Seis notas pessoais sobre os resultados do Bloco de Esquerda

As derrotas, quando bem analisadas, ensinam-nos seguramente mais do que as vitórias.

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As derrotas, quando bem analisadas, ensinam-nos seguramente mais do que as vitórias.

1. A derrota do Bloco nas eleições legislativas é suficientemente expressiva para dispensar tergiversações. Ela é da responsabilidade da direcção do BE no seu conjunto e devemos discuti-la colectivamente com seriedade, dentro do Bloco e com os seus simpatizantes, com o espírito de reforçar a nossa unidade em torno das políticas que nos habilitem para os duríssimos combates que temos pela frente. O BE perdeu uma batalha e deve preparar-se para vencer na guerra. As derrotas, quando bem analisadas, ensinam-nos seguramente mais do que as vitórias.

2. Do meu ponto de vista, a esquerda portuguesa e o BE em particular, à semelhança de situações similares em outros países europeus em crise, não conseguiu contrariar a vaga do voto do pânico, do voto na ilusão de uma solução, de um acordo, que, mesmo com algum sacrifício, há-de trazer, ao fim e ao cabo, o regresso à normalidade do emprego, do salário, da pensão, da renda da casa. Um voto que quer ver no acordo com a Troika – cujo significado foi deliberadamente ocultado na campanha pelos partidos seus subscritores – uma tábua de salvação face ao desastre iminente. E que puniu os que “ficaram de fora”, os que “não podiam influenciar”, os que pareciam não ter nada para lhes dar quando – dizia-se –  a partir  de Junho nem dinheiro para os ordenados havia. Esta visão foi, aliás, massivamente difundida pelos media numa campanha ideológica sem precedentes de “irresponsibilização” (“caloteiros”, marginais da política, radicais, indignos da confiança do povo aflito…) do BE e das suas propostas alternativas, aliás por nós sistematicamente apresentadas e bem defendidas.

3. Apesar de o BE, na minha opinião, ter conduzido, do ponto de vista do discurso político, uma das melhores campanhas políticas eleitorais da sua curta história (propositiva, pedagógica, realista, contida), e apesar do empenho dos seus militantes e apoiantes por todo o país, isso não foi suficiente para conter a vaga do voto na “segurança” e no mal menor. E por aí perdemos milhares de votos populares até para o PSD e alguns para o PP. A gravidade e extensão catastrófica da presente crise empurraram o voto do eleitorado popular flutuante para o refúgio aparente da “segurança” e da “protecção” da direita e dos seus tutores externos da Troika. A impopularidade imensa de Sócrates e do governo PS fez o resto.

4. O voto útil no PS, alimentado pelas sondagens que durante semanas davam um “empate técnico” com o PSD, naturalmente também funcionou, sobretudo em certas margens mais politizadas do nosso eleitorado flutuante. Não me parece, contudo, que tenha sido o factor determinante. Tal como a abstenção, igualmente, penalizou sobretudo a esquerda. O PCP, escorado no seu aparelho sindical e autárquico, com um eleitorado tradicionalmente fixado, defendeu com mais eficácia o seu espaço social e político de sempre e até algum voto de protesto. Mas creio que a situação que originou esta grande viragem à direita respeita a algo de mais vasto e profundo. É claro que podemos agarrar-nos, também, à discussão de algumas decisões tácticas que o BE nos últimos meses (presidenciais, moção de censura) e da sua possível influência nestes resultados. Sei que uma ou outra opção originaram dúvidas e oposições de militantes e votantes no BE. Mas creio que a extensão das deslocações de votos indicam com segurança que elas são movidas por opções que em muito ultrapassam os círculos mais politizados e informado em redor do Bloco eventualmente influenciáveis por tais escolhas. É para a natureza política e social do novo ciclo político que devemos olhar. E aprender.

