Todo o argumento que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais humanos e não humanos, tenta retirar aos últimos o direito a ter direitos somente por pertencerem a uma espécie diferente da nossa.
Até agora, todo o argumento que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais não humanos e humanos falhou. Falham porque ao estabelecer qualquer distinção, vão sempre deixar de fora alguns humanos, como por exemplo, bebés, algumas/ns portadoras/es de deficiências e comatosos.
Estes argumentos tentam assentar em características como a razão ou a capacidade de planear o futuro, entre outras.
Mas de onde advém o estatuto moral de um ser que justifica a reivindicação de direitos morais? Há quem defenda que só tem direitos quem tem deveres. Isto é obviamente falso, porque, por exemplo, não vamos deixar de atribuir direitos às crianças e, certamente, não lhes iremos atribuir deveres. O mesmo se pode dizer de pessoas portadoras de deficiências graves.
O estatuto moral de um ser advém dos seus interesses ou, coletivamente, do seu bem-estar. Por isso nos chocamos tantas vezes com notícias de que há populações devastadas pela fome ou por uma catástrofe ambiental. Chocamo-nos porque percebemos que o bem-estar daquelas pessoas está comprometido.
Também percebemos hoje que os animais sencientes – aqueles que têm a capacidade de sofrer e de sentir prazer – carecem de certas condições para garantir o seu bem-estar. Portanto, podemos dizer que todo o ser senciente tem um estatuto moral – tem o interesse de não sofrer, por exemplo, e o interesse de desenvolver as suas capacidades livremente.
Logo, todo o argumento que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais humanos e não humanos, tenta retirar aos últimos o direito a ter direitos somente por pertencerem a uma espécie diferente da nossa. Tal cai na discriminação pela espécie, o que é designado por especismo.
A mesma ideologia que suporta o especismo, está presente nas ideologias que suportam o racismo e o sexismo. Tal como o especismo, o racismo e o sexismo supõem que há diferenças significativas entre raças e sexos que justificam a discriminação e a opressão do grupo considerado inferior.
Historicamente, negras/os e mulheres foram associadas/os a animais (não humanos), onde eram caracterizadas/os como irracionais e não completamente humanas/os. Nestes moldes, negras/os e mulheres estavam suficientemente afastadas/os da humanidade. Sendo mais fracas/os e inferiores, apenas serviam o propósito de ser usadas/os pelo homem (branco).
A mulher foi (e é) muitas vezes retratada como animal, não racional, ser privado de inteligência, a quem não cabia direitos. Hoje, apesar de ter direitos, é ainda alvo de discriminação em casa, na escola, no trabalho... Retratos da mulher-animal ou mulher-objeto são vistos ainda hoje na publicidade, por exemplo, onde a violência contra corpos femininos, hunamos e não humanos, é aceite, desejável e até divertida.[1, 2]
Já durante a colonização pelo homem branco europeu, a ciência não parou de tentar provar que o negro era homem-bicho. Mais próximo do macaco que do homem, era estudado e exibido como qualquer outro animal. Ainda hoje o retrato do negro-bicho está presente em diversas imagens.[3]
As questões de opressão advêm sempre do facto do grupo dominante identificar alguma característica no grupo oprimido que o torna, na opinião do opressor, inferior.
Veremos sempre os outros como os nossos olhos, quer sejam homens, mulheres, brancas/os, negras/os, ciganas/os, ou animais não humanos. Sendo membros da mesma espécie, já é muitas vezes difícil compreendermo-nos. Portanto, dificilmente saberemos algum dia como é ser um outro animal. Mas sabemos que animais sencientes sofrem; que as vacas querem estar perto das suas crias; que as ratazanas são capazes de ser altruístas.[4] Todos estes são seres complexos que procuram o que necessitam para terem uma boa vida.
Portanto, se os direitos humanos existem porque queremos viver numa sociedade em que respeitamos toda a vida humana, dando-lhe condições para uma boa vida, então, teremos de caminhar para uma sociedade que dá o direito a uma boa vida a elementos de outras espécies.
[1] Exemplos em: http://responsiblemen.wordpress.com/tag/violence/
[2] http://www.nonhumanslavery.com/speciesism-racism-and-sexism-intertwined
[3] Ver, por exemplo: http://misterfurious.blogspot.pt/2008/04/king-or-kong.html; http://themoderatevoice.com/106893/racist-orange-county-republican-email... http://www.albumartexchange.us/2010/11/rapper-sheek-louch-reveals-contro...
[4] http://www.plosbiology.org/article/info:doi/10.1371/journal.pbio.0050196
Comentários
Eu não como carne humana, mas como carne de vaca, porco então moralmente sou canibal.
(Cont)O resto do seu artigo é confuso – para não dizer intelectualmente desonesto – pois estabelece um logica entre a negação dos direitos aos animais, especismo, racismo e sexismo, num claro non sequitur. Ainda assim lhe digo que com este seu argumento (acusação!) deixou de considerar a natureza específica do ser humano e colocou-se ao mesmo nível dos animais, e isto é obviamente inaceitável.
É meu entendimento que os animais não têm direitos, mas os homens têm deveres para com eles. Seria melhor iniciar o seu argumento por aqui.
Obrigado
Os meus argumentos encontram-se detalhados no livro The Etics of Liberty, de Murray N. Rothbard - NYU Press, 2003, p 155 e seguintes
(Cont)Neste contexto os direitos naturais, de onde emanam os outros direitos são absolutos em si mas relativos a espécie humana.
