Micaela Miranda, actriz portuguesa casada com Nabil Al-Raee, director artístico do Freedom Theatre de Jenin (Cisjordânia, Palestina) sequestrado em 6 de Junho pelas tropas israelitas, conta pormenores deste e outros casos de violação flagrante dos mais elementares direitos humanos, fala da saga que é manter vivo e actuante um teatro sob a arbitrariedade e a violência da ocupação, à sombra sinistra de um muro que separa as pessoas do mundo, e conta um pouco da sua peculiar vida de emigrante.
Nabil Al-Raee, o encenador e director artístico do Freedom Theatre de Jenin, no território palestiniano da Cisjordânia, continua detido pelas autoridades militares israelitas depois de ter sido sequestrado na sua casa, na madrugada de 6 de Junho, por soldados com os rostos cobertos e sem qualquer explicação. As informações sobre a sua situação e estado são praticamente inexistentes, uma vez que não pode contactar a família e o advogado, apesar de estar em regime de interrogatório. Nabil é casado com uma actriz portuguesa, Micaela Miranda, jovem de 30 anos que há quatro estabeleceu a sua vida familiar e profissional numa terra onde as condições de vida são duras e opressoras, em nome da liberdade de espírito, de criação artística e de viver em paz, de preferência derrubando o humilhante muro que asfixia toda a comunidade. Tem uma filha de dois anos, que viu o pai ser levado de casa de madrugada por homens de rostos cobertos e com armas apontadas à cabeça. Micaela conta um pouco de tudo isto na primeira pessoa sublinhando, para os que pouco conhecem daquelas realidades terríveis, que apesar de tudo Nabil "tem sorte" por a sua profissão permitir acesso a uma rede internacional de solidariedade uma vez que o seu caso "é um entre muitos" resultante das práticas que são "rotina" da ocupação.
Qual é actualmente a situação de Nabil?
Na audiência no tribunal militar realizada esta segunda-feira, 18, o juiz decidiu que o Nabil ficará preso pelo menos mais sete dias, continuando a não poder falar com o advogado. Agora encontra-se numa outra prisão, a de Asqelon, também conhecida como a "gaiola dourada" entre os que são vítimas destas práticas israelitas. Continuará sem poder fazer contactos, nem com o advogado, pelo menos até amanhã à meia noite ou até o tribunal decidir, segundo as autoridades. As audiências perante o juiz militar começaram em 13 de Junho, uma semana depois de ser levado de casa, e já nessa altura a decisão foi de ficar mais sete dias preso e sem contactos. Agora vem somar-se nova prorrogação da detenção por mais sete dias. Os nossos advogados tentaram sempre entrar em contacto com ele, o que só aconteceu, durante meia hora, na quarta-feira, dia 20.
Inicialmente foi encarcerado numa outra prisão e creio que ainda estiveram alguns dias sem saber para onde Nabil tinha sido levado.
Soubemos apenas em 8 de Junho, dois dias depois da detenção, que Nabil se encontrava na prisão de Jalameh, no norte de Israel. Não fazemos a menor ideia das condições a que foi sujeito. No entanto, conheço muitos palestinianos que estiveram nessa prisão e me contaram pormenores do que aconteceu com eles, sobretudo as condições em que lhes foram feitos os interrogatórios. Pelo que me foi contado, nos primeiros dias o procedimento habitual nestes interrogatórios passa por privação de sono, ficar de mãos atadas e olhos vendados em posições muito incómodas durante longas horas, normalmente sentado num banco demasiado baixo ou no chão; além de toda a tortura psicológica que é ser interrogado.
E quanto à acusação de que foi alvo para ser detido?
Na altura em que foi levado aqui de casa ninguém nos explicou nada. Após a primeira sessão em que Nabil foi ouvido no tribunal militar o advogado foi informado de que o motivo da prisão é a investigação do assassínio de Juliano. O Juliano Mer-Khamis, encenador e realizador, foi fundador e primeiro director do Freedom Theatre, instituição que nunca foi bem vista pelas autoridades israelitas. Há pouco mais de um ano foi assassinado a tiro e até ao momento nem as autoridades israelitas nem as palestinianas conseguiram apurar o que se passou. O advogado mencionou-me que o Nabil não é considerado suspeito e que está apenas sob investigação por ter sido uma das primeiras pessoas a chegar à cena do crime. Na minha opinião, se é este o caso porque o tratam como um criminoso? A forma como foi preso é inaceitável. A tortura a que estamos sujeitos, não só o Nabil mas toda a sua família, devido à falta de notícias, é monstruosa.
Houve algum indício de que uma operação desse tipo dos soldados israelitas estivesse para acontecer?
Em Agosto de 2011 três outros membros do teatro foram presos da mesma maneira: o nosso gestor técnico, o presidente da administração e um aluno da escola profissional de teatro. Foram submetidos a interrogatórios durante seis semanas e depois libertados sem qualquer acusação. Em Janeiro 2012 mais alunos e técnicos do teatro foram presos e interrogados por uma noite. Um mês antes da prisão do Nabil uma série de trabalhadores do teatro foram chamados para serem interrogados em Salem, incluindo eu e o Nabil. Fomos pelos nossos próprios meios, chegámos a horas, respondemos a todas as perguntas e insinuações sobre o nosso envolvimento no caso. Na noite em que o exército veio a nossa casa ouvimos os helicópteros telecomandados que fazem sempre a verificação da zona quando o exército quer fazer uma operação em área controlada pela Autoridade Palestiniana. Sabíamos que o exército estava a chegar, só não sabíamos que era mesmo a nossa casa.
