O plano de Netanyahu e Obama

23 de agosto 2010 - 11:15

A pressão da Casa Branca para o regresso de israelitas e palestinianos às conversações directas não causou grandes euforias na perspectiva da solução do problema israelo-palestiniano. Para o eurodeputado Miguel Portas, trata-se duma “operação de propaganda de Obama, uma vitória em toda a linha do governo de Israel e uma capitulação da Fatah". Artigo de José Goulão.

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Obama, Netanyahu e o vice-presidente dos EUA Joe Biden à saída da reunião do mês passado. Foto Casa Branca/Flickr

A nova iniciativa da Administração Obama para o Médio Oriente não é, para já, susceptível de grandes euforias na perspectiva da solução do problema israelo-palestiniano. É mais uma, motivada esta por urgências específicas da Casa Branca, pela necessidade de abafar um fracasso diplomático do Departamento de Estado, condicionadora apesar de apresentada como incondicional. “É uma operação de propaganda de Obama, uma vitória em toda a linha do governo de Israel e uma capitulação da Fatah de Abu Mazen contra a opinião não apenas do Hamas mas também de todas as organizações históricas da resistência palestiniana”, considera o eurodeputado Miguel Portas (GUE/NGL e Bloco de Esquerda).

Barack Obama convidou o primeiro ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmmud Abbas (Abu Mazen), a reunir-se cara-a-cara em 2 de Setembro, sem condições, para restabelecer o diálogo directo como via para conduzir à criação de um Estado palestiniano independente e garantir a segurança de Israel.

A proposta corresponde a uma linha pré-definida da diplomacia norte-americana mas significa também uma fuga para a frente – isto é, um novo passo negocial sem garantias de sustentação nem prazos reais de execução.

Como se sabe, estavam em curso negociações indirectas mediadas pelo Departamento de Estado para reabrir as portas das negociações directas. Para que isto acontecesse deveriam as partes entender-se em aspectos tão essenciais como a definição das fronteiras de coexistência entre dois Estados, mantendo-se congelada a colonização israelita dos territórios palestinianos.

Os quatro meses estabelecidos para as “indirectas” escoaram-se com o mais do que esperado fracasso. Entretanto, a moratória sobre a colonização declarada unilateralmente por Israel vai esgotar-se e não existem indícios de que seja renovada. O facto de as negociações directas se iniciarem “sem condições” é um  modo de dizer a Israel que escusa de incomodar-se especificamente com esse assunto uma vez que vale tanto como todos os outros.

E não vale. Se o governo israelita continuar a autorizar a ampliação e construção de colonatos – actividade ilegal - na Cisjordânia e em Jerusalém Leste – e nada o impede de o fazer no quadro definido para as próximas negociações – sobrará cada vez menos terra destinada ao futuro Estado Palestiniano. O formato diplomático corre o risco de ficar amarrado à discussão de um objectivo que está a ser gradualmente inviabilizado.

Daí que Benjamin Netanyahu seja um duplo vencedor desta fase. Vergou Obama ao cabo de um braço de ferro em que sempre esteve em vantagem e terá pela frente um presidente palestiniano absolutamente vulnerável e sem alternativa a uma estratégia condenada pela sua fraca capacidade negocial.

Barack Obama, obrigado pelo timing estabelecido pelos próprios Estados Unidos a anunciar uma iniciativa neste momento, optou pela versão cómoda, útil  cheia de tempo pela frente. “É uma oportuna operação de propaganda de Obama uma vez que continua em dificuldades no Iraque e no Afeganistão”, salienta Miguel Portas; “ganha tempo porque se sabe como tudo vai recomeçar sem garantias de como e quando acabará tendo em conta o histórico de antecedentes”, acrescenta o eurodeputado; “e de certa forma", nota, "até talvez consiga diminuir a tensão no Líbano”.

Como a memória da comunicação social que faz opinião é muito fraca pouco se notará que entre as promessas de Obama antes das negociações indirectas e a iniciativa de agora existe um abismo de conteúdos. Depois da visita do vice-presidente Biden à Palestinia e Isreal, os Estados Unidos envolveram-se na mediação das negociações indirectas prometendo que se estas não resultassem em quatro meses Washington apresentaria uma proposta de solução própria para o problema israelo-palestiniano e convocaria uma conferência internacional sobre o assunto no Outono.

Nada disto parece estar contemplado na iniciativa actual da Casa Branca, acompanhada por uma caricata tentativa de ressurreição do nado-morto Quarteto.

O que está pela frente é uma prosaica reunião de negociações como tantas em que Nenatyahu já participou nos últimos 13 anos sem que nada de concreto tenha acontecido a não ser “negociar por negociar” – espécie de lema do chefe de governo israelita. Os registos de novos apertos de mão correrão  mundo, destinados cada vez mais a ser olhados com indiferença.

Poderia Mahmud Abbas, na sua actual posição, resistir à capitulação?

Poderia, de facto, num quadro em que conseguisse reactivar a unidade palestiniana não apenas concretizando o acordo com o Hamas que tem vindo a ser negociado mas também restaurando o trabalho conjunto com as principais correntes da sociedade. O que fica para a história, porém, é que aderiu a uma iniciativa norte-americana saudada efusivamente pelo governo de direita de Israel e contra o parecer de toda a resistência palestiniana. “Ainda recentemente não apenas o Hamas mas também todos os grupos históricos palestinianos da OLP rejeitaram em Damasco a adesão a uma iniciativa norte-americana deste tipo”, recordou Miguel Portas.

Mahmmud Abbas estava efectivamente cercado. Toda a pressão dos Estados Unidos e dos seus principais aliados foi feita no sentido de isolar o presidente palestiniano como responsável pelo fracasso de uma iniciativa que todas as partes aceitariam e só ele rejeitaria. Os palestinianos pagariam assim o ónus da rejeição. É uma distorção grosseira da realidade no terreno, mas é assim que as coisas funcionam na ordem internacional estabelecida.

Abbas não quis assumir essa responsabilidade num quadro nacional palestiniano, isolou-se dentro da globalidade do espectro político da sua nação, matou, no imediato, as possibilidades de acordo com o Hamas, e entrou em parceria com Washington e Telavive. Esse foi o caminho que escolheu supostamente na direcção de um Estado Palestiniano tal como lhe é prometido pelos Estados Unidos e por Israel.

Será que os Estados Unidos e a direita israelita oferecerão agora a um presidente palestiniano isolado, sem poder negocial e com um mandato democrático expirado, o Estado cuja criação impediram, na prática, durante as últimas seis décadas?


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.