Outro elemento do seu argumento que é deficiente é que a atribuição de direitos aos animais não respeita a ética da natureza que é própria de cada espécie, da qual acima, pela Razão, deduzimos os direitos naturais do Homem. Assim de forma simples, o lobo não é mau ao atacar o cordeiro, bem como a leoa não é má por atacar o antílope, é a condição natural de cada espécie. Estender os direitos aos animais implica estender conceitos de crime e atentado aos direitos entre animais, com todas as implicações óbvias que lhe estão associadas (uma estrutura de Justiça e punição entre animais). Assim conceitos de direitos, crimes e agressões podem ser deduzidos de homens e entre homens mas nunca entre animais.(Cont)
Cara Luisa Bastos
Cheguei a este seu texto por mero acaso, mas a sua leitura não me deixou indiferente e tive a necessidade de contra-argumentar.
É meu entendimento que os animais não têm direitos.O primeiro problema se o tivessem seria o estabelecimento de um critério sobre quais os animais que terão ou não direitos, e que hierarquia de direitos terão aqueles que nós humanos, decidimos que têm direitos, bem como quem seria abalizado entre nós para o fazer.No entanto o problema maior parece-me ser a incapacidade de, no caso do animais, se definir a origem dos seus direitos, isto é, o Homem tem direitos naturais que são deduzidos da natureza da sua condição racional humana. A capacidade do Homem de escolhas conscientes, a sua capacidade de adoptar objectivos e valores, de perceber o mundo, de interagir, a capacidade de partilhar, de dividir o trabalho, a capacidade de prosperar e de evoluir. Nada disto tem a ver com sentimentos (ou serem sencientes,como diz) mas com a Razão.(cont.)
(Continuação)
- "capacidade de prosperar e de evoluir", infelizmente as mutações genéticas não são especistas, e portanto todos os seres vivos evoluem (até as bactérias, para nosso desagrado!) e algumas bactérias prosperam imenso no corpo do hospedeiro fruto da sua evolução!
Mesmo que os items deste inventário fossem um exclusivo humano, não justifica por que não possuir estas características faz com que um ser se torne moralmente irrelevante.
Depois fala na razão. Mas que raio é a razão? É típico falar-se na razão quando não se tem argumentos. Quando não se tem argumentos, não se tem razão ;)
(cont.)
Parece-me assim que refutei todos os argumentos apresentados, isto porque os meus restantes argumentos foram por si ignorados, acreditando eu que o fez porque não os consegue refutar.
Concluo com a sua frase"...Depois fala na razão. Mas que raio é a razão? É típico falar-se na razão quando não se tem argumentos. Quando não se tem argumentos, não se tem razão ;)" Esta frase é muito divertida, um bom trocadilho. Prova que você é uma pessoa com Razão. Para mim um jumento nunca a conseguiria elaborar ! Ou será que conseguia ?
(cont.)
Quanto ao grosso do seu eloquente argumentário; com o meu descritivo pretendia elencar algumas características do Homem que, quando vistas em conjunto, não são possuídas por nenhum animal. Usei uma linguagem comum e de facto não me preocupei muito que alguém a viesse desconstruir. Mas, devia saber onde estava a escrever e para ter razão, você desmontou em pedaços o que fazia sentido como um todo. Não me parece muito correto que faça isso.
Mas eu refaço o argumento. Os homens são dotados de razão. Os animais não. Recomendo que leia em qualquer dicionário de filosofia a definição de “Razão”. A essência é que: os animais não têm direitos. Deduza daqui a moralidade que quiser. (cont.)
Dicionário de filosofia? Não me diga que estuda filosofia! Você não sabe pensar! Não se trata de termos discordâncias, trata-se de você não cumprir os mínimos! É caricato, porque segundo a sua própria deontologia você não tem direitos!
Lamento, já me tinha esquecido de si e não percebi a organização do seu texto e não li coisas que escreveu. Aceito que tenha razão; tenho de ser especista - como dizem ! - pois não posso excluir os comatosos e os doentes de Alzheimer por exemplo do meu raciocínio. Foram Humanos. Os direitos não podem de facto ser função de saúde ou não saúde numa altura. Nem posso ter deveres para com os animais, tenho obrigações mas não tenho deveres. Obgd
Temos de ser universais portanto. Reconhecer direitos morais e exigi-los para todos de forma universal. É de facto uma característica humana que nenhum animal poderá alguma vez ter. Os animais têm de reconhecer os seus próprios direitos e "pedi-los" para todos os animais. De outra forma não têm.Acha-me idêntico aos racistas e sexistas ? Mas os especistas não descriminam humanos entre si. Os especistas descriminam os animais, portanto não deduza equiparações entre racistas e especistas.Você está muito enervado e agressivo. Isso faz-lhe mal a saúde.
Sr Anónimo,
Pela forma agressiva com que responde a meu texto, constato que ficou perturbado. Não era essa a minha intenção.
Começando; os bébes irão naturalmente transformar-se em seres humanos com Razão. Logo não se aplica.
Quanto ao deficiente mental, terei que responder que depende do nível de deficiência mental. Sou levado a pensar que se o nível de dependência for extremamente elevado, estando as suas capacidades racionais completamente debilitadas e não reconhecendo nós que eles se comporte racionalmente como um ser humano, então ele não terá direitos, o que não implica que não tenhamos nós, seres conscientes e racionais, deveres para com ele.
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