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Urgências, uma reportagem que devia demitir um ministro

Muito se tem falado e comentado a reportagem da jornalista Ana Leal emitida pela TVI. Pela primeira vez o país viu, sem sombra de dúvida, aquilo que há muito tempo é dito por quem, nos últimos tempos, teve a infelicidade de cair numa urgência e sentir na pele a degradação progressiva daquele serviço na maior parte dos hospitais portugueses.

Primeiro mérito: a realidade entrou pela casa dentro dos portugueses desmentindo com estrondo a narrativa governamental de defesa e melhoria do SNS. Mas, o trabalho de Ana Leal tem ainda mais dois outros méritos, pelo menos.

Segundo mérito: a reportagem destrói a tese de que o colapso das urgências é devido à falência dos cuidados primários. Sendo verdade que os centros de saúde estão hoje impossibilitados de dar resposta a muitas situações de doença aguda - o que permitiria que muitos doentes não fossem obrigados a recorrer a um hospital - o que a reportagem mostra é que, os doentes que se acumulam em macas pelos corredores e por todo o lado em que ainda há um metro quadrado livre, em qualquer circunstância precisam de cuidados hospitalares e de ser internados, o que não teriam num centro de saúde por maior que fosse a vontade dos seus profissionais. Não há doentes a mais ou casos indevidos nas urgências hospitalares, o que há é capacidade de internamento a menos nos hospitais, do que resulta a acumulação de doentes nos SO e arredores das urgências, horas e dias à espera de serem finalmente internados.

Terceiro mérito: cai pela base a ideia que o estrangulamento exuberantemente ilustrado pela reportagem resulta da falta de médicos nos serviços de internamento. A falta de médicos e de enfermeiros é uma verdade indesmentível mas não é essa a razão que provoca a acumulação dos doentes nos corredores das urgências. Essa indecorosa e desumana situação resulta da falta de camas para internar o número de doentes que necessitam de ser internados. E se faltam camas é porque alguém decidiu - por razões ideológicas e favorecimento do negócio privado - abater camas nos hospitais do SNS, na mira da poupança à custa da qualidade dos serviços públicos de saúde.

Esse alguém tem nome: Paulo Macedo, ministro da Saúde. Que mais é preciso acontecer para Paulo Macedo se demitir ou ser demitido?

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.

Comentários

Perdoem-me a ignorância, mas permitam-me a questão: Porque não se aplica no nosso país, uma política onde não há médicos e hospitais estatais e privados, há médicos e hospitais e estes, são obrigados a atender e tratar qualquer doente que se apresente e for portador do cartão da segurança social, pagando exactamente o mesmo que lhe seria cobrado no serviço estatal. Quem desconta para a segurança social, pode ser tratado por qualquer médico e em qualquer hospital (seja ele privado ou não), desde que apresente o cartão da segurança social. Caso não seja utente da segurança social, pagará do próprio bolso, qualquer serviço que lhe seja prestado. Como o sistema está presentemente a funcionar, parece-me não ser o suficiente, para satisfazer quer os doentes que a ele recorrem, quer para os profissionais de saúde, que por vezes, parecem trabalhar em cenários de guerra ou de catástrofe.

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