5. O coro dos comentadores da direita parece querer transformar o rescaldo eleitoral num ajuste de contas raivoso com Francisco Louçã. Não se iludam. A direita quer duas coisas: silenciar o porta-voz desta esquerda subversiva e firme na denúncia da ordem estabelecida e, com isso, sonha mudar a cor do BE. Fingem não perceber que neste partido, em lutas desta envergadura, não há responsabilidades individuais. Nem nas vitórias, nem nas derrotas. Creio que é preciso sabermos ser nós, colectivamente, a fazer este balanço sempre com o objectivo de atingir uma unidade superior em torno de uma política adequada. O balanço das eleições tem de se fazer não nos jornais mas nos órgãos democraticamente eleitos pela Convenção. É a diferença entre ser a direita a fazê-lo ou o nosso colectivo do BE.

6. Mesmo nesta situação excepcionalmente difícil e complexa, alvo de um ataque ad odium e concertado sem precedentes, o resultado do BE demonstra que é um partido seguramente enraizado em sectores importantes do povo que de Norte a Sul do país continuaram a fazer dele o seu partido e a sua voz. Ao contrário do que os plumitivos e comentadores da direita voltaram excitadamente a anunciar, o BE perdeu, recuou, mas aguentou o embate. Tem raízes que esta tempestade não quebrou nem romperá. É agora altura de balanço e de luta. Com uma certeza. Nos duros combates que se avizinham, nas difíceis condições que temos pela frente, os trabalhadores, os jovens, os desempregados, os pensionistas, os precários, sabem onde nos encontrar: na primeira linha, dentro e fora do parlamento, a defender os seus direitos, a combater a barbárie neoliberal, a batalhar pelo socialismo. É assim. Quem vem de longe e quer ir para mais longe ainda, não desfalece.


Comentários

Professor F. Rosas:
Leia esta amostra da"ideologia" do Bloco.Mas o que queria perguntar era: acha que sem teoria revolucionária há movimento revolucionário? E a práctica colectiva, a vida e a luta, constroem ideológicamente um comunista, um revolucionário? Acha que o seu Bloco constroi revolucionários ou reformistas?
"(...)Ao BE faltou, na minha opinião, usar truques deste género(...)O discurso ideológico disparado de chofre causa repulsa(...) É necessário um jogo de cintura táctico e político que preserve a ideologia sem fazer da sua afirmação diária o objectivo máximo.(...)"
Assim os truques substituem a ideologia, na construção de um reformista.
Pois é, isto de substituir a análise materialista da História (materialismo histórico) e o instrumento de leitura da realidade e da mudança (materialismo dialético) por truques como "esquerda moderna" "de confiança", e outros "jogos de cintura" só serve à causa reformista,ao Zé ou ao Manel que "faz falta".
Daniela Maia

(...continuação)

BE perdeu votos porque os Portugueses não querem TGV, nem BE a apoiar Socialistas em presidenciais, nem moções de censura em tempo de crise, nem gostaram que o BE tenha fugido às responsabilidades de representar os seus eleitores ao não falar com a troika, estão fartos do mesmo Coordenador e do mesmo discurso repetitivo, nem querem um governo BE a fazer irresponsabilidades como renegociação da dívida.

BE manteve 50% dos votos pois foi para esses eleitores uma escolha por exclusão de partes ou um voto de 2ª oportunidade.

RECUPERAÇÃO só pode ser feita reconhecendo erros sem desculpas e tornando-se um partido adulto para governar.

EXERCÍCIO para o BE:

"PS perdeu 50% dos votos em 6 anos, logo líder deu lugar a outros e PS tem de reconhecer os erros e mudar relativamente a esse período."

Senhores do BE, se concordam com isto, substituam "PS" por "BE", "6" por "2".

Abstenção é irresponsabilidade ou covardia (ex: descontentes com partido favorito preferem não votar), portanto SEMPRE VOTEI!

DEMOcracia: liberdade e direito de votar - é o mais importante na vida de cidadão, logo acho estupidez ser só de esquerda ou só de direita, prefiro escolher a melhor solução caso a caso independentemente da ideologia, nenhum partido é dono do meu voto, analiso e escolho em quem voto durante a legislatura e já sei em quem voto antes da campanha, a qual não me interessa NADA! pois é só publicidade enganosa e populismo.

Assim, com 25 anos, votei sempre BE, excepto AUTÁRQUICAS onde NÃO SE VOTA em PARTIDOS, SIM em PESSOAS & PROJETOS LOCAIS.

