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O drama da banana

A banana é um fruto tão omnipresente nos supermercados que o damos por garantido. Contudo, cada dia é vivido à beira da extinção.

As bananas estão cada vez mais caras: condições climáticas adversas, dólar forte e combustíveis mais caros queixa-se uma companhia importadora do fruto para a Europa. Nada que afete o negócio já que os seus lucros subiram 30% no primeiro semestre. A quase escravatura sempre deu bons resultados, para alguns...

A banana é um fruto tão omnipresente nos supermercados que o damos por garantido. Contudo, cada dia é vivido à beira da extinção. É que praticamente todas são da mesma variedade (Cavendish) e “gémeas”, descendentes da clonagem da mesma planta estéril e sem sementes maturas. Um estudo publicado na Science dava um horizonte de dez anos à variedade caso nada fosse feito. Outras variedades, como as pequenas da Madeira, são cada vez mais raras.

A extinção não é um acaso. Nos anos cinquenta, a banana então dominante no mercado internacional (Gros Michel) quase se extinguiu devido à doença do Panamá. Na altura foi possível substitui-la pela Cavendish, resistente a esse fungo. O problema é que quando todas as plantas são iguais, quando não existe diversidade genética, a doença que mata uma planta mata todas por igual. O mesmo acontece perante alterações climáticas, pragas e acontecimentos imprevistos. O perverso é que a absoluta predominância comercial de uma variedade arrasa a existência das outras, mesmas as presentes na natureza, e acentua a falta de biodiversidade.

A natureza evolui e a Cavendish é já vulnerável à nova forma da doença do Panamá, assim como a um outro fungo que provoca a sigatoka negra, o que torna o seu cultivo fortemente dependente de pesticidas e de outros meios industriais. Foi para debelar esta fragilidade que uma equipa de cientistas sequenciou todo o genoma da banana. Não da Cavendish, o que seria inútil, mas da variedade selvagem da espécie que contém fartas sementes. Este avanço pode revelar-se essencial para encontrar formas eficazes de combater os fungos e salvar a espécie. Apesar da sua importância para a alimentação de milhões, para a economia de vários povos e dos lucros de milhares de milhões das empresas do setor, encontrar o financiamento necessário para a sequenciação demorou anos. Numa área como a investigação científica e a segurança alimentar as políticas públicas são essenciais e imprescindíveis e acabou mesmo por ser um estado europeu a assumir grande parte dos custos.

O drama é que o modelo da banana está a ser exportado para toda a nossa agricultura: cada vez menos diversidade genética, maior padronização, total dependência de pesticidas específicos, esterilidade como forma de dependência. Tal como a escravatura, este é um bom sistema para o negócio - enquanto durar - mas é péssimo para a Humanidade, para o planeta e para o futuro.

Sobre o/a autor(a)

Biólogo, dirigente do Bloco de Esquerda

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