"Escrevo hoje para dar sequência à decisão democrática dos cidadãos do Reino Unido", pode ler-se na carta entregue hoje pelo embaixador do Reino Unido ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk.
A carta define alguns princípios que deverão orientar o processo que se calcula estar terminado apenas em março de 2019. Uma nota clara na construção da carta é a proximidade estratégica que o Reino Unido pretende manter com a União Europeia, algo que Theresa May no seu discurso hoje no parlamento britânico em Westminster reforçou repetidamente: "O nosso voto de sair da União Europeia não foi uma rejeição dos valores europeus"; ou ainda que "Numa altura em que instintos protecionistas aumentam um pouco por toda a parte, a União Europeia tem uma responsabilidade em manter a liberdade de comércio que nos define."
Estas declarações foram acompanhadas de reações críticas das bancadas da oposição, no que alguns deputados consideraram ser uma contradição óbvia com o momento político.
No entanto, Angela Merkel assumiu o mesmo tom de Theresa May, considerando em reação oficial que "o Reino Unido e a União Europeia partilham valores comuns".
"É no melhor interesse tanto do Reino Unido como da União Europeia que usemos este processo para atingir estes objetivos de forma justa e ordeira, e com menos disrupção possível de cada lado."
Na carta, o Reino Unido define que irão revert a lei de 1972 que aprovou a entrada na União Europeia - o European Communities Act - incorporando em simultâneo, e onde se justificar, a legislação europeia no corpo legislativo do próprio Reino Unido.
Apresentarão também novas leis para acomodar o processo de saída da UE em alguns assuntos. Garante também que "continuaremos a cumprir com as nossas responsabilidades como um estado-membro" da União Europeia, sendo que apenas após a saída entrará em vigor a nova legislação.
O Reino Unido pretende manter uma parceria "económica e de defesa", em termos a definir no futuro. No entanto, "se saírmos da União Europeia sem um acordo de parceria a posição que assumiremos é que os critérios da Organização Mundial do Comércio será a base das relações económicas" entre as duas partes. No que respeita à defesa, a incapacidade de chegar a um acordo "significaria que a cooperação na luta contra o crime e o terrorismo sairia enfraquecida." Um cenário que pretendem "evitar".
Em concreto, os sete princípios do Brexit são essencialmente diplomáticos: 1) "devemos relacionarmo-nos de forma construtiva e respeituosa, num espírito de cooperação sincera"; 2) "devemos sempre colocar os nossos cidadãos em primeiro lugar"; 3) "devemos trabalhar para assegurar um acordo robusto"; 4)"devemos minimizar fricções e garantir a maior robustez possível; 5)"devemos dar particular atenção à relação especial entre o Reino Unido e a República da Irlanda no que respeita ao processo de paz na Irlanda do Norte; 6)"devemos dar início a negociações técnicas em áreas específicas o mais rapidamente possível; 7) "devemos continuar a trabalhar para proteger os nossos valores europeus comuns".
O governo irlandês reagiu ao anúncio formal do Brexit dizendo que as negociações devem ter como objetivo "minimizar o impacto na nossa economia; proteger o processo de paz da Irlanda do Norte, mantendo a fronteira aberta; e continuando como zona comum do Reino Unido, trabalhando para um futuro positivo da União Europeu".
Por seu lado, numa visita à Indonésia, o Presidente francês François Hollande declarou que o Brexit "será doloroso para os britânicos e irá forçar a Europa a avançar, sem dúvida a diferentes velocidades".
Manfred Weber, líder do PPE, grupo da direita no parlamentar europeu, considera que "temos de ter uma posição muito dura em relação ao Brexit". Uma posição crítica partilhada por Sigmar Gabriela, do SPD alemão (congénere do Partido Socialista português), que é difícil perceber como pode alguém pensar que está melhor sozinho".
Angela Merkel considerou que a União Europeia terá de ter uma postura "justa", bem como o Reino Unido.