A escuridão assusta; encerra em si o desconhecido, esbate as cores, deturpa as certezas. Perde-se a noção do tempo, hesita-se na noção do ser, mergulha-se no receio de um eminente que só será percetível quando se tornar realidade.
Irromper a escuridão sempre foi a mais rudimentar das noções de esperança; permitir um vislumbre do futuro imediato, um esgar da envolvência, tranquiliza, apazigua, conforta.
Outrora feridos em combates idos, muitos enfermos definhavam; doíam os ferimentos, consumiam-nos as infeções, atormentavam-nos os remorsos. Pior, mergulhados em casebres nos campos de batalha, esvaziava-se a esperança por entre o negro da noite, cuja música de acompanhamento eram gemidos de corpos feridos e almas perdidas.
A esperança, essa, começou a vir de uma ténue luz, uma chama de uma modesta mas teimosa lamparina. Calam-se as almas que gemem, analisam-se cuidadosamente os ferimentos, morre, acima de tudo, a incerteza; boas ou más noticias, eram notícias reais, era a visão do presente. Junto à luz surgia uma mão, que aconchegava, que procurava forma de cuidar, que devolvia esperança, que resgatava almas prestes a tombar.
Esperança para os enfermos de tempos idos, tornou-se a lamparina, símbolo dos que cuidam, dos que iluminam com a luz artificial trazendo cuidados, dos que iluminam com a sua luz pessoal, cuidando. Tornou-se símbolo de homens e mulheres, enfermeiros e enfermeiras orgulhosos, que se dedicam a iluminar mais, a iluminar melhor, muito para além do que permitiu a descoberta da lâmpada.
Procurando fazê-lo de forma científica desde meados do século XIX, a luz tornou-se demasiado ténue quando comparada com aquela que emana dos profissionais que se dedicaram à enfermagem. Progressos académicos, procura constante da melhor forma de cuidar em todas as ocasiões, foram achas de uma tocha que iluminava mais que qualquer holofote.
No entanto a luz, agora intensa, quer-se mais ténue. A claridade cristalina revela hoje demasiadas injustiças. Revela um sistema de saúde que abandona os seus utentes, que destrói a saúde como direito, constituindo-o como um privilégio, ignorando que a doença não é uma escolha.
Revela profissionais corajosos, que inventam os melhores cuidados com os piores meios, que geram milagres autênticos no seu dia-a-dia, alimentando-se de remunerações injustas e de um enorme prazer em cuidar.
Demasiada luz, tem o condão de enaltecer todas as cores, de tornar bem delineadas todas as curvas e retas, de realçar os detalhes. Demasiada luz permite então observar com atenção os traços que definem hoje os portadores da lamparina: os enfermeiros.
Mergulharam há vários anos em injustiças diversas. Embrenhados em algumas pelo poder político, mantêm-se nelas pela sua incapacidade de se fazer escutar, com a mesma determinação com que escutam.
Licenciados há mais de 10 anos, até então com um bacharelato, os enfermeiros auferem vencimentos abaixo de qualquer outro licenciado. Na função pública o vencimento médio ronda os 1.570€, ao passo que aos enfermeiros que exercem no Sistema Nacional de Saúde, é pago atualmente cerca de 1040€. O poder político agradece mão-de-obra especializada, que investe mais do que qualquer outra classe em formação pós-graduada, ao preço de desbarato. Culpa dos que outrora lutaram pela Enfermagem, entretanto invejosos dos recém-licenciados quiseram proteger quem não teria esse grau académico, os mesmos que agora, recebendo mais, se remetem ao silêncio.
Qualquer funcionário que sirva o sistema público é considerado funcionário público, com benesses e regalias vantajosas a nível de aposentação e assistência em doença. Os enfermeiros há mais de 10 anos, e após a artimanha da criação de Hospitais como EPE’s e SA’s, são contratados por empresas públicas, mas sem vínculo à função pública. No fundo sofrem as retenções de vencimento, sofrem cortes de subsídios, nunca tendo tido qualquer benefício, qualquer possibilidade de progressão de carreira. Mantêm-se em silêncio os demais que um dia lutaram, que foram aceites na função pública, mas que vendo-se no lado mais vantajoso, pactuam.
