25 de Abril e os nossos tempos, por Ana Luísa Amaral

25 de abril 2012 - 17:19

Um poema de Ana Luísa Amaral sobre o 25 de Abril, à memória de Miguel Portas.

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Miguel Portas - Foto de Paulete Matos

À memória de Miguel Portas,

25 de Abril de 2012



 

 

 

 

 

 

Tão novo de morrer,

quase morrido

Tem vindo a ser matado

por sorrisos e cega obediência,

por sustos assustados,

ou simplesmente por não ser presente

e ter sido esquecido

na cave desta casa

Nela nasceu erguido

entre o mais desatado e o mais belo de ser:

tanques e cravos, e casos curiosos raso a mitos,

e sérios casos de paixão a sério,

e também carne e vida,

o que de mais importa neste mundo

Repousar é de morto, e ele terá morrido:

sem exéquias sequer,

só de mentira,

está o seu corpo muito lá em baixo,

como se fosse um peso que já não:

Nem mesmo incomodar

os números que voam, desatados,

os bárbaros que uivando sobrevoam

o telhado da casa

e nele pousam, cruéis e confortáveis,

repousam dos seus rumos de conquista

Tão novo de morrer,

morrido quase

Quem as exéquias suas?

Não há mural que o ressuscite aqui?

Ou chamamento novo que o congregue

de novo e em colisão

nestas janelas?

Dos que ao seu lado viveram lado a lado,

desses o susto bom de ele nascer,

e a desobediência ao erro e ao dobrado

Dos que depois nasceram:

a memória,

talvez da sua mão, ou mãe: memória,

o que de mais importa neste mundo

Que esses possam dizer que não,

que ainda vive,

que é novo de morrer e ainda vive,

e que o seu funeral: coisa sem rumo

Mesmo que chova hoje, como chove,

e as nuvens se perfilem junto aos uivos,

mesmo assim pressenti-lo

Teimar que é impossível

morrer assim tão novo

Saber

que isto não pode ser assim

                                 Ana Luísa Amaral