Um pobre museu-quase

Uma passagem por Peniche fez-me regressar à Fortaleza e ao núcleo museológico aí instalado, dedicado à resistência ao Estado Novo. Como seria importante termos ali um grande museu da repressão e da resistência.

Uma passagem por Peniche fez-me regressar à Fortaleza e ao núcleo museológico aí instalado, dedicado à resistência ao Estado Novo. Como seria importante termos ali um grande museu da repressão e da resistência.

Uma passagem esta tarde por Peniche fez-me regressar à Fortaleza e ao núcleo museológico aí instalado, dedicado à resistência ao Estado Novo. Entre 1934 e 1974, o forte albergou centenas de presos das mais variadas estirpes políticas: reviralhistas, socialistas, anarquistas, comunistas, membros de grupos de extrema-esquerda, de luta armada e de movimentos independentistas africanos. A memória coletiva preservou sobretudo a imagem dos presos do PCP – a maioria, sem dúvida, sobretudo se nos remeteremos às décadas de 1950 e 1960. A última visita ao local, já há uns anos, não me deixara uma impressão positiva: um espaço exíguo, documentos descontextualizados e uns horríveis bonecos em forma de gente a ilustrar presenças no parlatório.

Os bonecos felizmente desapareceram mas o espaço continua a ressentir-se de uma evidente pobreza estética, documental e narrativa. As dinâmicas repressivas – a perseguição, a tortura, os processos judiciais, as limitações em ambiente prisional – estão praticamente omissas. As fugas não se encontram referidas, tirando a menção ao modo como, em 1954, Dias Lourenço fugiu do "segredo". Os quotidianos prisionais – o "passar" do tempo, as lutas contra o carcereiro, as solidariedades entre presos, os conflitos ideológicos entre as diferentes famílias políticas – são esquecidos. Por fim, os antigos pavilhões surgem sem identificação e, vistos de fora, a imagem que salta à retina faz-se de grades corroídas pela maresia e vidros partidos das antigas celas. Um cenário triste.

Há no entanto um dado muito positivo a registar: durante o período de cerca de uma hora que permaneci no recinto, várias dezenas de pessoas percorreram o espaço do parlatório. Liam os documentos, adivinhavam sofrimentos passados, procuravam contar aos mais novos as razões pelas quais o regime enclausurava e como no parlatório se processavam as visitas. Nem todos eram “avós antifascistas”. A maioria, aliás, aparentava ter nascido já depois do 25 de Abril, e vinham quase sempre “em família”. Não deixa de ser uma mistura estranha: um proto-museu paupérrimo, um convidativo dia de praia e muita gente interessada em visitar o passado repressivo da ditadura.

Sabemos como a relação da sociedade e do Estado português pós-democrático com a memória do Estado Novo tem sido hesitante, para recorrer a um eufemismo. Só nos últimos anos, houve a tentativa de usurpação empresarial de espaços simbólicos, alguns sobressaltos cívicos determinados por essa intenção, a vitória de Salazar num concurso televisivo destinado a eleger o "grande português", um lampejo parlamentar em torno do "dever de memória" e a anunciada criação de um museu da resistência no Aljube (mas que poderá vir a ser apenas uma espécie de upgrade da já existente Biblioteca-Museu República e Resistência, da Câmara Municipal de Lisboa). Em Peniche, diante daquela luz imensa e daquele mar sem fim, só pensei em como seria importante termos ali um grande museu da repressão e da resistência no Estado Novo. Tenho a certeza de que fazê-lo custaria menos do que uma fatia de submarino e imagino que seria possível animar estratégias que fizessem o espaço dar mais retorno à comunidade do que uma pousada no local. Mas para isso seria preciso que deixássemos falar em nós algo mais do que a modorra dos dias.

Artigo publicado no blogue Arrastão


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