Tempo sorvado. O dia de hoje. Lusco-fusco a todas as horas.
Não é o relógio que marca o tempo.
As marcas do tempo são-nos dadas pela paz e pela guerra, pela luz que incide sobre um quadro, ou por um qualquer compasso musical que nos desata o coração.
O tempo é marcado por encontros e desencontros, por vanguardas e recuos, por quem quis escrever a História no futuro, e por quem quis enterrar a História no passado. O tempo é marcado pela panóplia de pensamentos sonhados que o próprio tempo põe a render, como se fosse um improvável banqueiro honesto. Do sonho colectiviza a esperança.
O tempo conseguiu voar como um pássaro doido numa velocidade desconhecida e andar debaixo de água como um peixe de escamas metaliformes. Conseguiu aos tropeções libertar a humanidade da escravatura, e tinha conseguido antes atolá-la no pântano escravo pretensamente imóvel, de que depois se libertou. O tempo fez caçadas e incendiou castelos. O tempo fez comércio por entre veredas, com mulas de almocreves a carregarem fantasias, e encheu porões de navios com estranhezas várias e especiais especiarias. O tempo voou que nem um cavalo selvagem num rodeo de carris e depois encafuou-se suado de vapor a produzir, numa fábrica de tecidos. Fez naves espaciais e drogou-se de electrónica.
O tempo, muitas vezes, faz-se desentendido. Fica melancólico ou fica estouvado a perder-se em prodigalidades; fica tristonho, de beiço caído, ou fica glamoroso em festas que incendeiam a alma festejante. Fica escondido, muitas vezes com o rabo de fora, como os gatos malteses das cantilenas das crianças, e outras vezes aparece feérico e total sem pinga de pudor.
Nas calçadas batidas pelos passos de muita gente, as ruas vão marcando o tempo de todas as épocas. As ruas são memórias de ganhos e perdas. De acontecimentos irrepetíveis porque cada tempo contém sempre uma experiência única.
As ruas são como as pessoas. Sorriem ou choram conforme o que lhes aconteceu. Às vezes no seu traçado, no corpo que lhes edificaram, as ruas parecem dormir por um prazo interminável, no fosso das horas paradas. Quando acordam de repente, a energia que simulava dormir reaparece faminta de movimento. Agita-se e propaga-se. Os poderes uivam, então, com um medo arrepiante.
Foi assim, na rua, no tempo da rua, que a humanidade conseguiu as férias. Foi assim, no tempo da rua, que os direitos amanheceram. À medida que a rua avança e a febre sobe, os que hão-de ser depostos perdem a benignidade recente em que se penduraram e agarram-se ao poder com as garras e as guerras todas.
No delírio da História, na febre dos dias absolutos, os governos, ao princípio, parecem feras amansadas, leões cordatos e obedientes, tigres submissos que prescindem da sua crueldade felina, ursos pacatos e humildes que se sujeitam a malabarismos indizíveis.
No tempo que vem depois, é o que se sabe.
Os actuais mandantes deste tempo sarnoso em que estamos mergulhados odeiam o ontem e estão-se nas tintas para o amanhã. Florestas inteiras a desaparecerem. Petróleo tido por infindável. Infindavelmente finito. Gás, gazes, a lixar o ozono. Carvão. Armas. Bombas. Cancros. O palco do nosso tempo.
É o agora que os excita e dentro do agora a zona do já. O seu tempo não tem a densidade do tempo. É volátil como tudo na vida que querem viver. O efémero reina. Religiosamente efémero, devotadamente descartável. Por isso, para eles, a memória é um obstáculo, a sua preservação uma inutilidade, a sua publicitação um perigo. Desrespeitam a vida que há-de vir e profanam os livros em que se guardou a vida que já foi.
A história tem para esta gente o cheiro da delação.
Para eles a vida não é uma aventura. É um investimento. Rápido e rentável. Obviamente especulativo, como os ratings das agências, ou as medidas anunciadas pela voz mole de um ministro.
Não temos tempo para nada nem coisa alguma. A natureza não é assim. Tudo neste tempo é simulação. Até o próprio tempo atmosférico é simulado, na frescura de um ar condicionado ou na tepidez amiga de um aquecimento.
Simulação. Mentira. Patranha. Falsa velocidade. Eternização da volatilidade de cada segundo, como se cada compasso que o tempo tem, abdicasse da sua existência. É assim que é o tempo que pretendem que vivamos. Tempo falso que precariza a vida, no patológico frenesim do sistema que se auto avalia como único e perpétuo. Um sistema que se arroga proprietário do tempo.
O que o bando que está no poder se esquece é que a única coisa que é definitiva no tempo é o facto de ele ser sempre temporário. De facto, nada fica. Tudo vai. Mas tudo tem dentro de si o que já foi. O efémero não existe.