Louise-Michel: já te apeteceu matar o patrão?

26 de junho 2010 - 13:28

De Benoît Delépine e Gustave Kervern, um filme cuja mensagem política se encontra nas entrelinhas de uma comicidade, que não é mais do que a ironia mordaz de quem olha o mundo tal como está e o vê decadente. Surreal, grotesco e hilariante.

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O filme Louise-Michel, de Benoît Delépine e Gustave Kervern, estreia nos cinemas a 1 de Julho.

Por onde começar? Comecemos pelo ponto de partida desta história: as trabalhadoras de uma fábrica de têxteis algures na Picardia, França, são surpreendidas pelo director com um discurso entusiasmante mas que não as convence (vive-se o rescaldo de um plano de redução de custos que incidiu nos salários delas...) e com novas batas, bordadas com os nomes das funcionárias. Há uma centelha de esperança amarga que se acende e que ainda assim é festejada num café local. 

No entanto, a verdadeira surpresa estava guardada para o dia seguinte: quando as trabalhadoras chegam de manhã à fábrica, as máquinas, os escritórios, tudo foi retirado durante a noite – a direcção fugiu e a fábrica fechou sem pré-aviso. Consternadas, desiludidas e desempregadas, um grupo de dez trabalhadoras reúne no mesmo café da noite anterior, e aí ouvem a delegada sindical anunciar o montante da indemnização a que vão ter direito: dois mil euros para cada uma.

Ainda pensam em formas de investir o dinheiro conjunto mas não surge nenhum proposta animadora até Louise, uma das funcionárias, fazer a sugestão derradeira que de imediato é votada e aprovada com unanimidade: utilizar o dinheiro para contratar um assassino profissional e matar o patrão.

Louise fica encarregue de encontrar o “profissional” e acaba por fechar negócio com Michel, um “security manager” de um parque de auto-caravanas que, na verdade, nunca matou ninguém. 

Em busca do patrão, invisível na nebulosa do capitalismo globalizado, procurando por fim a sede da multinacional responsável pela fábrica, Louise e Michel embarcam num “road-movie” inacreditável e absurdo que os conduz até ao paraíso fiscal de Jersey, onde um apartado e uma feliz coincidência os levará por fim ao milionário sem escrúpulos. 

Sublinhamos os elementos burlescos, o humor assumidamente negro, o delírio de inspiração anarquista, o grotesco, a cor cinzenta, a estética do surreal e do disforme, a ética aparentemente ausente. Mas queremos antes deter-nos nos detalhes que tornam Louise-Michel (2008), a terceira longa-metragem (depois de Aaltra em 2004 e de Avida em 2006) dos belgas Benoît Delépine e Gustave Kervern, um filme cuja mensagem política não é gratuita e cuja comicidade não é mais do que a ironia mordaz de quem olha o mundo tal como está e o vê decadente.

A alusão/homenagem a Louise Michel, a célebre feminista e anarquista da Comuna de Paris que vestiu a farda “dos homens” para combater nas barricadas, encontra-se na dupla ao quadrado de Louise e Michel, perfeitos inaptos sociais, e na sua epopeia libertária. O percurso mirabolante tornará visíveis as criaturas e os costumes grotescos, negros, pirosos e de mau gosto do tempo presente: o do capitalismo selvagem e, simultaneamente, o de uma sociedade esgotada de si mesma. 

O cómico está no humor negro ou no nonsense escatológico dos freaks da sociedade actual, está no bebé improvável que nasce no final, nas pizzarias, nas fardas bordadas e no mercado bolsista. Está também no facto de Louise e Michel terem imensa dificuldade em encontrar o patrão para o matar e de esta ser, ainda assim, a única solução plausível. 

Mas por detrás do cómico está a crítica da exploração globalmente organizada que impede a relação directa entre patrões e trabalhadores enganados e despedidos, antes mediada pelos “directores de recursos humanos”, da acção cruel do patrão rico que despede enquanto continua a enriquecer à beira da piscina, das 45h de trabalho semanais de Louise. Está também a crítica da rotina dos dias cinzentos que “não é vida”, do tráfico de pessoas e a da opressão dos géneros estereotipados.

A proposta de Louise é radical, as suas acções selvagens. Mas a impunidade do patrão também é brutal e as suas acções são cotadas na bolsa! 

Em Louise-Michel, o registo cómico e negro arrasa o leito estreito do julgamento ético e confunde-o acertadamente com o político. No entanto, nada é realmente a sério, fica só a sugestão…

Além disto, não deixa de ser interessante o facto de o filme descrever um episódio que actualmente tem marcado a vida de muitas pessoas que são despedidas de um dia para o outro, em fábricas que fecham por súbita falência fraudulenta. Estas falências derivam da crise financeira que assola as economias cada vez mais afectadas pelos humores dos mercados. 

Já há muito tempo que é assim, só que agora é tudo às claras, há a desculpa perfeita para explorar ainda mais (aqui na Europa chamam-lhe “planos de austeridade”). Talvez por isso o negro de Louise-Michel calhe bem.

Louise-Michel marcou presença na última edição do Festival de Cinema Independente IndieLisboa e estreará no próximo dia 1 de Julho nos cinemas.

Tivémos a oportunidade de assistir a uma sessão prévia. Fomos, gostámos e aconselhamos. Porque não?

Ver trailer do filme disponível  aqui (em francês).

 

Sofia Roque.