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Hamburgo/Alemanha: Repressão policial é um “desastre para o Estado de Direito”

Fundador da Associação Federal de Polícias Críticos acusa o governo alemão de restringir liberdades civis e de ser responsável pelas práticas da polícia de Hamburgo. Wüppesahl afirma ainda que as autoridades divulgaram informações falsas e estão a pressionar os médicos para não falarem sobre os feridos.
Foto de Rasande Tyskar

Desde sábado, o centro de Hamburgo está sob total controlo policial, dia em que foi decretado que três bairros são "zona de perigo" (Gefahrengebiet). Esta decisão foi justificada com alegados ataques a esquadras de polícia, que teriam provocado ferimentos em agentes (ler artigo Alemanha: centro de Hamburgo ocupado pela polícia).

Numa entrevista concedida ao taz.de, Thomas Wüppesahl, membro da Associação Federal de Polícias Críticos, lamentou a atuação da polícia de Hamburgo pela sua estratégia de dureza durante todo o processo. "Para a polícia é um desastre. Não tem sido capaz de manter a lei e a ordem, inclusive nas suas próprias fileiras", frisou.

O polícia reformado criticou ainda o Ministro do Interior alemão, Michael Neumann, que tem afirmado que o centro de Hamburgo "é uma zona de perigo e, portanto, existem leis para restringir, para além das liberdades civis". Também condenou as declarações de Peter Born, líder da equipa de polícias, que falou de 168 oficiais feridos mas não mencionou qualquer manifestante.

Polícia tinha uma missão clara

O fundador da Associação Federal de Polícias Críticos pronunciou-se sobre o ataque policial durante a manifestação de 21 de dezembro contra o despejo do centro cultural Rote Flora[i], a favor dos refugiados de Lampedusa[ii] e dos habitantes do Esso-Häuser[iii].

“Antes do espectáculo começar eu ouvi uma conversa entre dois comandantes de esquadra da Baixa Saxónia. A ordem para a missão era bastante clara. Eles não vão marchar. E para quem conhece as táticas policiais, viu o equipamento no local e sabe que metade das forças policiais disponíveis estavam no local de concentração, sabe que o caminho estava bloqueado. A manifestação nunca deveria ter lugar e a polícia sistematicamente tornou-a violenta”.

Autoridades divulgam informações falsas

Thomas Wüppesahl acusou as autoridades de Hamburgo de disseminaram deliberadamente informações falsas sobre os incidentes de 28 de dezembro. Em comunicado, a polícia afirmou que um grupo com trinta ou quarenta manifestantes atacaram, nesse dia, a Davidwache, a estação de polícia de St. Pauli, e golpearam um agente na cabeça.

“Algo como isto não acontece por acidente. Nenhum polícia é assim tão estúpido. Eles estão a fazê-lo porque querem pôr a cidade inteira em estado de alerta para gerar simpatia e, criando este ambiente, estabelecer novos factos. Eles esmeraram-se. Especialmente os mediamainstream, que fizeram um bom trabalho para a polícia”.

Segundo o ex polícia alemão de 58 anos, que foi deputado do Parlamento alemão de 1987 a 1990, eleito pelo partido Aliança’90/Os Verdes, os meios de comunicação também estão a contribuir para que os cidadãos apoiem a actuação da autoridade “contribuindo com dados incorrectos e falsas declarações".

Polícia de Hamburgo pressiona médicos para não falarem sobre os feridos

Wüppesahl falou com vários médicos que lhe confirmaram que as autoridades alemãs têm visitado os hospitais para pressionar os médicos a não prestar declarações sobre os feridos e sobre a sua percepção dos acontecimentos. O representante da Associação Federal de Polícias Críticos afirmou que as lesões dos manifestantes são consideravelmente mais graves que as da polícia e acusou o Ministro do Interior de estar por trás desta prática policial.

 



[i] Rote Flora: Em 1989, um velho teatro no bairro de Sternschanze em Hamburgo foi ocupado, e assim ficou desde então. Foi renomeado de Alte Flora (O Velho Flora) a Rote Flora (Flora Vermelho), e tem sido o centro da esquerda autónoma na cidade desde esse momento. Em 2001, o teatro foi vendido a um investidor sob a premissa de não ser despejado. Para encurtar a história: os tempos mudaram e 'O Flora' está outra vez (de novo, longa história) sendo ameaçado com um despejo. Informação retirada de http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/400-reportagens/44957-hamburgo,-que-est%C3%A1-a-suceder.html

[ii] O grupo "Lampedusa em Hamburgo" é um conjunto de mais de 300 refugiados, dos quais 70 estão a ser protegidos neste momento pela igreja em St. Pauli (a área no sul-oeste de Sternschanze). Sem reconhecimento legal, estas pessoas vivem com o medo da deportação. Em outubro de 2013 [o governo municipal] começou a procurar e deter pessoas de cor nos arredores de St. Pauli, a fim de averiguar os seus nomes e registá-las para uma possível deportação. Informação retirada de http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/400-reportagens/44957-hamburgo,-que-est%C3%A1-a-suceder.html

[iii] O Esso-Häuser é um conjunto de prédios no Reeperbahn, zona recreativa de Hamburgo no coração de St. Pauli, que foram deixados apodrecer pelos seus proprietários. A sua demolição estava marcada para Julho (2014), mas foram designados como inabitáveis e instáveis em Dezembro (2013) e, em consequência, foram evacuados justo antes do Natal, deixando cerca de 70 ocupantes (e também um legendário clube de música) temporariamente sem casa; os e as residentes foram postas em hotéis e receberão ofertas de andares alternativos. Informação retirada de http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/400-reportagens/44957-hamburgo,-que-est%C3%A1-a-suceder.html

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