Há coisas que temos de viver para saber. Debater ideias num plenário de múltiplas intervenções, em duas semanas consecutivas, é uma delas. E é boa. Um sinal de vida e de potencial, de confiança mútua e de capacidade de aprender. Só aprende quem pensa e quem ouve o outro, os outros, e pensa de novo.
Uma derrota é uma derrota. Neste caso, o resultado eleitoral do Bloco no dia 5 de Junho de 2011 nem sequer foi uma derrota inesperada, embora o grau da penalização da votação pudesse ser diferente nas expectativas de cada um de nós. Vale o que vale, e muito se disse e escreveu já entre nós e fora de nós sobre as causas desse resultado. O que é natural, numa sociedade aberta e num regime democrático em que há livre expressão, o que facilita muitas ideias e boas e também permite muitas ideias menos boas, claro. É a vida!
Movem-me a falar, no entanto, mais do que as causas, os efeitos de tal resultado. E os efeitos que podemos potenciar, construindo o Bloco de novo, e sempre, mais perto do povo e da vida real, mais actuante nas diversas modalidades de poder , tanto o formal, como o Parlamento ou as autarquias, como o informal, na rua ou nas redes sociais. E não estou a falar só das redes sociais virtuais, estou a pensar no trabalho com gente em associações, instituições, colectividades, grupos efémeros ou persistentes onde interagimos com cidadãos e cidadãs, a todos os níveis, do mais local ao mais global.
Muitos estão interessados naturalmente em que o Bloco se dilua, desapareça, ou fragmente – os mesmos a quem serve que ele perca relevância e se feche; aqueles a quem o Bloco faz diferença porque incomoda, limita, ou inibe de aceder ao poder. Espero que seja a direita aqueles a quem o bloco mais combate, que sejam os conformistas e os conformados, os conservadores e os puritanos de todos os matizes aqueles a quem o Bloco mais incomode – pois isso quer dizer que estaremos no caminho certo, o da melhoria da vida de todos, com mais qualidade, mais justa, mais fraterna, mais livre e mais harmonizada com as bases de um futuro melhor para todos e todas, aqui e em toda a parte. E por isso, claro, à Esquerda. A Esquerda onde fica e ficará o Bloco.
Palavras bonitas e ocas? Olhe que não olhe que não... e nada fáceis de concretizar com coerência e efectivo alcance, que resistir por resistir é pouco, só faz sentido se alimentar um crescimento maior e mais seguro, que consiga mudar alguma coisa, e mudar para melhor. Ou seja, ter poder, ser poder, democrático e actuante.
Não é de desprezar o revés eleitoral – o Parlamento é um lugar de poder, os média também, e as duas coisas estão ligadas, como sabemos. No entanto, há outras fontes de poder em que também temos de trabalhar mais e melhor. Para isso, é preciso inventar novas formas, e corrigir algumas conhecidas, de trabalhar com as pessoas. Dentro e fora do Bloco. Porque sem cultura de participação mais alargada e envolvente, em que cada um sinta que vale a pena, não há renovação que seja muito mais que cosmética. Quem se fecha, seca. Reguemos pois o Bloco, preparemo-nos para os próximos passos.
Temos hoje apesar de tudo, mais implantação no País que em 2005, e, até, que em 2009. Mesmo depois de uma derrota eleitoral, em plena ascensão da Direita, somos um dos partidos mais votados na Europa, na nossa área política. Esta implantação também nos alerta diariamente para reais fraquezas organizativas, onde haverá claramente muito a fazer, nas práticas e nos conceitos. Dar recados “de cima” não é coordenar, resumir-se ao espontâneo e ao efémero não é construir. Pedir contas passa por prestar contas, sempre, e corrigir, melhorar. Sem excesso de críticas mas também sem susceptibilidades intolerantes. Teremos que inventar outras formas de organizar, de nos organizarmos, para crescer bem.
As mensagens políticas que construimos e transmitimos enfrentam hoje maior exigência, por vários factores. Por um lado, as estratégias entorpecedoras da consciência seguidas pela Direita fomentam os discursos populistas que metem os “políticos” todos no mesmo saco e persistentemente alimentam o conformismo, a auto-satisfação com diversas formas de indiferença, abstenção ou simplesmente derrotismo, mascaradas de superioridade moral ou simplesmente de comodismo. Aniquilando sempre qualquer esperança de mudança, pela aceitação directa ou pela elaboração e fantásticos messianismos ou diabolização de personagens mais ou menos efémeros que se vão sucedendo no palco visível (Sócrates, Cavaco, Passos, Paulo Portas, amanhã quem sabe?), e a que não escapam, claro os nossos camaradas mais conhecidos dos jornais e da TV. As chamadas “caras” do Bloco. E por isso mesmo pessoalmente mais vulneráveis. A melhor maneira de sermos solidários com eles ou com elas não será porém a eterna concordância, ou o tácito, ou sonso, silêncio, mas a manifestação da nossa opinião livre e franca, se possível com possibilidade de rápido confronto de ideias, bem como da nossa capacidade de ouvir a sua resposta com a mesma tolerância e o mesmo respeito que gostamos que nos seja demonstrado.
