Resistir é existir

porFabian Figueiredo

28 de setembro 2011 - 2:57
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É sabido que toda a política austeritária, a que os donos de Portugal estão a submeter a larga maioria dos cidadãos, não passa de uma oportunidade para legitimarem o acerto de contas com o susto que a revolução de Abril lhes provocou.

É igualmente certo, que qualquer projecto ideológico não se concretiza do dia para a noite, que as pedras para o caminho penoso que hoje Portugal atravessa a toda a velocidade, foram sendo lançadas durante as passadas décadas. Legislatura após legislatura, a maioria negativa do rotativismo ao centro esforçou-se por avançar com o seu projecto civilizacional. O código laboral foi-se desnudando do espírito que o ergueu, a Constituição da República enfraquecida, os Serviços Públicos gradualmente desintegrados e oferecidos ao capital privado… A velocidade cruzeiro destas reformas pode ter sido diferente em vários anos de governação, mas o horizonte nunca deixou de ser fixo: diminuir os custos do Trabalho, aumentar a taxa de exploração e engrandecer desvairadamente os lucros, reduzir ao limite os direitos, a capacidade de resistência, em suma, fazer do estado um protectorado dos interesses da elite contra a vontade popular.

É um projecto perverso, desumano, extremamente espinhoso e absolutamente fundamentalista que está em curso - e acima de tudo impensável à imagem do que se ergue quando se pôs termo aos tempos da outra senhora – é um novo país, uma nova ordem, um novo regime que se procura erguer através das cinzas dos direitos, liberdades e garantidas populares e uma desgostosa e crua resposta à interrogação mais clássica de Almeida Garrett1. Desemprego, precariedade, endividamento, pobreza, injustiça total. São estes os preços que pagamos para produzir ricos em Portugal e para dar cobro a um programa de verdadeiro reajustamento com a história, a democracia, a cidadania e acima de tudo com a dignidade da pessoa humana.

É triste e revoltante olhar-se para o rumo doloroso a que estamos a ser sujeitos neste preciso momento a comando da finança e dos seus executores bajuladores – que por hoje ainda se denominam governo. Ao ponto que a surrealidade os cortes, privatizações, impostos e demais medidas que vão desfilando lugubremente sobre tantas vidas e anseios ser tão macabra que torna limitado os espaços fantasiosos que a cinematografia conseguiu explorar.

Se por um momento de conforto achássemos que é a boa ventura que conduz o espírito das reformas, mudanças e demais medidas, poderíamos dar-nos ao luxo de pensar que este continente nada aprendeu com as guerras do passado século, com as malfeitorias com que presenteou os seus povos e com os déspotas que viu erguer. Mas a realidade é clara e dura, a guerra é total e contra os povos, sem balas nem fardas militares, impõe-se o maior plano anti-social que a Europa já conheceu dentro de uma aparente normalidade constitucional.

Só a cidadania activa, as movimentações de massas e o resgate da memória colectiva para o epicentro da discussão pública poderão colocar cobro a este extremo processo de extorsão social. A rua terá de impor ao país uma alargada agenda de higiene democrática, para o regresso ao passado não sair efectivamente da tela directamente para o nosso contemporâneo. Só a resistência e a vontade popular poderão garantir que a apólice civilizacional que fizemos com os cravos não expire nos próximos anos. Resistir é mais do que nunca existir.

1 “E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

Fabian Figueiredo
Sobre o/a autor(a)

Fabian Figueiredo

Deputado do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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