Slavoj Zizek começa por evocar uma cena de um filme mostrando um futuro próximo em que “guardas uniformizados patrulham ruas semivazias dos centros das cidades, à caça de imigrantes, criminosos e desocupados. Os que encontram, espancam”. E afirma que este futuro de distopia já é realidade hoje, na Grécia. “Durante a noite, vigilantes uniformizados com as camisas negras do partido neofascista Golden Dawn [Aurora Dourada], de negadores do Holocausto –, que receberam 7% dos votos nas eleições gregas e que contam com o apoio, como se ouve pela cidade, de 50% da polícia de Atenas – patrulham as ruas, espancando todos os imigrantes que cruzem seu caminho: afegãos, paquistaneses, argelinos. É como a Europa se defende hoje, na primavera de 2012”, diz, observando que “a ferocidade com que os defensores europeus se defendem é ameaça muito maior a qualquer 'civilização', que qualquer tipo de invasão de muçulmanos, e ainda que todos os muçulmanos decidissem mudar-se para a Europa. Com defensores como esses, a Europa não precisa de inimigos”.
Subproduto das políticas de austeridade
Para o filósofo, porém, esta extrema-direita não passa de um subproduto do perigo muito maior: as políticas de austeridade que causaram a desgraça da Grécia. “As próximas eleições na Grécia estão marcadas para dia 17 de junho. O establishment europeu alerta que são eleições cruciais: não estaria em jogo só o destino da Grécia, mas o destino de toda a Europa. Um resultado – o correto, segundo eles – levará ao processo doloroso mas necessário de recuperação. A alternativa – no caso de vitória do Partido Syriza, de 'extrema esquerda' – seria votar pelo caos, pelo fim do mundo (europeu) como o conhecemos”.
Zizek observa que as próximas eleições na Grécia finalmente apresentam uma escolha significativa: de um lado o establishment (Nova Democracia e Pasok); do outro lado, a Syriza. “E, como acontece quase sempre em que há escolhas reais no mercado eleitoral, o establishment está em pânico: caos, pobreza e violência eclodirão imediatamente, dizem, se os eleitores escolherem 'errado'. A mera possibilidade de vitória da Syriza, como se ouve, já dispara convulsões de medo nos mercados”. São previsões, diz Zizek, enunciadas para se autocumprirem, causar mais pânico e, assim, forçar as coisas a andarem na direção “prevista”, às quais Alexis Tsipras respondeu: “Os gregos derrotarão o medo. Não sucumbirão. Não se deixarão chantagear.”
Syriza derrotou medo de governar
Zizek considera que “a tarefa da Syriza é quase impossível. A coligação não traz a voz da 'loucura' da extrema esquerda, mas a voz do falar racional contra a loucura da ideologia dos mercados. No movimento de prontidão para assumir o governo da Grécia, já derrotaram o medo de governar, tão característico entre a esquerda; já mostraram que não temem fazer a limpeza do quadro confuso que herdarão. Terão de mostrar-se capazes de montar e cumprir uma formidável combinação de princípios e pragmatismo; de compromisso democrático e presteza para intervir com firmeza onde seja preciso. Para que tenham uma mínima hipótese de sucesso, precisarão de toda a solidariedade dos povos europeus; não só de respeito e tratamento decente pelos demais países europeus, mas, também, de ideias mais criativas – como a de um 'turismo solidário' nesse verão, que já propuseram.”
“A luta dos gregos é a luta de todos.”
Citando T.S. Eliot, que observou que há momentos em que a única escolha é entre a heresia e o não crer, Ziziek defende que só uma nova “heresia” – representada hoje pela Syriza – pode salvar o que valha a pena do legado europeu: a democracia, a confiança nas pessoas, a solidariedade igualitária.
E conclui: “Há duas principais narrativas nos média, sobre a crise grega: a narrativa alemã-europeia (os gregos são irresponsáveis, preguiçosos, gastadores, não pagam impostos, etc.; e têm de ser postos sob controle, com aulas de disciplina financeira); e a narrativa grega (a nossa soberania nacional está ameaçada pelo tecnologia neoliberal imposta por Bruxelas). Quando se tornou impossível ignorar o suplício do povo grego, emergiu uma terceira narrativa: os gregos estão a ser apresentados hoje como vítimas de desastre humanitário, carentes de ajuda, como se alguma guerra ou catástrofe natural tivesse atingido o país. As três são falsas narrativas, mas a terceira parece ser a mais repugnante. Os gregos não são vítimas passivas. Os gregos estão em guerra contra o establishment económico europeu. Precisam de solidariedade nessa luta, porque a luta dos gregos é a luta de todos.”