Já há muito que percebemos que não temos um Governo que defenda os mais fracos. Quem manda neste país abandonou os idosos desprotegidos, os desempregados, os jovens estudantes sem futuro, os trabalhadores a quem cortam nos direitos, e apontou-nos a porta da rua, indicando que o resgate de uma vida com direitos e estabilidade só pode acontecer fora do país. Agora sabemos também que nada está adquirido, tudo está a saque. Mesmo os direitos legalmente consagrados. Passos Coelho disse neste domingo que os reformados, que foram trabalhadores e descontaram ao longo da sua vida para ter direito às pensões, vão sofrer cortes. O PM diz que há pensionistas que descontaram para ter reformas que “não deviam ser tão elevadas”, e que estes têm de dar um contributo maior nesta altura de crise. E dá exemplos concretos de onde quer começar este assalto aos bolsos dos pensionistas: os reformados do Estado "têm hoje pensões e reformas bem mais elevadas" do que aqueles que trabalharam no sector privado, o que constitui "uma injustiça imensa”.
Percebemos o que quer o Governo: tributar as pensões dos reformados, retirar rendimento a quem descontou toda a vida para a ele ter direito, cortar nas pensões de todos e nivelar por baixo. E no campo da demagogia e da arbitrariedade vale tudo para este Governo, que argumenta que “há pessoas que estão reformadas e que têm reformas que são pagas por aqueles que estão hoje a trabalhar", que "nunca terão" reformas desse nível. Obrigado pela clareza, senhor Primeiro-Ministro. Já sabíamos, mas agora está assumido: estamos a empobrecer e o futuro reserva-nos um ataque crescente aos rendimentos de todos, em que os reformados são também um alvo a atingir. Trabalhamos hoje, para sermos cada vez mais pobres no futuro. Com menos rendimentos, menos proteção social, menos pensões. Ficam claros os resultado desta política de assalto que está a ser executada, doa a quem doer. As palavras de Passos não podiam ser mais esclarecedoras sobre a resignação do Governo perante o falhanço da sua própria política social. Mas não nos enganemos, o argumento de taxar as pensões dos privados por uma questão de “justiça” é areia para os nossos olhos. O “contributo especial” de que fala o PM não consegue esconder que o que o Governo quer é ir aos bolsos de todos os reformados. E não vai esperar muito para o fazer, o plano já está em marcha e é mais um prego no caixão do estado social.
A defesa dos pensionistas e idosos não passa de um slogan velho e gasto do CDS, que a coligação hoje deitou no lixo. Se mais argumentos haveria para que o Presidente da República agisse em defesa da Constituição, a criação de impostos sobre as pensões dos reformados é uma razão de peso que justifica que Cavaco saia desta letargia cúmplice com o assalto que o Governo está a executar levando adiante este Orçamento de Estado da desgraça.