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Reportagem: Pílula contra a SIDA

Reportagem sobre a PrEP, ou profilaxia pré-exposição para o HIV, que previne em praticamente 100% novas infeções e não apresenta efeitos secundários mas que, no entanto, ainda não está disponível na maioria dos países.
Medicamento de Truvada
A PrEP ainda não está disponível em Portugal por responsabilidade da farmacêutica, mas também por falta de vontade política do governo. Medicamento de Truvada, foto de NIAID/Flickr.

Reportagem incluída no programa Mais Esquerda, que pode ser visto aqui e que foi ainda composto por um debate sobre a presidência de Donald Trump e os seus impactos para a Europa e para o mundo (disponível aqui) e por uma reportagem sobre lobbying na União Europeia (aqui).

A profilaxia pré-exposição (PrEP) é uma estratégia de prevenção da infeção pelo VIH que consiste na toma diária de um medicamento que previne em praticamente 100% a infeção pelo VIH. Ensaios clínicos com a PrEP demonstraram a toma diária de um medicamento tem uma taxa de sucesso de 99% e, ao contrário do que acontecia com os primeiros antirretrovirais, tem muito poucos efeitos secundários.

O médico Bruno Maia, em entrevista ao esquerda.net, explica que "ao fim de cinco anos com a PrEP aprovada em alguns países do mundo em que há mais de cem mil pessoas a fazer esta profilaxia, só três é que se infetaram. Portanto, cinco anos, cem mil pessoas no mundo todo, só há três infeções com vírus resistentes". "A taxa de sucesso é a maior taxa de sucesso de qualquer estratégia de prevenção alguma vez feita em relação ao VIH, incluindo o preservativo, incluindo qualquer outra estratégia de prevenção. É a mais eficaz de todas, é a mais efetiva de todas também", assegura.

O medicamento usado é um antirretroviral, e é o mesmo medicamento usado para tratar as pessoas que vivem com a infeção pelo VIH. "Uma pessoa que tem uma infeção pelo VIH precisa de um conjunto de medicamentos antirretrovirais, mas para fazer a profilaxia ou a prevenção da infeção, basta apenas um desses medicamentos, que é conhecido pelo nome comercial Truvada, um composto de duas substâncias e a toma diária desse comprimido previne a infeção pelo VIH", explica Bruno Maia. 

Nos Estados Unidos, a PrEP já existe desde 2012. Na Europa, começou por ser implementada há um ano em França e a Agência Europeia do Medicamento aprovou finalmente, em julho passado, a sua utilização. Uma aprovação tardia que foi adiada por vários motivos.

"Existem duas grandes razões para este atraso que temos na Europa em relação aos Estados Unidos, a primeira razão foi que a própria farmacêutica, a Gilead, só submeteu este medicamento para aprovação para PrEP há cerca de um ano. A segunda explicação é que não houve ainda vontade política de pegar nessa aprovação que já existe, tardia mas já existe, não houve vontade política nem a nível europeu nem dos Estados membros para implementar esta profilaxia pré-exposição", afirma Bruno Maia.

Em Portugal, o atraso europeu foi replicado. Só agora é se começou a criar um grupo de trabalho entre o governo, a Direção Geral de Saúde, o Infarmed e representantes da sociedade civil, das associações ligadas ao ativismo do VIH, para se delinear uma estratégia para se implementar a PrEP.

Para Bruno, "o problema, neste momento, é a máquina burocrática que está associada a todas estas instituições, mas que só é uma barreira porque do ponto de vista político o deixam. As burocracias só são uma barreira quando não há vontade política de acelerar o processo".

Continua a não ser possível comprar o medicamento da PrEP, da marca Truvada, em Portugal porque é de dispensa hospitalar, ou seja, só as farmácias hospitalares é que o podem dispensar. Perante a demora na implementação do medicamento, houve grupos de pessoas que se começaram a organizar para adquirir genéricos da marca. "A alternativa que pessoas que, percebendo que estariam em risco e contraria a infeção pelo VIH fizeram, foi começar a importar medicamentos genéricos, um Truvada genérico de empresas estrangeiras", descreve Bruno Maia.

No site PrEP.pt ou no grupo de facebook "PrEParar o futuro! Queremos PrEP em Portugal" podes obter mais informações sobre o processo de compra dos medicamentos genéricos. Depois da compra, deves procurar um médico para efetuar testes de infeção sexual de forma rotineira e análises aos rins. Em Lisboa, no CheckpointLX, este acompanhamento já feito a algumas dezenas de pessoas, de forma gratuita. 

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Comentários

Do tempo em que o Esquerda publicava um artigo em que (entre outras coisas) se denunciava a corrupção dos partidos políticos pela indústria farmacêutica ao tempo em que o Esquerda faz publicidade encapotada a um fármaco. Preços? Efeitos secundários? Alternativas? Preços das alternativas? (...).

Assim de repente vêm me à cabeça dois tratamentos bons e baratos para a SIDA. Um que tem uma história ligada à SIDA: o LDN! Não querem fazer uma reportagem sobre o LDN? Low Dose Naltrexone! Valia a pena!

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