Blockupy - abalando o centro da Europa

19 de março 2015 - 17:36

Os protestos desta quarta-feira na Alemanha representam um novo toque a reunir da esquerda social na Europa. Reportagem de João Camargo e Catarina Príncipe.

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Foto Blockupy Europe

A tumultuosa manhã deixou Frankfurt paralisada e opôs 7 mil activistas de toda a Europa a 10 mil policias alemães, com a organização do Blockupy a preparar cinco dedos de uma mão para cercar o acesso ao Banco Central Europeu. Apesar do bloqueio não ter sido efetivo, pôs grandes dificuldades no bairro onde o BCE instalou a sua nova sede de 1,4 mil milhões de euros. As diversas estratégias de cada um dos blocos organizados para bloquear os cinco pontos de acesso ao BCE, assim como o grande número de pessoas envolvidas em cada um dos piquetes móveis, deixaram muitas vezes a polícia surpreendida e incapaz de travar os activistas.

A detenção de 300 activistas italianos ao final da manhã revelou apenas a frustração da polícia com o bloco a que os mesmos pertenciam. Desde as seis da manhã que este bloco iludiu a polícia num jogo de gato e rato, avançando e recuando muito velozmente por entre avenidas, ruas apertadas, linhas de comboio, jardins e praças.

O recurso a canhões de água e gás lacrimogéneo foi relativamente moderado, mas a quantidade de policias destacados surpreendente: 10 mil polícias dispostos em várias barreiras para proteger a sede do banco, que também tem um fosso e vários obstáculos aramados e outros, o que dá uma bela imagem da Europa fortaleza em construção pela ordem capitalista mais radical. Os pequenos grupos que incendiaram carros e caixotes do lixo, não participantes da coligação Blockupy, aumentaram ainda mais o caos na manhã. A detenção de 300 activistas italianos ao final da manhã revelou apenas a frustração da polícia com o bloco a que os mesmos pertenciam. Desde as seis da manhã que este bloco iludiu a polícia num jogo de gato e rato, avançando e recuando muito velozmente por entre avenidas, ruas apertadas, linhas de comboio, jardins e praças. Finda a manhã, milhares de manifestantes comiam e descansavam nas três instalações preparadas pela organização do Blockupy em diferentes lugares da cidade.

Solidariedade com a Grécia presente nas intervenções na Praça Römer

Às 14h na Praça Römer começaram as intervenções de algumas dezenas de activistas, dando o claro enquadramento político do protesto. As duas mensagens principais, que já estavam presentes na convocatória do protesto, foram claras: 

– o BCE, elemento da Troika, é hoje um órgão político, mandatado pela finança e pela direita que a apoia para continuar a impor as políticas de austeridade, precariedade e exploração para os povos europeus, destruindo as características mais sociais e solidárias da Europa e viabilizando a continua e a crescente acumulação de riqueza na banca, especialmente alemã, francesa e holandesa;

– a vitória eleitoral do governo Syriza representa a única esperança até ao momento  de salvar uma Europa Social viável, pelo que o governo e o povo receberam palavras de solidariedade e apoio de todos os intervenientes. Uma deputada do Die Linke, Sahra Wagenknecht, destacou a necessidade da Alemanha pagar à Grécia as reparações pela ocupação durante a II Guerra Mundial, como reclamado pelo governo de Tsipras.
São de destacar as intervenções de colectivos italianos que pertencem ao Blockupy, que no 144º aniversário da Comuna de Paris anunciaram a sua ideia da Comuna da Europa, além da ideia em que vêm insistindo há vários meses, da Greve Social. Além de movimentos de trabalhadores precários, mulheres e migrantes, como a Connessione Precaria, a Camera de Lavoro Autonomo e Precario e a Dinamo Press, as centrais sindicais italianas FIOM, CGIL e COBAS estavam presentes.

É ainda relevante destacar que de entre todas as intervenções, não houve qualquer alusão à questão do euro, o que dá um sinal do nível em que este debate está a ser feito no Centro da Europa: a sua expressão é muito marginal.

As intervenções antes da manifestação terminaram com o discurso da jornalista e escritora Naomi Klein, autora de "A terapia de Choque" e "Isto muda tudo, Capitalismo vs Clima". Esta activista estadunidense atacou violentamente o BCE pelas políticas anti-sociais da austeridade mas também pelo grave impacto ambiental das mesmas, nomeadamente nas políticas de combate às alterações climáticas "a austeridade e o combate às alterações climáticas não são compatíveis". Acusando o BCE e a finança europeia de estarem atrelados ao carvão e ao petróleo, criticou ainda as privatizações dos transportes e energia nos países no Sul da Europa, assim como a tentativa de privatizar a água. Ainda respondendo à impressionável imprensa alemã, terminou a intervenção afirmando que o BCE não queima carros, mas está a queimar o planeta.
É ainda relevante destacar que de entre todas as intervenções, não houve qualquer alusão à questão do euro, o que dá um sinal do nível em que este debate está a ser feito no Centro da Europa: a sua expressão é muito marginal.

Presença de 30 mil pessoas na manifestação confirma adesão popular ao protesto

A manifestação, encabeçada por colectivos feministas e pelo bloco internacional reuniu cerca de 30 mil pessoas, o que é expressão da adesão popular ao protesto. Terminou na praça Oper Platz. Não houve quaisquer problemas durante todo o percurso, permanentemente acompanhado pelo gigante contingente policial.

Se a imprensa internacional destacou a oposição dos manifestantes ao BCE e à austeridade, embora falando da violência contra seis carros e vários caixotes de lixo, a imprensa alemã conseguiu basicamente não falar das questões políticas do protesto. A própria violência ocorrida mostra como a crise chega, paulatina mas solidamente, ao coração da Europa financeira, que se mostra hipocritamente surpreendida com os resultados da política da crueldade e da destruição.

O sinal dado por este protesto é importante. Muitos dos presentes compararam-no favoravelmente em relação ao já longínquo 1 de Junho "Povos Unidos Contra a Troika", tendo havido ganhos de coordenação, com mais gente e organizações envolvidas. O impacto mediático foi grande, embora nem sempre pelos motivos mais importantes, mas a presença de activistas de tantas cidades alemãs, de tantos países europeus e outros, de tantas organizações, movimentos, sindicatos, partidos, é um sinal de esperança para a esquerda internacionalista. A contestação a instituições de carácter internacional como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial de Comércio e hoje o Banco Central Europeu é um campo que junta milhões para lutas que atacam as estruturas políticas e organizacionais do capitalismo. O reforço de contactos a nível internacional, europeu no mínimo, é o necessário para entrar na disputa da hegemonia, do poder e do relançamento da luta de classes no palco político onde neste momento se encontra a maior fatia da decisão real: no espaço supra-nacional.