O director do Freedom Theatre, Zakaria Zubeidi, também está detido, mas pela Autoridade Palestiniana. Terá a ver igualmente com o caso de Juliano?
Suspeitamos que a prisão ilegal de Zakaria Zubeidi pelas autoridades palestinianas está relacionada também com o caso, embora não tenhamos sido informados das razões da sua detenção. Zakaria está há quase dois meses sem acesso a um advogado e sem poder contactar a família.
O que se sabe sobre o assassínio de Juliano Mer-Khamis?
O motivo e o autor são-nos desconhecidos. Há muitas teorias e até alguma paranoia da nossa parte, como se pode imaginar nestas situações.
A forma como tudo aconteceu leva-nos a crer que foi um acto organizado e que as pessoas que planearam este terrível acontecimento não estavam interessadas em que o Freedom Theatre continuasse o seu trabalho e provavelmente pretenderiam até criar um desequilíbrio na segurança da área.
Tudo isto afecta com certeza o funcionamento do teatro, da companhia, dos seus serviços. Como é que têm gerido a situação e conseguido manter a actividade?
Com todas estas prisões o Freedom Theatre enfrenta grandes dificuldades para prosseguir as suas actividades e dar resposta financeira a todos os procedimentos legais exigidos pelas detenções sucessivas dos seus membros. Desde a morte de Juliano que enfrentamos dificuldades institucionais, além de estarmos a tentar lidar com o trauma causado pelo assassínio, que só se tem aprofundado com o assédio conduzido pelo exército israelita.
Acho que, ainda assim, o nosso espírito é de certa forma bastante corajoso, tentamos apoiar-nos uns aos outros e dizer que é preciso continuar apesar de tudo. Perante todos estes acontecimentos não paramos um minuto, trabalhamos horas extra e fins-de-semana. Ao mesmo tempo é visível o stress traumático em cada um de nós, mas todos tentamos lutar contra isso.
Além das acções de solidariedade já em curso, que outras iniciativas desenvolvem ou acham que poderiam ser lançadas?
Ultimamente temos pensado em organizar manifestações à porta das embaixadas israelitas por todo o mundo. Através da nossa rede de internet apelamos aos dirigentes mundiais com influência sobre o governo israelita, como é o caso por exemplo da senhora Angela Merkel, para que façam a pressão possível sobre as Forças Armadas de Israel.
Que têm feito as autoridades palestinianas no apoio , solidariedade e exigência de libertação?
Nada. A Autoridade Palestiniana defende-se dizendo que o assunto está fora da sua jurisdição. Até agora não obtivemos nenhuma declaração pública das autoridades sobre o caso.
Como estão a reagir as pessoas de Jenin e do campo de refugiados a esta situação?
Infelizmente o Nabil é apenas um caso entre muitos. Na mesma noite em que foi levado outras quatro pessoas foram presas no campo de refugiados e na cidade. Só no mês passado foram presas 240 pessoas nas mesmas circunstâncias. As pessoas de Jenin transmitem-nos a sua solidariedade mas dizem também que, infelizmente, "isto é normal".
Há muito que este tipo de práticas é uma rotina e pelo menos o Nabil tem a sorte de o seu trabalho lhe dar acesso a uma grande rede internacional, que aliás se está a mostrar bastante surpreendida com tais comportamentos.
Como é que uma actriz portuguesa veio trabalhar para a Palestina e se torna agora, digamos, uma personagem de uma realidade fruto de uma situação que parece tão distante da maioria dos portugueses?
A história da minha vinda para a Palestina é muito curta. Estava a trabalhar numa companhia na Irlanda quando li um artigo sobre o The Freedom Theatre. Nessa mesma altura tinha sido convidada para substituir uma actriz num espectáculo de clown sobre a guerra. Depois, assim que cheguei a Telavive pus-me em contacto com o Juliano, que me convidou a ir a Jenin. Nessa altura trouxe comigo um realizador e editor de vídeo irlandês e fizemos uma viagem inesquecível na companhia do Juliano. Fingíamos que íamos para uma faculdade inexistente na Universidade Árabe-Americana de Tulkarem e sempre que tínhamos que passar um checkpoint escondíamos o nosso carro israelita, fazíamos a troca por um carro palestiniano de uma família ali perto e presenciávamos como tudo se processa no dia-a-dia dos palestinianos que têm que se deslocar e atravessar os sucessivos controlos militares israelitas.
Não ficou ainda dessa vez?
Durante essa primeira estadia no Freedom Theatre, em 2008, o Juliano convidou-me para ficar e ser uma das professoras no quadro da escola profissional, e também encenadora. Conheci o meu marido no The Freedom Theatre quando encenámos juntos uma versão adaptada de "Animal Farm" – uma reflexão sobre a corrupção na sociedade palestiniana após a primeira Intifada. Ao fim de um ano fiquei também com a função de coordenadora pedagógica do programa da escola profissional de teatro, que desempenho até agora. Como o meu árabe foi melhorando, no último ano comecei também a ser actriz da troupe e faço especialmente parte do grupo de improvisação Freedom Bus, que recolhe histórias da comunidade e as improvisa no momento.
Eu e o Nabil temos também um projecto nosso, The Moving Theatre, que essencialmente consiste em criações artísticas profissionais feitas sempre em cooperação com várias companhias. Viajamos pela Margem Ocidental (Cisjordânia), por vilas e cidades palestinianas com o intuito de levar o teatro, a cultura e a reflexão a locais mais remotos. Promovemos encontros entre artistas, renovamos as nossas abordagens, procuramos temas de inspiração. Achamos que esta é também uma forma de combater a geografia da ocupação israelita e proporcionar momentos de liberdade e espectáculo em cidades e vilas que estão completamente isoladas.
Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.