O ano da Grande Muralha

02 de março 2017 - 15:56

Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, está decidido a edificar uma monumental barreira de proteção na fronteira com o México. Por Ignacio Ramonet

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Alguém deveria ensinar um pouco de História ao presidente norte-americano, recordar-lhe que as ciclópicas fortificações quase nunca pararam nada
Alguém deveria ensinar um pouco de História ao presidente norte-americano, recordar-lhe que as ciclópicas fortificações quase nunca pararam nada

É possível que 2017 seja recordado na história como o ano da Grande Muralha. Porquê? Porque Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, está decidido a edificar uma monumental barreira de proteção na fronteira com o México - segundo ele, para impedir a “invasão” dos imigrantes ilegais vindos do “perigoso sul”.

Alguém deveria ensinar um pouco de História ao presidente norte-americano, recordar-lhe que as ciclópicas fortificações quase nunca pararam nada. Não construíram os chineses, na antiguidade, a Grande Muralha para deter o avanço dos mongóis? O Império Romano não ergueu, no norte da Inglaterra, o colossal Muro de Adriano para rechaçar os bárbaros da Escócia? Como se sabe, em ambos os exemplos históricos, essas gigantescas paredes de pedra não foram capazes de evitar o fracasso. Os mongóis passaram, também os manchus, assim como os caledónios… Como continuarão a passar para os Estados Unidos, os mexicanos, os centro-americanos, os caribenhos, os muçulmanos… Na eterna dialética militar do escudo e da espada, a ideia de Trump de construir a grande muralha resultará em milhares de túneis subterrâneos, que provavelmente já estão a ser perfurados…

Mas há também outra contradição. Por um lado está o anunciado plano de investimentos de Trump, de um bilião (“milhão de milhões”) de dólares em obras públicas, uma espécie de novo New Deal, visando reconstruir as infraestruturas, estradas, pontes, túneis e aeroportos em todo o país. Esse plano também pretende recuperar a atividade económica, o crescimento e, sobretudo, criar milhões de empregos. Porém, por outro lado, já há pleno emprego nos Estados Unidos… Durante a administração de Barack Obama foram criados doze milhões de postos de trabalho1. O paradoxo é que, na verdade, existe falta de mão de obra, e faltará ainda mais se Donald Trump expulsar onze milhões de trabalhadores imigrantes ilegais, como prometeu. Quem construirá a Grande Muralha, as pontes, as estradas e os túneis?

Outro problema: as estatísticas oficiais norte-americanas mostram que o número de reformados por trabalhadores ativos não para de aumentar. Ou seja, como em todas as sociedades desenvolvidas, o número de pessoas da terceira idade cresce mais rapidamente que o de jovens. A consequência é que as cinco primeiras profissões que oferecerão mais empregos na próxima década serão as seguintes: ajudantes de cuidado pessoal, enfermeira/os, empregada/os doméstica/os, trabalhadores de restaurante de comida rápida e vendedores de comércio a retalho. Todas as atividades duras e mal remuneradas, trabalhos normalmente relegados aos imigrantes. Se se erguer a “Grande Muralha” nos Estados Unidos, quem as exercerá?

Outro aspeto do problema: as migrações nunca se realizam por capricho. São o resultado de guerras ou de conflitos, de desastres climáticos (secas, por exemplo), da demografia, da urbanização acelerada do Sul, da exploração, da mutação económica (como a diminuição do campesinato), dos saltos tecnológicos ou dos choques culturais. Fatores sociológicos que estão a empurrar as pessoas dos países pobres - sobretudo aos mais jovens – para a emigração em busca de uma vida melhor. Uma tendência que é mais forte que o controle de qualquer político e que um muro talvez possa dificultar, mas não poderá impedir nem desvanecer.

Além disso, se Donald Trump está obcecado com os imigrantes latinos, deverá preparar-se para as outras “invasões” que vêm por aí. A África subsahariana, por exemplo, contava no ano 2000 com 45 milhões de pessoas de entre 25 e 29 anos, que é a idade na qual as pessoas mais emigram. Hoje, os subsaharianos dessa idade já são 75 milhões, e em 2030 serão 113 milhões… O Banco de Desenvolvimento Africano calcula que dos 12 milhões de subsaharianos que ingressam em cada ano no mercado de trabalho, apenas 3 milhões encontram emprego formal. O resto – ou seja, 9 milhões de jovens por ano - constituem uma reserva cada vez maior de migrantes potenciais. Na Índia, um milhão de jovens chegam aos 18 anos em cada mês, e muitos sonham emigrar2...

Entretanto, a Grande Muralha de Trump deve ser entendida também no sentido metafórico, pois significa uma barreira aduaneira, para dificultar o acesso de produtos estrangeiros ao mercado interno norte-americano - com taxas anunciadas de 45% sobre as importações provenientes da China, e de 35% para as do México. Ou seja, protecionismo comercial duro, que foi um dos principais pontos da sua campanha eleitoral.

Esse é o verdadeiro significado da eleição do novo presidente dos Estados Unidos, que marcou a sua primeira semana no poder por gestos para com os eleitores da classe operária, que o ajudaram a ganhar no dia 8 de novembro do ano passado, e que se sentem prejudicados pelas deslocalizações industriais. Trump cumpriu essa promessa e assinou um decreto para retirar os Estados Unidos do Tratado Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), um acordo com onze países do Pacífico, promovido por Barack Obama. Também anunciou que renegociará o tratado de livre comércio com o México e o Canadá (NAFTA, na sigla em inglês)3.

Tudo isso significa uma derrota da globalização neoliberal, do livre mercado e das deslocalizações. Para entender o que isso significa, basta ver a gritaria interminável e permanente contra Donald Trump por parte de todos os partidários do ultraliberalismo. Começando pelos grandes meios de comunicação dominantes, que agora arremetem sem trégua – algo jamais visto – contra o próprio presidente dos Estados Unidos, como faziam quando se tratava de Chávez. Uma tendência que não se observa só nos média norte-americanos - leia-se, por exemplo, o incontrolável furor anti-Trump do neoliberalíssimo diário espanhol El País.

Neste ano, quando se celebra o centenário da revolução bolchevique de outubro de 1917, o “grande choque” que Donald Trump está a dar nos assuntos internos norte-americanos e na geopolítica internacional acaba também por estremecer o mundo. Nalgumas coisas para bem, em muitas outras para mal.

Artigo de Ignacio Ramonet, publicado na edição em espanhol de fevereiro de 2017 do “Le Monde Diplomatique”. Tradução de Victor Farinelli para Carta Maior


1 O presidente Obama deixou una taxa de desemprego de 4,7%, um nível próximo do pleno emprego.

2 Todas as estatísticas provêm do semanário The Economist, número especial “The World in 2017”, Londres, dezembro de 2016.

3 O NAFTA, que une Canadá, Estados Unidos e México numa única área comercial, foi aprovado em 1994 sendo presidente dos Estados Unidos o democrata Bill Clinton, esposo de Hillary Clinton. Donald Trump afirmou que não sairá do acordo, por agora, mas que quer renegociá-lo.

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