As gigantes do petróleo anunciam nova era de energia barata

12 de agosto 2012 - 0:07

Em 2011, os investimentos em energia solar, eólica, geomassa, biomassa, somaram 260 mil milhões no mundo, mas agora o instinto de rebanho está a direcionar para o gás de xisto. Nada de investir em energias limpas, renováveis, o negócio é o gás de xisto. Por Najar Tubino.

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“Nada de investir em energias limpas, renováveis, o negócio é o gás de xisto” - Foto de Nicolas Sawicki/Flickr

O golpe é o mesmo, as petrolíferas estendendo a vida do combustível fóssil, no momento em que o mundo discute as suas sustentabilidades. Nada de investir em energias limpas, renováveis, o negócio é o gás de xisto. Ferve água, mistura areia e um coquetel de químicos e injeta abaixo do lençol freático. Lá estará o combustível, a módicos 55 a 65 dólares o barril de 158 litros. Nem perto dos seis dólares que custava a extração de um barril no Mar do Norte, uma das últimas descobertas da indústria, e que foi dividido entre a Noruega e a Grã-Bretanha.

O coquetel químico é segredo comercial diz a indústria. Mas um documentário circula na internet há mais de ano, contando as peripécias da extração do gás de xisto. Desde a água misturada com metano, até a explosão de casas de banho, de casas, ou do fogo saindo das torneiras, sem contar a contaminação por metais pesados e o alto índice de sais na água que precisa jorrar para trazer o combustível.

A indústria chama a técnica de fratura hidráulica, mas de extração horizontal, envolvendo grandes áreas. No Texas, que continua a expandir a sua fama petrolífera, na localidade de Barnett Shale, entre os anos 2004-2010, o número de poços pulou de 400 para 10 mil. Nos Estados Unidos, são 22 mil poços em atividade. O Dakota do Norte é outro estado explorador. Os americanos contabilizam 465 mil milhões de dólares em impostos até 2015. O Financial Times, do grupo de um pioneiro na exploração do petróleo da família Pearson, anuncia:

“Com a exploração de fontes não convencionais de petróleo acabou a expectativa de que os recursos estavam a diminuir. O gás de xisto poderá dominar a geração de energia no mundo.”

Em 2011, os investimentos em energia solar, eólica, geomassa, biomassa, somaram 260 mil milhões de dólares no mundo, mas agora o instinto de rebanho, como diz um analista da Bloomberg New Energy Finance, está a direcionar para o gás de xisto: “o rebanho está enorme e no momento começa a dirigir-se de maneira impensada para o gás de xisto”. O rebanho são fundos de pensões, hedge funds, private equity funds e outros tantos investidores e especuladores.

No ano passado a Royal Dutch Shell, conglomerado anglo-holandês voltou a ocupar a primeira posição no ranking das 500 maiores empresas do mundo, à frente da Walmart. Cresceu 28,1%, e faturou 484 mil milhões de dólares, com um lucro líquido de 30,9 mil milhões de dólares, um aumento de 53,6%, na comparação com 2010. No segundo lugar ficou a Exxon Mobil, que teve um lucro de 41 mil milhões de dólares e um crescimento de 35%. É a crise financeira, um grande estimulante para as petrolíferas. A economia mundial entra em recessão, mas a bolsa vende commodities futuras, e os preços disparam. O petróleo não baixa dos 100 dólares o barril, ou algo parecido.

A última invenção que está a ser testada nas areias de piche de Alberta (província do Canadá) são enormes antenas infiltradas até ao fundo do poço para irradiar calor e soltar o betume, um petróleo pesado e viscoso, que envolve uma soma bilionária de toneladas – mais de 1 bilião de barris. Dizem os especialistas que em Alberta existem mais de 400 mil milhões de barris para serem recuperados. Os chineses querem tecnologia, porque também possuem imensas jazidas de xisto. O porta-voz financeiro americano, o periódico The Wall Street Journal propriedade de Rupert Murdoch, anuncia que “os chineses vêm procurando adquirir tecnologia de gás de xisto na esperança de reproduzir a revolução que pôs os Estados Unidos numa nova era de energia barata”.

Os americanos ainda compram mais de metade do petróleo que consomem, cerca de 56%, sendo que 22% são oriundos do Canadá, 12% do México e 22% do Iraque. O Partido Republicano tem entre as suas metas na campanha presidencial liderada pelo mórmon Mitt Romney, construir um oleoduto de Alberta até ao Golfo do México, onde estão as refinarias. A outra meta é reduzir o preço da gasolina para 2,50 dólares o galão (3,78 litros), que agora custa mais de quatro dólares em alguns estados. Os americanos pagaram cerca de 1,50 dólares o galão até ao ano 2000. Somente a partir daí o petróleo e a gasolina começaram a aumentar.

No auge do neoliberalismo, final dos anos 1990, eles encontraram uma nova paixão: os utilitários desportivos, conhecidos mundialmente pela sigla SUV. No ano passado ainda compraram quatro milhões. Os chineses seguem a trilha, compraram dois milhões. E os brasileiros 256 mil. As empresas de montagem de automóveis estão um tanto quanto desencantadas com o Brasil, porque pretendiam vender cinco milhões de carros, nos próximos três anos – média anual. O que representaria um aumento de 40%, tendo como base o último ano. De 1996 para cá, a frota brasileira dobrou de 17 milhões para pouco mais de 34 milhões de automóveis. A média de carro por habitante diminuiu de 9 para 5,5. Ainda estamos muito longe do 1,2 da média americana e 1,7 da média japonesa. A Agência Internacional de Energia prevê uma frota mundial de 1.700 milhões de carros até 2035.

O aquecimento global, como insistem os americanos, não existe. A mudança climática provocada pela influência da civilização ocidental e o seu modelo predador, também não existe. O que existe é a ânsia dos consumidores pelo petróleo e os seus derivados, que garantem o conforto nos lares, nos povos, a mobilidade, o lazer, a tranquilidade e a paz social. Mesmo que para isso tenhamos que invadir o Irão, o nosso grande aliado até a década de 1970, quando também era o nosso maior comprador de armas. Que saudade do Xá Reza Pavlesi, o nosso grande aliado durante mais de 30 anos, suspiram os analistas norte-americanos.

Artigo de Najar Tubino, jornalista, publicado por Carta Maior