Assim é que é bonito, e assim é que podemos avançar.
Com respeito, sem “respeitinho”: a inquietação faz parte do nosso património de Esquerda, ou devia fazer, pois dela nasce movimento. Com lealdade e fraternidade, mas sem vénias de reverência. Com confiança e solidariedade, sem obediência nem obediências. Com paciência mas também sem reprimir a emoção sincera.
O que inclui respeitar não só ideias diferentes como modos de expressão diferentes, nisso também ser mais multicolor. Quem não usa terminologia marxista e quem domina as subtilezas dos conceitos teóricos desta ou daquela corrente de pensamento. Temos de nos saber traduzir à luz de princípios simples que nos definem enquanto Esquerda, enquanto Bloco: um Partido com assento parlamentar, com capacidade de alternativa, com consciência de que age certo e age errado mas se dispõe a corrigir, sempre, sempre, para o povo a que pertencemos viva melhor, seja mais livre, com memória e com esperança. A História é feita por nós todos e nós todas, e, como diria Rosa Luxemburgo, antes da plena ascensão de poderes totalitários na Europa, nos anos 30, a libertação dos trabalhadores será sempre obra dos próprios trabalhadores.
Por isso combater o medo nos corações é contribuir para libertação. Não é tarefa pouca, e tem de ser a nossa!
Temos dois anos duros pela frente, se não forem dez... comecemos pelos próximos dois. Depois da necessária catarse, que vamos acompanhando em tempo quase real através desse grande instrumento que é o esquerda.net, sugiro algumas linhas de prioridade (5).
1. Reunir forças, o que se consegue por deixar de lamber feridas e passar a construir mais e mais movimento político na base, alargando a quem queira chegar-se a nós e corrigindo deficiências de organização de modo a que floresça uma cultura activa de participação, de tolerância, de confiança e de intervenção política em causas que preocupam e mobilizam as pessoas. Isto por si só é obra, e precisa de todos e todas – mais ainda que renovar figuras mais ou menos visíveis, é preciso conseguir que quem se afastou volte, que quem quer agir politicamente à esquerda se sinta bem entre nós e connosco. Os momentos eleitorais virão, nas Regiões e nas autarquias, e neles teremos de afinar estratégias. Mas antes e durante, está aí a brutalidade das medidas troikistas e mais que troikistas, as inevitáveis e as que nem tanto, para nos fazer unir e agir.
2. Mudar e querer mudar. Mudar por dentro, nas formas de organização e de participação, e mudar para fora, agindo mais e melhor. Não há maravilhas de propaganda que nos reinventem como alternativa, temos de o ser e de o querer ser. Teremos de assumir que se quer fazer parte das soluções, e não apenas da denúncia dos problemas. Propor, contrapor, perguntar para clarificar, criar sempre que possível propostas realistas e exequíveis. Atacar de frente o tema da Europa que aparentemente ninguém quer discutir. Combater pelo aumento da literacia financeira e política de cada vez mais pessoas em Portugal, aniquilando a base social do populismo com armas antigas da Esquerda que queremos ser: o conhecimento e a cultura, a criação e a partilha dos meios de invenção.
3. Ser optimista na acção. Sei que é difícil, mas não se motiva ninguém com discursos azedos, que se auto-excluem, ou previsíveis (a famosa cassete!). Quem mudou de voto uma vez muda duas ou três...
4. Combater a exploração, a injustiça, a desumanidade, o racismo, a xenofobia, a homofobia... levantar bem alto as nossas bandeiras de muitas cores, muitos amores, contra os favores, a corrupção e o desalento.
5. Abrir caminho e aprender a fluir, com mais eficácia e muito menos crispação, sem que isso signifique menos paixão e menos verdade. Com mais zigues ou menos zagues, seja o nosso caminho o da razão, do coração e da consciência, que logo haverá pés para o percorrer. A vida de cada um e cada uma de nós é curta, e os testemunhos passam pelo seu próprio valor e conteúdo. A idade desses pés e o nome dos(as) caminhantes é realmente apenas um detalhe... O essencial é o sentido e a direcção da caminhada.
Maria José Vitorino
aderente (Vila Franca de Xira)