Bin Laden se encontra em fuga, terá que mostrar provas de que está vivo. Quer dizer: é um caso que social e e politicamente é muito complexo.

Algo muito atroz é a reivindicação e a legitimação de Guantánamo por trás de toda a história, o que é o mais aberrante. Porque Dick Cheney sai a dizer então que o mundo entende agora a importância de Guantánamo e que bem valeu a pena asfixiar 180 prisioneiros porque foi isso que levou ao mensageiro de bin Laden e à captura do terrorista.

Isto tem muita importância do ponto de vista operativo e social, num momento em que uma super-potência leva a cabo todas as suas ações de maneira unilateral.
Já era difícil fechar Guantánamo, sendo uma das promessas políticas de Obama, mas agora tornou-se complexo do ponto de vista do que este acto vai significar para o futuro.

As fotos são importantes face aos rumores do que sucedeu. Há duas versões. A primeira e oficial: dispararam-lhe na fronte e o rosto ficou despedaçado. Falam duma imagem forte e esta prova de que o mataram é contraproducente porque a sua exposição seria incendiária. Se foi assassinado dessa maneira e desarmado, seria muito paradoxal para a questão dos direitos humanos no âmbito da guerra contra o terrorismo. A guerra contra terrorismo não pode ser terrorista.

Cada fotografia é um pedaço de memória e de recordação. Tem muito que ver com a identidade. Quem coleciona álbuns de fotos, guarda experiências de vida do que se passou. No álbum dos Estados Unidos, quando se passar a página do Iraque, Afeganistão, Guantánamo e se chegar à de Osama bin Laden, dir-se-á que tudo o anterior teve enorme justificação porque se conseguiu o que se propôs. Quer dizer: o fim justifica os meios. É o argumento que nos resta do que aconteceu.

A forma como foi tratado o corpo de Ernesto Che Guevara, a amputação das suas mãos, a busca durante décadas do seu cadáver, é o exemplo a citar no caso de América Latina?
O caso do Che Guevara tem muita relação com isto. Como dizes, foi mutilado, algo que se assinala que pode ter ocorrido com Bin Laden na medida que teriam ficado com as suas mãos para poder ter elementos identificativos. E que por isso a fotografia é complicada de mostrar na íntegra. O corpo do Che foi sepultado num lugar enigmático. O seu achado transformou-se num elemento de busca de identidade latinoamericana, até que os restos foram encontrados.

Há muitos outros exemplos. O que mais me assombra é a busca do túmulo de Alexandre Magno, um dos grandes mitos para a configuração da identidade europeia. O seu achado é uma obsessão. O ataúde de oro maciço ainda não foi encontrado, mas o lugar da memória de Alexandre Magno perdeu-se, não aparece; mas a importância deste morto é capital para a história de Europa, e consegui-lo é assunto que gira em torno da identidade.

*Assessor da UNESCO. Báez esteve envolvido na criação de fundações culturais na Europa e Latinoamérica, e da mesma forma, enquanto consultor, em iniciativas regionais dedicadas a despertar a atenção em todos os níveis pela destruição cultural. Em 2007 inaugurou o primeiro Doutoramento em Património Cultural da Latinoamérica na ULAC, com sede em Caracas.

A sua investigação atual consiste num projeto de livro sobre a guerra cultural dando atenção ao problema da destruição do património cultural mundial.


Entrevista por Pablo Gámez, publicada a 5 de maio de 2011, em Radio Nederland - LatinoAmérca. Tradução de Paula Sequeiros.

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