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Ananias suspeita que Relvas é da oposição

Como é que Passos Coelho e Nuno Crato vão defender a prevalência do mérito tendo o Relvas ao seu lado?

Ananias acredita em tudo o que diz o primeiro-ministro Passos Coelho. Tudo mesmo. Todas as palavras. Antes, confiava em todas as afirmações de José Sócrates. Também cria piamente em tudo o que diziam Santana Lopes, Durão Barroso e António Guterres.

Os mais distraídos acham que Ananias é um crédulo. Ele considera-se, pelo contrário, um bom patriota que deve sempre apoiar o governo, tenha ele a cor política que tiver.

Mas a confiança cega de Ananias em Pedro Passos Coelho está a passar por uma dura prova devido ao caso Miguel Relvas e ao seu diploma universitário da Lusófona. Ananias pode ter pouca cultura, mas não é estúpido. Ele, que não tem muitos estudos, sabe perfeitamente que ser presidente da assembleia geral da Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários não dá créditos a ninguém para obter um diploma universitário de Ciências Políticas e Relações Internacionais. Se fosse assim, Ananias candidatar-se-ia a um diploma semelhante por ter sido presidente do Rancho Folclórico da Junta de Freguesia de S. Vicente dos Desesperados. Não; Ananias é consciente das suas limitações e acha que é errado tirar diplomas na Farinha Amparo.

Por isso, tinha enormes esperanças que Pedro Passos Coelho demitisse o seu ministro adjunto. Era o melhor a fazer. Senão, como fica o ministro da Educação escolhido pelo sr. Primeiro-ministro? É que ele sempre foi claro quanto aos diplomas como o do ministro Relvas. Ananias procurou e em poucos minutos encontrou as seguintes frases de Nuno Crato:

“É negativo estar a distribuir diplomas como que a vulgarizar algo que deve estar associado claramente à competência”.

“A preocupação com a qualidade do ensino, com o conhecimento, com o mérito, com a avaliação, mais exames e mais rigorosos.”

“Não queremos pura e simplesmente distribuir diplomas e melhorar estatísticas.”

Ananias sempre foi um grande admirador de Nuno Crato. O homem foi comunista e depois regenerou-se. O homem defende que se ensine a tabuada com os velhos métodos – e Ananias ainda se lembra da lenga-lega: “Dois-vezes-um-dois; dois-vezes-dois-quatro; dois-vezes-três-seis”, murmura, enxugando uma lágrima furtiva. Ele nunca percebeu as chamadas matemáticas modernas, mas sabe na ponta da língua quanto são “nove-vezes-nove-oitenta-e-um-sete-macacos-e-tu-és-um.” Por isso, Ananias percebe perfeitamente que Crato não pode ficar no mesmo governo de Relvas depois do episódio do curso da Farinha Amparo do ministro adjunto. Como é que Crato vai defender a prevalência do mérito com o Relvas ao lado? É certo que o homem já fez algumas reviravoltas na sua vida, mas esta pirueta, na opinião de Ananias, não se justifica.

Pois é, Ananias não percebe e começa a ficar nervoso por Passos Coelho não correr com o seu “braço direito”. Está mesmo a considerar a hipótese de Relvas ser um infiltrado a soldo da oposição. “Hum, não foi ele que andou metido com as secretas? Alguém tem de abrir os olhos ao sr. dr. Passos Coelho!”, pensou Ananias.

Sentou-se, pegou numa folha de papel e numa caneta, e começou a escrever:

“Exmo. sr. Primeiro-ministro de Portugal...”

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net

Comentários

O que mais incomoda neste caso, não é tanto o facto em si: oportunismos sempre existiram, existem e continuarão a existir. O que mais incomoda é o silêncio dos professores portugueses sobre o assunto. Porque, concorde-se ou discorde-se do processo de Bolonha, uma coisa é certa: é que em caso algum o sentido da lei de Bolonha pode ser o de que alguém obtenha uma licenciatura universitária sem ter frequentado a Universidade. O que aqui foi feito não é “legal”, como Relvas se tenta justificar, é uma fraude à lei. Relvas não tem direito ao título de licenciado, porque não tem licenciatura nenhuma. E os professores portugueses não podem aceitar isto, têm que se colocar do lado dos seus verdadeiros alunos. Manter a alguém um título de licenciado adquirido nestas condições é o mesmo que cuspir na cara de toda uma geração de jovens que, com o seu esforço, estudaram e aprenderam e a quem agora o governo do falso licenciado convida a emigrar. Isto não se pode aceitar.

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