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Cimeira do Clima em ano de temperatura recorde

Na Cimeira do Clima, os nossos representantes não poderão adotar uma postura puramente diplomática perante interesses cínicos de multinacionais, egoísmos regionais e muito menos perante atitudes negacionistas.

Na próxima segunda-feira inicia-se em Paris a Cimeira do Clima coordenada pelas Nações Unidas. Espera-se que desta cimeira surjam medidas decisivas para combater o aquecimento global, particularmente para impedir que a temperatura média global se eleve a 2ºC acima da temperatura média do século XX. Acima destes 2ºC aumenta consideravelmente a probabilidade de impactos irreversíveis à escala local e global, bem como o rigor das medidas a implementar para travar as alterações climáticas e para mitigar os seus efeitos. Estas importantes conclusões decorrem dos relatórios elaborados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, o último relatório é de 2014. Estes relatórios compilam as conclusões de milhares de trabalhos científicos (teóricos, experimentais, modelos de computação, observações por satélite, etc.) realizados por centros de investigação distribuídos por todo o planeta, publicados nas revistas científicas mais relevantes e revistos pelos melhores especialistas na matéria. Foi graças a este trabalho colossal que se concluiu com mais de 85% de confiança que o aquecimento global registado tem origem na atividade humana (produção de energia, indústria, agricultura, transportes, etc.).

Curiosamente esta cimeira ocorre num ano especialmente quente, em que inúmeros recordes de temperatura estão a ser batidos com larga margem. Como se pode observar no gráfico da temperatura global de 2015 e dos seis anos mais quentes registados, 2015 poderá ser o ano mais quente de sempre com uma margem impressionante (dados do NOAA: National Oceanic and Atmospheric Administration). É importante sublinhar que os 15 anos mais quentes desde que são realizadas medidas globais, desde 1880, ocorreram nos últimos 20 anos. Mas o mais preocupante é o aumento destacado de temperatura relativo ao ano em curso. Os meses de fevereiro, março, maio, junho, agosto, setembro e outubro de 2015 foram os mais quentes registados quando comparados respetivamente com todos os meses de fevereiro, de março, de maio, de junho, de agosto, de setembro e de outubro medidos até hoje. Outubro de 2015 foi o mês que mais se afastou da temperatura média do respetivo mês (ver tabela, dados do NOAA).


A erosão costeira, a subida do nível do mar e acidificação da água do mar pelo dióxido de carbono atmosférico são questões da maior importância para o nosso país e para a sua extensa e vulnerável costa atlântica. Por isso nesta Cimeira do Clima, os nossos representantes não poderão adotar uma postura puramente diplomática perante interesses cínicos de multinacionais, egoísmos regionais e muito menos perante atitudes negacionistas (como deverá ser o caso do governo da Polónia). É nada mais nada menos que a nossa segurança e o nosso futuro como país que estará em jogo nesta cimeira.

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra

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