Bloco marca Convenção e defende produtores contra a "ditadura da grande distribuição"

05 de maio 2012 - 19:11

No final da reunião da Mesa Nacional do Bloco que marcou a VIII Convenção Nacional para 10 e 11 de novembro, Francisco Louçã desafiou o dono do grupo Jerónimo Martins a fazer descontos de 50% nos 365 dias do ano naqueles produtos em que o Pingo Doce "tem margens de lucro de 80 e 75 por cento". O Bloco voltará a propor uma lei "para fixar margens, regras e contratos entre os distribuidores e produtores e para proteger produtos essenciais".

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Imagem da VII Convenção do Bloco, em maio de 2011. Foto Paulete Matos

"Quero deixar um desafio ao senhor Soares dos Santos: se ele quer ser levado a sério pelas pessoas que sabem quanto lhes custa pagar aquilo que é essencial para a alimentação dos seus filhos e dos seus, pois então que faça um desconto de 50 por cento em todos aqueles produtos em que já sabemos que ele tem margens de lucro de 80 ou de 75 por cento", disse o coordenador bloquista, citado pela agência Lusa.



"Tem de deixar de existir esta ditadura da grande distribuição", acrescentou Louçã, adiantando que o Bloco irá fazer regressar a São Bento a proposta para fixar as regras dos contratos entre distribuidores e produtores. "Deve haver contratos escritos entre os produtores e distribuidores, esses contratos devem ter prazos, margens, cláusulas definidas, devem ser públicos, porque não pode ser um contrato onde a distribuidora ganha e os produtores obedecem, em que uns ganham e outros não recebem", defendeu Louçã. Para os bloquistas, desta forma conseguir-se-ia também "garantir ao consumidor o melhor acesso possível aos produtos da melhor qualidade, aos preços mais justos e mais sérios para todos".



No Parlamento, o Bloco quer encontrar uma maioria que apoie esta proposta. Louçã diz que já ouviu dois membros do Governo dizerem coisas contrárias. "Ouvi o ministro da Economia dizer que bom que é e que está tão feliz, portanto a Jerónimo Martins que faça o que lhe apetecer, e ouvi uma ministra depois dizer que é bom pensar nos produtores, não ouvi o primeiro-ministro dizer nada a não ser que não tinha nada que ver com o assunto, mas a proposta que o BE quer apresentar dirige-se a todos", concluiu o deputado do Bloco.



A reunião da direção bloquista centrou a discussão política na resolução em debate sobre o atual momento de crise social que se vive no país e nos riscos agravados de derrapagem na economia europeia este ano. Ao aumento do desemprego em Portugal e o autoritarismo social e político do Governo PSD/CDS, o Bloco continua a propor uma ruptura com o rumo de austeridade da troika, destacando a luta por um Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito, agora atacada com a ameaça de encerramento da Maternidade Alfredo da Costa.



Outra proposta destacada na resolução aprovada é a da proteção das famílias endividadas no crédito à habitação. O Bloco regista que a jurisprudência deu razão à sua proposta, com a recente sentença do Tribunal de Portalegre que transitou em julgado e permite a anulação da dívida quando a casa é entregue ao banco. O Bloco quer ver também garantida uma moratória do pagamento ou a anulação da dívida quando a família devedora está no desemprego. O Bloco insiste ainda no cancelamento da dívida ilegítima e a renegociação da dívida detida pelo Banco Central Europeu, lembrando que uma queda de apenas 1% no juro cobrado poupava ao país o equivalente da despesa total com a Saúde.  



Esta reunião da Mesa Nacional serviu também para convocar a próxima Convenção do Bloco de Esquerda, que terá lugar em Lisboa nos dias 10 e 11 de novembro de 2012. A reunião começou com uma evocação do eurodeputado e fundador do Bloco de Esquerda, Miguel Portas. "Fomos confrontados com a tragédia do seu desaparecimento e cumpriu-se um minuto de silêncio”, afirmou aos jornalistas o coordenador bloquista no final da reunião. Na resolução política aprovada por unanimidade, o Bloco agradece a todos os que enviaram mensagens de condolências ou se juntaram às iniciativas públicas dos últimos dias. "Todos esses testemunhos manifestaram a apreciação pelo seu fulgor e dedicação às suas causas, que foram o sentido da vida do Miguel: Democracia intensa e cidadania. O Bloco de Esquerda será fiel à sua vida e à sua memória”, refere ainda o documento aprovado.