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Maioria dos estudantes universitários foi vítima de violência no namoro, revela estudo

Estudo sobre violência no namoro entre estudantes universitários veio demonstrar que mais de metade das pessoas inquiridas foi vítima de violência no namoro e que 37% assume já a ter praticado. Apenas uma minoria reconhece a necessidade de apoio.
Ameaças de morte entre vítimas de violência no namoro
Foto: Paulete Matos

Estudo sobre violência no namoro entre estudantes universitários veio demonstrar que mais de metade das pessoas inquiridas foi vítima de violência no namoro e que 37% assume já a ter praticado. Foram apresentadas 128 denúncias em apenas dez meses. Mais de metade refere-se a casos de violência física e apenas uma minoria de mulheres reconhece a necessidade de apoio.

Dos mais de 1 800 estudantes universitários que participaram no estudo, um quinto das raparigas afirma ter sido controlada em termos de aspeto físico ou de locais que frequenta e 8% admite ter sido forçada a comportamentos sexuais não desejados. 

São parte das conclusões do Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro, que vão ser apresentados esta quarta-feira, dia 14 de fevereiro, no seminário final da primeira edição do Programa UNi+ — Prevenção da Violência no Namoro em Contexto Universitário, promovido pela Associação Plano i e financiado pela Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade.

Para a investigadora Sofia Neves, presidente da Associação Plano i e coordenadora científica do Programa Uni+, ouvida pelo Público, estes dados “são muito preocupantes, e acima daquilo que têm vindo a ser as estatísticas dos estudos científicos desenvolvidos até ao momento”. “Estamos a falar de 56,5% destes e destas jovens que foram expostos a pelo menos uma forma de violência”, alerta a docente do Instituto Universitário da Maia (ISMAI).

O estudo conclui ainda que os jovens — a média de idades era de 23 anos — não compreendem a complexidade da violência nas relações de intimidade: 13,5% dos rapazes e 6,5% das raparigas entendem que “as mulheres que se mantêm nas relações violentas são masoquistas”, e um quarto dos rapazes acredita que algumas situações de violência doméstica são provocadas pelas mulheres — entre as raparigas, apenas 12,6% partilham da mesma opinião. “Há um desconhecimento muito grande do que leva a que as vítimas permaneçam nas relações”, lamenta Sofia Neves.

A Associação Plano i é também responsável pelo Observatório da Violência no Namoro, que recebeu 128 denúncias desde abril do ano passado até janeiro deste ano. Em 92% dos casos as vítimas são do sexo feminino, e em 94% das denúncias os agressores são do sexo masculino.

Mais de metade dos casos reportam violência física, um terço são de violência social, 27,3% de perseguição e 17,2% de violência sexual. Em 10,9% das situações, as vítimas foram ameaçadas de morte por namorados ou ex-namorados. “Ele agarrou num vidro, aproximou-o no meu pescoço e disse: só me apetece matar-te”, relatou uma das vítimas às técnicas do Uni+.

Mas é a violência psicológica a forma mais frequente de violência no namoro, encontrando-se presente em 90,6% dos casos reportados ao Observatório. De acordo com a investigadora, isto acontece porque quase todas as outras formas de violência costumam ser acompanhadas pela violência psicológica.

A maioria das denúncias (60,9%) falam de agressões que ocorreram mais do que uma vez, e em um terço dos casos a violência é frequente. Os ciúmes são o motivo mais citado, estando presentes em dois terços das situações, mas também problemas mentais (35,1%) e consumo de álcool (29,6%).

Destas 128 denúncias, apenas 7 foram feitas por vítimas atuais, ou seja, pessoas que ainda sofriam violência no namoro no momento do contacto. E nem todas estavam dispostas a ser acompanhadas ou a apresentar queixa. O Programa Uni+ abrange também um gabinete de apoio, que acompanhou apenas oito pessoas durante os últimos meses de funcionamento no ISMAI e na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

“Há uma resistência muito grande em pedir ajuda, o que faz com que elas lidem sozinhas com a sua própria situação”, afirma Sofia Neves. Por um lado, existe um receio de uma escalada de violência. Por outro, há uma descrença no sistema e na sua eficácia. Nos casos comunicados ao Observatório, em 11,7% foi apresentada queixa às autoridades e em apenas 5,5% das situações foi aplicada uma medida ao agressor.

Mas há igualmente dificuldades em reconhecer que se é vítima. No caso da violência física, por exemplo, “uma bofetada, um empurrão, um puxão de cabelos nem sempre são vistos pelas vítimas como comportamentos de violência.” Mesmo no contexto de intimidade, usar da agressividade física durante o ato sexual nem sempre é considerado uma forma de violência.

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