Redacção do "Charlie Hebdo" incendiada em Paris

03 de novembro 2011 - 14:46

O jornal satírico francês voltou a fazer capa com uma caricatura de Maomé, num número dedicado ao regresso da charia na Líbia e à vitória dos islamistas na Tunísia. Na mesma madrugada, um cocktail molotov incendiou a sede do jornal.

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Esta capa do Charlie Hebdo pode estar na origem do ataque incendiário contra o jornal, diz o director Charb.

O "Charlie Hebdo" é conhecido pela crítica mordaz a políticos e religiões, o que lhe tem valido alguns dissabores ao longo dos tempos, nomeadamente quando republicou em 2006 as caricaturas de Maomé do jornal dinamarquês Jyllands Posten. Mas as ameaças passaram aos actos na madrugada de quarta-feira, quando desconhecidos lançaram um cocktail molotov para dentro das instalações do jornal. O incêndio que se seguiu deixou os dois pisos completamente destruídos.



Charb, o director do jornal, liga directamente este ataque à capa do jornal desta semana, que mostra um Maomé prometendo "100 chicotadas se não estão a morrer de rir". Sobreposto ao título do jornal pode ler-se "Charia Hebdo", com o profeta Maomé no papel de "chefe de redacção". "Que modo de expressão usar para responder a ests pessoas que não passam de imbecis? Os verdadeiros muçulmanos não incendeiam jornais. O pior de tudo é que, por causa destes imbecis, todos os muçulmanos de França passarão por integristas", afirou Charb, citado pelo Público.



Por seu lado, Dalil Boubakeur, reitor da Grande Mesquita de Paris, condenou o ataque à sede do "Charlie Hebdo" e pediu rapidez na investigação. Mas também pediu contenção no uso da expressão "charia". "Estamos convencidos que as pessoas que usam a palavra não conhecem o seu sentido preciso no Islão", comentou Dalil Boubakeur, explicando que "é o sistema de regras que regem a nossa vida quotidiana", encontrando equivalência no direito canónico no mundo católico. "Não podemos resumir isso a um título a um conceito", concluiu em declarações ao jornal Libération, que acolhe a partir de ontem a redacção do Charlie Hebdo.



Outra reacção veio do ministro do Interior, Claude Guéant, que prometeu que "tudo será feito para encontrar os autores deste atentado. Porque é preciso chamar-lhe atentado". Já o antigo conselheiro da Presidência para a diversidade, Abderahmane Dahmane, pergunta "porque é que agora há gente que vem pôr em causa a integração de mais de sete milhões de muçulmanos em França por causa de dois cretinos dos quais ninguém conhece as origens e que resolveram questionar e atacar a imprensa?".



Para além do ataque incendiário, o site do jornal foi também ocupado por vários grupos de hackers ao longo do dia de quarta-feira. O grupo turco Akincilar reivindicou o ataque informático num comunicado enviado ao Nouvel Observateur, mas distanciou-se do incêndio. "Nós não apoiamos esse tipo de ataque violento", diz o grupo de hackers turco, que tem o "Charlie Hebdo" como alvo "porque publica coisas que insultam os nossos valores religiosos", dizendo ainda "respeitar as outras religiões".