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Venezuela: vitória de Chávez com sabor amargo

PSUV consegue maioria na Assembleia mas sem os dois terços que pretendia alcançar. Para o Parlatino, vitória foi tangencial. Presidente não compareceu à comemoração.
Chávez durante a campanha. Foto VTV

O PSUV, partido do presidente Hugo Chávez, venceu as eleições legislativas da Venezuela, conquistando 95 dos 165 deputados da Assembleia, o que lhe dá a maioria absoluta, mas não os dois terços que lhe permitiriam aprovar leis orgânicas sem ter de negociar com a oposição. A Mesa da Unidade Democrática (MUD), que reúne 32 partidos de oposição, elegeu até agora 61 deputados, e o Pátria Para Todos (PTT), dissidente do chavismo, conseguiu dois lugares. Oito vagas estão ainda por atribuir.

A participação dos eleitores foi de 66,45%, uma das mais altas da história.

A divisão das circunscrições eleitorais favoreceu o PSUV e explica em grande parte a vantagem na Assembleia. A oposição ganhou em estados muito importantes como Zulia e Táchira. Ganhou também em Nueva Esparta e, por grande margem, em Anzoátegui, estado governado por um dirigente chavista. Em Miranda houve empate.

Na eleição para o Parlamento da América Latina (Parlatino), que decorreu simultaneamente e elegeu 12 deputados numa eleição nacional em que todos os votos contam, a vitória do PSUV foi tangencial, com 46,62% contra 45,10% do MUD, ambos elegendo cinco deputados.

"Nós alcançamos um importante resultado eleitoral, mas não foi possível conseguir os dois terços. Temos por enquanto 95 deputados, uma maioria contundente", afirmou o dirigente do PSUV Aristobulo Isturiz, diante de milhares de simpatizantes do governo, que pediam a presença de Chávez e esperavam o anúncio de uma vitória mais ampla.

O presidente venezuelano, porém, não apareceu, comentando os resultados apenas no seu Twitter. “Bom, meus queridos compatriotas, foi uma grande jornada e obtivemos uma sólida vitória. Suficiente para continuar a aprofundar o Socialismo Bolivariano e Democrático. Devemos continuar a fortalecer a Revolução!! Uma nova Vitória do Povo. Felicito todos.”

O MUD, por seu lado, garante ter obtido 52% dos votos – um dado ainda não comunicado pelas autoridades eleitorais. "Materializou-se a má proporção da legislação eleitoral. Com cerca de metade dos votos, o governo obtém mais de 60% da Assembleia Nacional", disse ao diário 2001 Luis Vicente León, da empresa de sondagens Datanalisis.

Até agora, a oposição não possuía representação no Parlamento venezuelano, porque nas eleições de 2005 decidiu retirar as suas candidaturas à última hora, alegando supostas irregularidades no processo eleitoral, que não foram comprovadas posteriormente.

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Comentários

Uma votação tão elevada numas eleições em que a taxa de abstenção foi tão baixa não é uma vitória com sabor amargo. Isto mostra que os graves problemas económicos com que a Venezuela se confronta estão a minar a popularidade de Chávez mas também mostra que ele continua a ser a escolha da maioria dos venezuelanos.

O verbo comemorar costuma ser (quanto a mim, erradamente) utilizado como sinónimo de festejar e/ou celebrar.
Ora, comemorar (co-memorar) significa recordar, trazer à memória, lembrar; todos estes verbos se referem à faculdade que temos de relembrar acontecimentos de um passado distante no tempo, que nos são queridos, fazem parte das nossas boas recordações e, na maioria das vezes, estão na memória colectiva de um grupo.
Por outro lado, celebrar quer dizer realizar com solenidade, normalmente com a realização de uma cerimónia para o efeito.
Acresce que nas comemorações e nas celebrações o factor festa não é o elemento essencial, embora, como é evidente, não a exclua.
Assim, não se pode (não se deve…) utilizar o verbo comemorar em substituição de festejar (fazer festa em honra de; acolher com festejos ou com demonstração de alegria) quando nos referimos ao contentamento, à alegria, e aos consequentes festejos de um acontecimento imediatamente recente.

Como já foi referido noutro local, a utilização indiscriminada de um vocábulo em frases com sentidos vários e diversos, leva a um enfraquecimento do mesmo, retirando-lhe a força que deve ter e merece.
Exemplos e clarificação
- Independência do Brasil: comemora-se; festejar-se-á, ou não;
- Dia de Portugal das Comunidades e da Língua Portuguesa: comemora-se; poderá celebrar-se; festejar-se-á ou não;
- Data de nascimento de Fernando Pessoa: celebra-se; comemorar-se-á ou não; normalmente, não se festeja;
- Medalha de ouro ganha hoje nos Jogos da Lusofonia: festeja-se hoje; festejar-se-á, ou não, no futuro; não se comemora hoje nem, provavelmente, no futuro; não se irá celebrar no futuro.

Uma maioria absoluta elegendo 58% dos deputados, vencendo em 17 dos 24 Estados e empatando noutros dois, depois de 11 anos de governo e chamam a isto vitória com sabor amargo?

Ainda conseguem ser mais tontos que os nossos queridos media. A má-vontade não é boa conselheira. Tentem algum fair-play e menos dor de cotovelo.

