"A troika aumentou a dívida todos os dias", acusa Louçã

18 de julho 2012 - 15:00

Com o número de inscritos nos Centros de Emprego a subir 24,5% desde junho de 2011, o chefe da missão da troika sugeriu mais cortes e quer que cada trabalhador perca entre 452 e 491 euros até 2014. Francisco Louçã respondeu às declarações de Abebe Selassie, lembrando que sempre que a troika visita o país "tem sido para acentuar a austeridade" e aumentar a dívida.

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Foto Paulete Matos.

Os números do FMI e da Comissão Europeia foram divulgados na quarta avaliação da troika à implementação do memorando. Se no ano de 2011, cada trabalhador por conta de outrem ganhou em média 20.300 euros, a previsão do FMI é que em 2014, quando está previsto o fim da aplicação da receita da troika, esse valor caia para os 19.848 euros. A Comissão Europeia é ainda mais pessimista e espera que os trabalhadores em Portugal recebam em média esse ano 19.809. Ou seja, uma redução de 452 e 491 euros em relação aos salários do ano passado.



Mas com os números de desemprego a aumentarem todos os meses, é provável que muitos dos que tinham aquele salário em 2011 já não encontrem trabalho em 2014. Os números divulgados esta quarta-feira pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) revelam que em apenas um ano há mais 127.250 desempregados inscritos nos centros de emprego do Continente e das Regiões Autónomas. Ao todo, o número de inscritos rondava no mês passado 646 mil pessoas. Mas estes números não representam o total de desempregados no país, uma vez que não incluem toda a gente que já desistiu de se inscrever nos Centros de Emprego.



Nesta situação de agravamento da miséria social, a troika aconselha o Governo a cortar ainda mais nos salários, apesar deles já estarem a cair mais que o esperado. “Os desenvolvimentos dos últimos trimestres apontam para uma maior redução das remunerações do que tem ocorrido historicamente, o que seria expectável devido à forte recessão”, explicou Abebe Selassie, citado pelo Diário de Notícias numa conferência por telefone.



“O Governo está a planear mais alterações ao sistema de indemnizações por despedimento e a reforma da extensão de contratos coletivos de trabalho para empresas não-signatárias”, diz ainda o documento de avaliação da Comissão Europeia. Na prática, Passos Coelho e Vítor Gaspar planeiam voltar a cortar nas indemnizações por despedimento e liquidar a contratação coletiva, impedindo que os resultados das negociações entre patrões e sindicatos se estendam aos respetivos setores de atividade.



Para Francisco Louçã, que visitou esta quarta-feira o campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, "a ‘troika’ não fez nenhum favor a Portugal, aumentou a dívida todos os dias, fazendo com que a desgraça da economia e da vida das pessoas aumentasse imenso". Comentando o conselho de Abebe Selassie para mais cortes da despesa em Portugal, o coordenador bloquista responde que isso "quer dizer despedimentos de funcionários públicos e cortes no Serviço Nacional de Saúde", considerando que "tudo isso é insuportável".



Louçã voltou a defender que "Portugal está a pagar uma dívida que não fez, porque a acumulação de juros abusivos leva a que se pague o dobro ou o triplo daquilo que foi pedido emprestado". E concluiu que "o cancelamento da dívida e a anulação das condições ilegítimas impostas pelo memorando da 'troika' é a única medida sensata", uma vez que "200 mil novos desempregados durante um ano é uma catástrofe social nunca vista".



"O que os portugueses sabem é que tudo o que seja dito não vale, quando aumentam os impostos, quando há um aumento de alunos por turma, que leva ao maior despedimento de professores da história de Portugal, quando não devolvem os subsídios de férias e de Natal aos funcionários, apesar de serem inconstitucionais", acrescentou.



Os números do IEFP sobre as inscrições nos Centros de Emprego revelam ainda que é a juventude que sai mais prejudicada pela crise e as medidas de austeridade impostas pelo Governo: o aumento do desemprego para quem ainda não fez 25 anos cifra-se em 37,6% em comparação com junho de 2011.



A análise por profissões também mostra que os professores estão a ser particularmente penalizados pelo aumento do desemprego, registando-se uma subida em flecha do desemprego entre os docentes do ensino secundário, superior e profissões similares, calculada em 150,8% em apenas um ano.

Reagindo aos números do IEFP, a deputada bloquista Catarina Martins sublinhou que "a cada mês de governação PSD-CDS, mais de dez mil pessoas perderam o emprego". "No debate do Estado da Nação, Passos Coelho dizia que o desemprego não era o tema do debate. O primeiro-ministro saberá muito pouco da nação: 120 mil novos desempregados são certamente o estado da governação desastrosa que tem retirado aos portugueses a possibilidade de trabalhar e ter um emprego", acrescentou a deputada, concluindo que "este é um governo obstinado com a austeridade e que não conhece nada do país real".