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França: Abstenção recorde dá maioria ao partido de Macron

Na menos participada primeira volta das legislativas desde 1958, as projeções dão maioria absoluta à “República em Marcha”. À esquerda, o PS pode perder mais de 200 deputados e Mélenchon diz que o resultado cria uma situação política “totalmente instável”.
Emmanuel Macron
Emmanuel Macron à saída da mesa de voto em Le Touquet, no norte de França. Foto Christophe Petit Tesson/EPA

As projeções divulgadas ao início da noite são unânimes em dar a maioria absoluta ao partido do presidente Macron, com 32% dos votos, o que lhe permitiria alcançar mais de 400 dos 577 lugares no parlamento. Seguem-se os Republicanos com 22%, a Frente Nacional com 14%, a França Insubmissa com 11%, o PS com 10% e os Verdes e o PCF com 3%.

O primeiro-ministro Édouard Phillipe veio felicitar-se pelo resultado alcançado pela República em Marcha. Afirmando que “a França está de volta”, reconheceu a “desmobilização de um eleitorado para quem as presidenciais fecharam o debate” político que dura há um ano, atribuindo responsabilidades aos partidos “que não encontraram um segundo fôlego” após a derrota dos seus candidatos nas presidenciais. “No próximo domingo, a Assembleia nacional irá encarnar a nova cara da nossa República”, concluiu o primeiro-ministro francês.

Do lado dos derrotados à direita, na sede dos Republicanos o fraco resultado foi atribuído à abstenção “que demonstrou as fraturas na sociedade francesa já expressas na primeira volta das presidenciais” François Baroin afirmou que para a segunda volta o seu partido terá de pôr a tónica nas diferenças que o separam da República em Marcha. A líder da Frente Nacional também destacou “a taxa de abstenção catastrófica que nos devia fazer questionar as regras eleitorais que afastam milhões de compatriotas das urnas de voto”. Marine Le Pen, que definiu como objetivo tornar a FN na principal força da oposição no parlamento, vê agora as projeções indicarem entre 1 a 5 eleitos do seu partido.   

Quanto ao Partido Socialista, a queda eleitoral já prevista deverá confirmar os efeitos devastadores na presença parlamentar, com o partido a passar de 279 deputados para entre 20 a 35 eleitos, segundo as projeções. O candidato presidencial Benoît Hamon e o primeiro secretário Jean Christophe Cambadélis foram dois dos candidatos afastados da segunda volta, que se disputa no próximo domingo. Cambadélis reagiu ao resultado, classificando-o como “um recuo sem precedentes da esquerda e do PS” e alertou para a abstenção em torno dos 51%, “um nível histórico que demonstra um cansaço democrático”.

Mélenchon: "Não há uma maioria neste país para destruir o Código do Trabalho ou reduzir as liberdades públicas"

Mais à esquerda, o ex-candidato presidencial e líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon, disse que o resultado e a abstenção trazem “uma situação política totalmente instável”. “O crescimento da abstenção mostra que não há uma maioria neste país para destruir o Código do Trabalho, reduzir as liberdades públicas, nem para a irresponsabilidade ecológica ou para mimar os ricos, tudo coisas que constam no programa do partido do Presidente”, afirmou Mélenchon.

“Mas o país não acreditou que é possível fazer outra coisa, de modo diferente. Cabe-nos a nós convencê-los daqui para a frente”, prosseguiu, registando que “a França Insubmissa viu confirmada a sua força e vê os seus candidatos presentes na segunda volta de dezenas de circunscrições”. Em seguida, Mélenchon apelou “aos meios populares e à juventude, que se mobilizaram menos do que nas presidenciais: não permitam que sejam dados plenos poderes ao partido do Presidente. É em torno dos deputados da França Insubmissa que se irá constituir a oposição ecológica e social de que o nosso país precisa”.

“Amanhã, a França não pode ser esta maioria de circunstância que cresceu como cogumelos após a chuva e alguns raios de sol, num universo abandonado pelo civismo, e pelos eleitores e eleitoras”, prosseguiu Mélenchon, dirigindo-se em seguida aos seus eleitores nos círculos sem candidatos da França Insubmissa na segunda volta com um apelo para o próximo domingo: “Nunca permitam a eleição de um deputado da Frente Nacional”.

 

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