Os indecisos que podem decidir
Hoje, entre quem é chamado a decidir, está o grupo de estudantes com quem estivemos à conversa noite dentro. Não havia quem discordasse da rejeição do memorando, mas a maioria não tinha votado no Syriza nas eleições de Maio. Ora porque prefeririam dar o seu voto a outros partidos da esquerda, ora porque optaram pela abstenção. Desta vez, todos iriam votar no Syriza.
Auxílios à reflexão
Os últimos dias foram marcados por uma chantagem aberta. Jean-Claude Junker, o líder do grupo dos ministros das finanças da zona euro bradou sobre “consequências imprevisíveis para a Grécia” em caso de vitória da esquerda, fazendo o favor aos gregos de os auxiliar em pleno dia de reflexão: “Isto tem que ser evitado, seria um péssimo sinal e os gregos devem sabê-lo”. Dois dias antes, numa TV grega, uma ameaça semelhante, mas em tom de polícia bom, foi feita por François Hollande: “Se cumprir os seus compromissos”, a próxima cimeira da eurozona “adoptará medidas para o crescimento com impacto na Grécia”. Hollande recusou reunir-se com Alexis Tsipras quando da sua viagem a França.
Os movimentos sociais e o governo da esquerda: o princípio de uma luta
Sissy Vovou é uma militante feminista e anti-fascista de sempre. Tínhamo-la conhecido em 2009, no contexto da revolta grega que sucedeu ao assassinato do jovem de 15 anos Alexis Grigoropoulos. Na altura, dinamizou uma campanha de solidariedade com Constantina Kouneva, a trabalhadora atacada com ácido a mando do seu patrão.
Sissy fala-nos da campanha de solidariedade com as 40 prostitutas presas por serem seropositivas. Com o argumento de proteger os clientes que preferem não usar preservativo, o Estado prendeu estas mulheres, forçou-as a análises e exibiu na tv e nos jornais as suas fotografias e moradas, anunciando que tinham HIV. Há 24 destas mulheres que ainda estão encarceradas. Vovou conta-nos esta história como exemplo de uma questão que tem estado ausente da campanha – e que, no seu entender, não devia. Explica-nos a dinâmica do “movimento das praças” e das assembleias populares locais. Defende a necessidade de movimentos sociais independentes e fortes para que um governo de esquerda tenha sucesso.
Essa articulação passa por “comités de vigilância”, quer contra a direita, quer contra a pressão dos vários poderes, para assegurar os compromissos com os movimentos. Militante da Syriza, ela sabe que a vitória de domingo é só o princípio de uma luta.
Uma campanha de sangue
É assim que a campanha da extrema-direita, representada nestas eleições pelos nazis da Aurora Dourada, é descrita pela Sissy Vovou. Todos os dias tem havido violência sobre imigrantes e perseguição a quem é solidário com eles. Ontem, a campanha deste partido espancou um egípcio depois de lhe invadir a casa a meio da noite. Hoje vandalizaram as tendas da Syriza, da Antarsya e dos Gregos Independentes. Pelo que nos dizem, esta violência tem ficado impune e acima de tudo tem-se tornado mais explícita. O recente episódio em que um dirigente da Aurora Dourada, Ilias Kasidiaris, agrediu duas deputadas da esquerda num programa de televisão, é assumido com orgulho pelos fascistas. Nos comícios do partido grita-se “Kasidiaris, bate na lésbica!”.
A Aurora Dourada é um misto de nazi-fascismo clássico e Ku Klux Klan. A ideia é explorar o medo na população grega para ganhar aceitação para o seu programa extremista. Além da perseguição dos imigrantes, defende por exemplo a revogação de todas as leis de igualdade de género.
A Syriza é o Pasok?
Num táxi a caminho de Syntagma, vindos do comício do KKE, perguntamos ao condutor as suas preferências: “Nova Democracia ou Syriza?” Ele responde-nos “Papariga”, nome da líder do Partido Comunista e explica-nos que é militante do KKE. “E da Syriza, o que acha?”. “A Syriza é o PASOK”, diz-nos sem hesitação.
Nem tudo será fácil. Mas hoje sabemos que tudo é possível.
Ninguém diz que a situação será fácil caso a Syriza vença hoje as eleições. Desde logo, porque a economia está devastada pela austeridade. Depois, diz-nos Stathis Kouvelakis, porque além da política de terra queimada deixada pela troika nos serviços públicos, um futuro governo de esquerda encontrará ainda muita da administração deixada em cacos. A isso soma-se uma mais que provável tentativa de isolamento pelo poder europeu. E, num contexto de maioria relativa, as pressões fortes das outras forças políticas e das instituições para descaracterizar ou impedir a execução do programa da Syriza. Mas o dia de hoje já mostra que tudo é possível. Contra todas as previsões, pode decidir-se na Grécia o fim da austeridade e das terapias de choque neoliberais. Não é pouco. Hoje decide-se na Grécia, em grande medida, o futuro da Europa.
Encontramo-nos mais logo, a partir das 17h.
Estaremos em ligação com o portal, a partir de Atenas. Depois do concerto de solidariedade com a Grécia em Lisboa, a Marisa Matias vai também juntar-se para acompanhar aqui, ao lado dos camaradas da Syriza, um dia que será histórico.
Comentários
Bem achado: a Syriza é o PASOK, um atenuador de tensões sociais mas nem por isso uma alternativa ao capitalismo.
Pois é por esta incrível desinformação e ignorância, que torna quase impossível a vitória do BE ou do PCP nas eleições legislativas, porque o povo não sabe de nada e em vez de calar a boca e tentar aprender qualquer coisa não, cada um diz o que pensa e depois saiem estas abominalidades, então Syriza = PASOK? O PASOK também é chamado de esquerda radical? e a Syriza assinou o acordo da Troika? você deve ser mesmo daquelas pessoas que vivem noutro mundo.
Ó sr. Manuel Rocha, o Syriza é "um atenuador de tensões sociais"??? Em que planeta o sr. vive? Os governos capitalistas europeus tremem diante de uma possível vitória da Syriza, desunham-se a fazer campanha contra ela. Mas a sua iluminada mente enxerga essa "atenuação", "igual ao Pasok". Igual ao Pasok? Francamente, cegueira tem limites!
"Os governos capitalistas europeus tremem diante de uma possível vitória da Syriza...." lol
Olhe que em grande parte é apenas um teatro. A Syriza, uma vez no poder, rapidamente vestirá o fato e calçará os sapatos do defunto PASOK, e o capital Alemão sabe isso muito bem.
O problema da Syriza é que promete fazer omoletes sem quebrar ovos (sem enfrentar o capital europeu e grego), e omite muitas coisas que sabe perfeitamente ser inevitáveis, tal como a saída de Grécia do Euro. O discurso "falsamente optimista" deles atrai muita gente, mas a prazo terá consequências devastadoras para eles, e talvez, para o resto da esquerda Grega.
Espero que o BE (sobretudo os seus apioantes sinceros), observem atentamente a conduta e acções do Syriza nos próximos meses (até às próximas eleições e a seguir a elas). Acho que aprenderão bastante.
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