Qualquer funcionário que exerça a sua profissão em horário noturno, ou em fins-de-semana e feriados tem direito a remuneração suplementar. Noites de Natal, fins-de-semana com a família, noites repousantes, não constam do quotidiano de muitos profissionais; os sacrifícios pessoais, familiares, da própria integridade (afinal são os enfermeiros os profissionais de todo o serviço público mais frequentemente maltratados), são remunerados a taxas irrisórias, muito inferior ao que estipula a lei. Pior, há uma assimetria entre enfermeiros que ainda pertencem à Função Publica e enfermeiros contratados pelos malditos Hospitais empresa; colegas com as mesmas funções podem ser remunerados com uma discrepância aterradora. Poupa-se dinheiro, para esbanjar em cargos directivos de interesse partidário, e calam-se mais uma vez, todos aqueles que auferem uma remuneração menos injusta.
Qualquer artista vê a sua arte distintamente reconhecida. À enfermagem cabe um estigma social demasiado colado ao poder médico, de quem se julga ser um acessório menor. Um estigma perpetuado por enfermeiros subservientes que pouco acreditam em si, que valorizam mais uma ação alheia do que as 1000 que fazem eles próprios, ignorando que não há arquiteto que construa um edifício sem os exímios construtores que continuamente e incansavelmente executem e aperfeiçoem um plano original. Gerir, melhorar, adaptar e inventar novos planos é o dia-a-dia de um enfermeiro. Pequena é a mente de quem só discute a sua profissão quando colados a outros grupos profissionais, esquecendo a grandiosidade da sua arte.
A luz minuciosa revela injustiças, muitas com a conivência do grupo profissional. Com mais de 10.000 desempregados há os que aceitam qualquer proposta e os que refutam qualquer mudança. Esquecem-se os enfermeiros que lutam por um bem comum, cuidar com dignidade e ser dignamente cuidados pelo sistema de saúde que sustentam; esquecem-se os enfermeiros que são o pilar dos cuidados de saúde, a maioria da sua força de trabalho, os executores dos planos de cura, os artistas da prevenção da doença, os primeiros no nascer da vida, os últimos no seu definhar.
Revela a claridade uma Ordem profissional que, com 14 anos, assiste a um assalto permanente às competências da enfermagem, Sindicatos desagregados, perdidos em guerrilhas entre si, quando o agressor está em todos aqueles que beliscam diariamente a dignidade da saúde.
Revela com um tom incandescente que fere a vista, um afastamento dos enfermeiros dos cargos de decisão, uma eliminação de competências, em manifesto prejuízo das populações, que vêem ambulâncias sem enfermeiros, que vêem vacinas administradas por quem percebe apenas de composições químicas, que não percebem a perda colossal em toda a sua dimensão, apenas e só porque os enfermeiros cuidam em demasia dos outros, e de forma demasiado parca de si mesmos; não se publicitam, remetem-se à clandestinidade, saciados pela alegria de simplesmente cuidar.
Apagam-se as luzes, fica a lamparina, alumia com esperança, afinal antes a esperança que a claridade exagerada. Esta é demasiado reveladora do presente, do circundante, da realidade. Na penumbra permanecem os abutres da enfermagem, aqueles que querem poupar, aqueles que querem usurpar, aqueles que simplesmente se acomodaram à penumbra e cuja vista não tolera mais clareza ou brilho.
Que se largue a lamparina, afinal com a luz acesa podemos cuidar com as duas mãos. As mesmas duas mãos que cerramos na luta pelos que cuidamos, as mãos que temos de cerrar na luta pelo direito de ser enfermeiro com dignidade.