"A situação na Grécia é tão instável que nos estamos a preparar para qualquer coisa"

25 de novembro 2012 - 15:23

Deputada do Syriza acha que na Grécia pode haver um governo de esquerda nos próximos meses. Espera que o resto da esquerda participe nele e que os movimentos sociais, com a sua luta na rua, o defendam dos ataques que sem dúvida virão. Por Luis Giménez San Miguel, Público.es

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Maria Bolari: O Syriza adotou uma posição clara sobre a dívida e disse que é injusta.

Veio da Grécia para ver com os seus próprios olhos a situação de Espanha, que caminha pela mesma senda que o seu país, mas ainda uns passos mais atrás. Maria Bolari é deputada no Parlamento pela Syriza, a Coligação de Esquerda Radical que nas últimas eleições foi a segunda força política do maltratado país helénico, deixando para trás a social-democracia do Pasok.

Depois destes meses em que a coligação do governo, de conservadores e social-democratas, continuou a impor as medidas dos memorandos receitados pela troika, as últimas sondagens desenham hoje um Parlamento ainda mais polarizado que o que saiu das últimas eleições: o Syriza seria a primeira força, e a extrema-direita Amanhecer Dourado obteria o terceiro posto. A tensão e a sensação de derrube vivem-se dentro e fora do Parlamento.

Como veterana militante na esquerda grega, Bolari participou na formação do Fórum Social Europeu, no movimento contra a guerra do Iraque, no Afeganistão e na criação do Syriza. Poucas horas antes da conferência de imprensa para anunciar a reunião internacional da Esquerda Anticapitalista, em que ela dá apoio a esta formação, falou com o Público [espanhol] sobre a situação do seu país, a aposta política da sua formação e as possibilidades de mudança na Europa.

Que razões levaram o Syriza a passar de uma pequena força de extrema esquerda para se converter na segunda força do país?

Primeiro, há que destacar a política radical que tem levado a cabo o Syriza em todos os momentos: a exigência da anulação da dívida, a oposição plena às políticas de austeridade e, desde sempre, o apoio à gente pobre e aos trabalhadores.

O Syriza adotou uma posição clara sobre a dívida e disse que é injusta. Temos mantido que a dívida é um problema relacionado com a questão de classe e não com a crise. Além disso, sempre adotamos uma política contra os memorandos da troika.

Outro fator foi a nossa clara orientação pela unidade. O Syriza é uma coligação de diferentes setores da esquerda. Além disso, temos chamado toda a esquerda a colaborar, ao Partido Comunista e ao Antarsya. Também foi crucial termos dito que estamos preparados para governar o país, que a esquerda é capaz de formar governo. Isto é muito importante para as pessoas.

Quem está a lutar na Grécia, os movimentos sociais, sabem perfeitamente que os seus problemas só têm uma solução política. E, para conseguir solucioná-los, têm de derrubar o governo atual e formar outro de esquerda. Há que ter em conta que, na Grécia, quando falamos de esquerda, falamos de um governo que exclua a social-democracia, Não há a possibilidade de um pacto com eles: isso não é esquerda.

Nas últimas eleições foram a segunda força, a Nova Democracia conseguiu pactuar para formar governo e tem continuado a aplicar as políticas de austeridade. Ao mesmo tempo, temos visto como continua a crescer a extrema direita Amanhecer Dourado. O que mudou na Grécia nestes meses?

O governo atua sob uma dupla pressão. Por um lado, as exigências da Troika; e, por outro lado, a pressão do movimento popular. De modo que, na votação do terceiro memorando, a coligação de governo estremeceu e tem perdido apoios. É um governo muito frágil que está na corda bamba. No entanto, é um governo muito perigoso porque conta com a ajuda da classe dominante em Grécia, os meios de comunicação e o grande capital europeu.

O Amanhecer Dourado tem conseguido tanto poder apelando a dois problemas que preocupam muito o cidadão grego: a corrupção da classe política e a imigração. No entanto, há que dizer que, para conseguir este auge, tem contado também com a ajuda dos meios de comunicação. Muitas cadeias de televisão têm amplificado o seu discurso e levaram-no até os lares dos pobres.