Já cá faltava o comentador residente do PCP... Oh Leo, tontos são os que não vêem que a vitória do PSUV foi pela margem mínima, veja-se os resultados do Parlatino. A vitória mais dilatada nos deputados tem a ver com a configuração dos círculos eleitorais e não com o voto popular.
Por isso os chavistas ficaram preocupados e o próprio não foi às comemorações. Quem não vê isto é cego, e dos piores, porque não quer ver...

Escreveu Fidel Castro, em Cuba-Debate:

"(...) A revolução bolivariana tem hoje o Poder Executivo, ampla maioria no Parlamento e um partido capaz de mobilizar milhões de lutadores pelo socialismo.

Os Estados Unidos não têm, na Venezuela, mais do que fragmentos de partidos, alinhavados pelo medo da revolução e grosseiros desejos materiais. Eles não poderão recorrer ao golpe na Venezuela, como fizeram com Allende, no Chile, e em outros países de Nossa América. As forças armadas desse país irmão, educadas no espírito e ao exemplo do Libertador, que em seu seio incubou os chefes que iniciaram o processo, são promotoras e parte da revolução.

Tal conjunto de forças é invencível. Não veria isso tão claramente sem a experiência vivida durante mais de meio século."

Não gosto do Hugo Chavez e do que ele representa do pior para a esquerda. Não conheço suficientemente a realidade da Venezuela para projectar o meu voto se lá vivesse. Não me venham é dizer que a vitória do PSUV não conta porque teve menos votos que a oposição. Mas exactamente em que país é que o partido vencedor tem a maioria dos votos? Em Portugal não. Muitas vezes a esquerda não sabe perder. A direita nunca sabe.
Esperava mais do esquerda.net na cobertura destas eleições.

João,
Ninguém diz que a vitória não conta, onde está isso escrito? O que se diz é que a vitória teve sabor amargo, porque ficou muito aquém do que Chávez queria. E agora já é claro que, no voto popular, foi uma vitórias tangencial, embora haja uma enorme diferença de deputados devido ao sistema eleitoral que é, no mínimo, pouco proporcional. Que querias que o esquerda.net dissesse? Que escondesse esta realidade e entrasse na falsa onda da euforia? Não estamos aqui para enganar os leitores.

Luís, reconheço que não fui claro no comentário, que originalmente publiquei no facebook como resposta aos que quase iam dizendo que Chavez perdeu as eleições. Não é o caso do esquerda.net, como de facto se poderia induzir ao ler o texto aqui.
Mas esperava mais da cobertura do esquerda.net, principalmente porque as notícias que foram chegando eram contraditórias. O texto hoje publicado acrescenta algo, mas penso que não chega. Veja-se a cobertura exaustiva das eleições no império.

Disse Chávez:

"Detalló que el oficialismo obtuvo 5.4 millones de votos mientras que la oposición contabilizó 5.3 y eso uniendo el voto de grupos que no se encuentran dentro del acuerdo unitario. "Este grupo de partidos donde está el MEP, y los Tupamaros sacaron sus varios miles de votos, como los partidos Opina, Solidaridad, PPT que está incluido y ellos no son de la mesa de la Unidad, de manera que ellos se están robando los votos". (...)

Chávez indicó que en 18 de los 24 estados el oficialismo ganó "voto a voto" la mayoría de los diputados. "De los 87 circuitos nosotros ganamos en 56 de ellos lo que es el 64% de las circunscripciones electorales mientras ellos (opositores) ganaron el 36% apenas".

Señaló que la oposición también viene manejando la tesis de que Chávez es minoría. "Es falso, es otra gran mentira, tengo la totalización, aquí tengo los votos uno a uno".

http://www.eluniversal.com/2010/09/27/v2010_ava_chavez-niega-haber-p_27A...

Onde ficou a análise dos resultados e a perspectivação política das contradições da Revolução Bolivariana? Quais são as particularidades do sistema eleitoral da Venezuela? Quem são e qual o valor dos partidos da "frente popular" anti-chavista? O que ganha e perde a Revolução Venezuelana... ou não há revolução na Venezuela e tudo se resume à figura de Chávez?
Pelo menos não usem o mesmo título da imprensa burguesa.

Não acho nada objectivo o artigo do Fermin. Pelas seguintes razões:

A única forma honesta de comparar resultados de eleições legislativas é com resultados doutras eleições legislativas. O autor é desonesto ao comparar resultados das legislativas de 2010 com resultados do referendo de 2007.

As últimas legislativas onde a oposição concorreu foram as de 2000. Comparando pois os resultados das legislativas de 2000 com as de 2010 conclui-se que então a oposição elegeu 82 e agora apenas 65, isto é agora teve menos 17 deputados. E os apoiantes de Chávez elegeram então 86 e agora 98, isto é teve mais 12 deputados.

Mas dado que o autor comparou 2007 com 2010 resta dizer que em 2010 a oposição só teve maioria em cinco estados e em 2007 tivera maioria em nove. E em votos, desde 2007 a oposição ganhou 800.000 eleitores e Chávez mais de 1 milhão. Por isso teve agora 5,4 milhões contra os 5,3 milhões da oposição.

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