(continua...)

Boa Tarde,

Apesar de admirar, muitas vezes, as intervenções do Sr. Fernando Rosas fiquei neste caso perplexo pois cheguei à conclusão que afinal não aprenderam nada com a derrota. O texto escrito no formato marxista da guerra fria em que a culpa é dos outros (dos fantasmas da direita e dos jornalistas raivosos)não é verdadeiramente introspectivo e humilde. Na verdade a derrota do BE deveu-se à mensagem de ódio, vingança e tênue inveja presente na mensagem da campanha.
Por fim os grandes vencedores foram os partidos com mensagens coerentes com perspectiva de futuro onde se incluí o PCP por ter feito uma campanha de acordo com os argumentos de base da comunicação comunista.

Vão-me desculpar-me mas várias vezes perguntei-me do que seria Portugal caso alguma vez o BE chegasse ao poder. Pelos vistos muitos fizeram essa pergunta e a resposta está fortemente cimentada no resultado eleitoral.

Caro Fernando Rosas,
o que afirma no ponto 1, nega-o nos restantes.
Não vejo na sua análise qualquer vislumbre de uma autocritica.
Quanto a mim o essencial é mesmo uma mudança de atitude: o Lula arriscou sujar as mãos no concreto. O BE continua a falar sobre como deviam ser as coisas. Se alguma coisa me chocou nas posições recentes no BE foi a aceitação do TGV. não vêem que não há dinheiro para essas coisas?
Sem quaisquer ilusões, votei Bloco. Cá em casa votámos todos no Bloco. Por ausencia de alternativa.

Neste cenário que o BE enfrentou nem Jesus Cristo ganhava a freguesia de Nossa Senhora de Fátima.
Façamos as nossas análises e partamos mais estruturados e mais fortes para os próximos desafios que aí estão à porta

Depois de ontem à noite ter visto na Sic (penso eu) 2 pretensos bloquistas (Daniel Oliveira e Joana Amaral Dias) a defenderem a saída de Francisco Louçã como coordenador do Bloco,como fruto dos resultados eleitorais, só posso agradecer uma crónica como a do camarada Fernando Rosas, que coloca tudo no seu devido lugar e lembra aos aderentes e simpatizantes que o bloco é um partido democrata e que respeita a decisão tomada pelos delegados democráticamente eleitos na sua VII Convenção, realizada á um mês. Se estes dois personagens tivessem um mínimo de decência, fechavam a boquinha, respeitavam as decisões tomadas e ajudavam o partido a crescer para o futuro.

Bem dito, eu votei e participei nesta convenção pela primeira vez - por pouco que fui ao púlpito, mas senti uma grande responsabilidade que me paralisou. O rumo traçado, foi validado, não acho que agora se deva realizar uma convenção para mudar de coordenador. Quando a linha estratégia e os objetivos da batalha pelo socialismo, como disse Fernando Rosas, estão por concretizar. Chegará o tempo que escolher entre a comissão política um novo coordenador ou coordenadora. Agora, não se limpam armas. Refletiremos, pois, mas não transformemos o Bloco num partido social democrata. Pois somos um partido e não um clube de senhores.

Inteiramente subscrito.

Ter um novo coordenador no partido ou não é uma decisão que só cabe à estrutura do próprio bloco. Na minha humilde opinião, até porque estou à distância, as lideranças têm ciclos de vida e talvez seja o momento de FL dar lugar a outro líder com uma visão diferente. Mas independentemente disso, existem outros aspectos a afinar nomeadamente na comunicação. O BE tem de apresentar a sua mensagem através de uma oratória simples, coerente, concisa e clara a respeito das suas convicções e do programa político que defende e para que o comum cidadão a depreenda com facilidade. Mas há mais. A atitude do bloco, por vezes ingénua, já não o favorece nesta fase. Tem adoptar uma postura mais serena mas simultaneamente implacável e acutilante para com os adversários políticos. Esta é a minha opinião, vale o que vale, mas é sincera e tem como objectivo contribuir para um BE mais forte.

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