Acha que chegarão a governar Grécia?

Possivelmente, nos próximos meses. A situação na Grécia é tão frágil e instável que nos estamos a preparar para qualquer coisa. Não achamos que vá ser fácil, não achamos que o governo vá convocar eleições por própria vontade. Portanto, o Syriza, por um lado, exige eleições para o governo; e, por outro, pede aos movimentos populares que intensifiquem as lutas e imponham as eleições desde a base. Enquanto continuarem no poder, a destruição avança a cada dia. É progressivamente difícil para nós encontrar as soluções e as vias para resolver estes problemas.

Se ganharem as eleições, que acontece no dia seguinte?

O que esperamos é que o resto da esquerda participe nesse governo e que os movimentos sociais, com a sua luta na rua, o defendam dos ataques que sem dúvida virão. Esta é nossa meta, é o que procuramos fazer.

É exportável o modelo de Syriza para o resto de Europa?

O Syriza é duas coisas ao mesmo tempo, duas coisas que estão ligadas. É a unidade e a radicalidade, que caminham juntas. O Syriza é o movimento, a luta na rua e a política no Parlamento. Esta alternativa construiu-se durante os últimos dez anos nos movimentos, como resultado de um debate muito intenso entre opiniões confrontadas. Temos muita confiança nesta opção.

Na Grécia, esta alternativa tem ajudado à classe, tem ajudado à política, tem ajudado à sociedade, à esquerda. Estamos muito orgulhosos de o nosso exemplo ser inspirador. No entanto, em cada país, a esquerda tem de encontrar o seu próprio caminho, segundo as suas condições próprias.

Quero acrescentar que a intensificação da luta nos países de sul de Europa é uma ajuda muito importante para o movimento na Grécia.

Em Espanha dão-se as condições para uma experiência semelhante?

Não conheço a situação política na Espanha, o que tentamos fazer é explicar o que temos feito na Grécia, mas não queremos dar instruções ao resto dos países sobre o que têm de fazer. Na trajetória do Syriza houve momentos em que tivemos de tomar decisões muito importantes.

Que decisões?

Em primeiro lugar, foi determinante que as forças que compõem o Syriza tenham estado juntas cada dia na rua, foi aí que se firmou a aliança. Além disso, também tivemos que decidir a rejeição frontal de qualquer tipo de colaboração com a social-democracia.

É possível o não pagamento da dívida e reverter as políticas de austeridade dentro do marco da UE e do euro, ou teria de romper com eles?

A União Europeia é hoje uma União neoliberal que exige políticas de austeridade a todos os países para poder superar a crise económica. O que nós queremos é outra Grécia, outra Europa diferente. A saída da UE em si não responde à pergunta de quem vai pagar a dívida, se a vai pagar o capital ou os trabalhadores.

Se a opção que oferecesse a troika fosse continuar com os memorandos ou a expulsão do euro e da União, que escolheriam?

Se chegarmos a este nível de chantagem por parte da UE, o que vamos fazer é defender a nossa sociedade, os trabalhadores, e pedir o apoio aos países que estão a sofrer as mesmas políticas de austeridade. Não vamos pagar.

Não há que ter pressa de responder a esta pergunta. A UE também está a atravessar uma crise muito importante. O que queremos dizer com a unidade é que queremos uma ferramenta que nos permita mobilizar coletivos muito amplos, e é por isso que temos escolhido esta direção. Lutamos nas bases dos sindicatos e temos uma relação com as forças organizados de toda a esquerda. Também tentamos falar e convencer a base da social-democracia. Mas tudo isto de uma perspetiva de resistência e de rutura.

A América Latina é um exemplo para a Europa?

Pode-se utilizar como exemplo. Lá, a situação parece-se muito com a do Sul de Europa, tanto pelo problema da dívida como pela demonstração de que é possível a mudança.

Publicado no Público de Espanha

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net