Os islandeses vão, no fundo, responder a um pergunta muito simples, mas com vasta implicação: quem deve afinal pagar a factura das aventuras financeiras da elite bancária islandesa no estrangeiro, que em Outubro de 2008 culminaram com a falência dos bancos, a ruína do Estado e a declaração de bancarrota na Islândia?
A crer nas sondagens dos últimos dias, a resposta dos islandeses vai ser novamente que a factura das dívidas da banca islandesa no estrangeiro deve ser paga não pelo povo, mas sim pelos executivos financeiros e bancários, que as contraíram em nome do país.
Uma sondagem publicada quinta-feira pela Capacent Gallup dava o "não" com 52 por cento, e outra pelo jornal Frettabladid com 54,8, diz a agência Bloomberg. A 6 de Abril, o canal 2 da televisão islandesa apontava para um resultado de 56,8 para o "não".
Em causa estão nomeadamente quatro mil milhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. Tratava-se de uma conta de poupança online, a Icesave, comercializada agressivamente no Reino Unido e na Holanda pelo banco Landsbanki - que foi o segundo maior da Islândia -, prometendo juros acima de seis por cento.
Os depósitos de estrangeiros foram reembolsados pelos respectivos governos - 3,9 mil milhões de euros -, que agora os querem cobrar a Reiquejavique. O acordo que poderá ser rejeitado permite escalonar o pagamento da dívida até 2045, com uma taxa de juro de 3,3 por cento ao Reino Unido e de três por cento no caso da Holanda. Uma parte será paga com a venda dos activos do Landsbanki, mas não se sabe ainda quanto será - embora os partidários do "não" defendam que deveria chegar para o reembolso.
Os governos da Holanda e da Inglaterra querem o dinheiro de volta, mas o eleitorado islandês insiste que estão a bater na porta errada.
Há um ano, um outro acordo, ainda menos favorável, tinha sido rejeitado com uma esmagadora maioria (93 por cento): previa uma taxa de juro de 5,5 por cento e o pagamento em 15 anos. Em 2010, tal como em 2011, o acordo foi enviado para referendo pelo Presidente da República, Ólafujr Ragnar Grímsson.
Se há uns anos o Presidente falava do "capitalismo viking" e de um punhado de jovens banqueiros "prontos para conquistar o mundo", agora, em entrevista ao El País, nota-se que o voto que vai este sábado depositar na urna não será garantidamente um "sim": "O fundamental é que a Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro, e que esta não é apenas uma crise económica, é uma crise política. Os governos não podem continuar a ser arrastados pelos mercados".