“Pós-troika é a troika com mais e mais forte austeridade”

01 de março 2014 - 5:49
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No 15º aniversário do Bloco de Esquerda, Catarina Martins defendeu a renegociação da dívida e a rejeição do tratado orçamental, lembrou como o partido ajudou a mudar o país nestes 15 anos e afirmou que o Bloco é “uma Esquerda exigente, uma Esquerda de confiança, uma Esquerda combativa que junta forças”. No ato comemorativo intervieram também Marisa Matias, Luís Fazenda e Tiago Pinheiro.

 

O Bloco de Esquerda comemorou os seus 15 anos num jantar realizado em Lisboa. Na iniciativa, a coordenadora do Bloco começou por lembrar como Portugal mudou nos últimos 15 anos e como o Bloco ajudou a mudar o país.

“Há 15 anos em Portugal prendiam-se toxicodependentes pela única razão de o serem. Punia-se a doença com prisão. Hoje, ninguém imagina que isso seja possível e no parlamento debate-se a legalização das drogas leves. Há debate, um debate da modernidade”, salientou Catarina Martins.

“Quem diria que o país dos anos 90 é o mesmo país em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo se tornou tão banal como outro casamento qualquer”, recordou a deputada salientando que “o país que o Bloco de Esquerda, quando foi formado, apostou em mudar prendia mulheres por decidirem sobre o seu corpo”.

A coordenadora do Bloco sublinhou então que o primeiro projeto de lei que o partido apresentou no parlamento, “e seguramente a lei de que mais nos orgulhamos hoje … foi a violência doméstica como crime público”.

E frisou que “num país em que entre marido e mulher não se mete a colher, o Bloco de Esquerda abanou e mudou o país”, lembrando ainda que “a violência doméstica já é crime público” e que o partido irá “agora à luta para que a violação seja também crime público”. “Percorremos muito caminho e temos muito caminho para percorrer. Estamos cá para isso”, destacou a coordenadora bloquista que realçou ainda: “Não viemos para fazer sala, viemos mesmo para mudar isto. Como dizia o Miguel Portas, mudamos isto em nome dos debaixo”.

 

Concentrando depois a sua intervenção na situação política atual, a coordenadora do Bloco afirmou: “Tudo o que foi dito que era transitório afinal, por vontade deste governo, é para ficar!” Lembrou então o caso das pensões em que o complemento especial solidário (CES) era transitório e, agora, “no orçamento retificativo não só se reafirma a continuidade do CES como se alarga a rendimentos mais baixos e agrava para todas e todos os pensionistas”. Criticando o Presidente da República por não ter recorrido ao Tribunal Constitucional, salientou que o Bloco não deixará de o fazer.

“Hoje mesmo, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque vieram anunciar mais austeridade, que o programa da troika que acabava em maio deste ano afinal exige novas medidas de austeridade”, disse então Catarina Martins e afirmou: “O pós-troika é a troika, se alguém acreditou na propaganda eleitoral das últimas semanas saiba que foi o próprio governo que acabou de a desmentir. A austeridade será mais e é mais forte”.

Denunciando que “três anos de intervenção da troika” resultam num “rasto de destruição do Estado Social, dos direitos que fazem a democracia e alicerçam as liberdades”, que “o país produz menos do que há uma década e perde população ativa a cada dia”, que “a dívida pública cresce continuamente e os juros são mais altos do que antes da crise financeira”, a coordenadora do Bloco afirmou que é preciso juntar forças para a renegociação da dívida, para rejeitar o tratado orçamental, para resgatar a democracia, “em nome da dignidade e da recusa da precariedade”.

A concluir, Catarina Martins lembrou “tantos muros que eram há 15 anos”, salientou que “ganhámos sempre que as lutas se cruzavam” e afirmou que o Bloco é “Esquerda exigente como sempre. Esquerda de confiança. Uma esquerda combativa que junta forças”.

 

Relógio de Paulo Portas terá que ter dois fusos horários: um para o país real e outro para a campanha europeia”

Na sua intervenção, Marisa Matias lembrou que o Bloco desde que nasceu se definiu como “Esquerda popular, plural, combativa, influente, que seja capaz de reconstruir a esperança” e afirmou: “Mantemo-nos completamente fiéis ao projeto inicial”. A eurodeputada salientou também que “o Bloco tem demonstrado ao longo da sua existência capacidade de se abrir ao diálogo” e considerou que “é possível criar novos patamares de entendimento”.

Abordando as eleições europeias, Marisa Matias afirmou que os “últimos quatro anos foram os da capitulação perante os mercados financeiros”, sublinhando que “o pretexto foi a consolidação orçamental, uma cortina de fumo para uma política que gerou desemprego, precariedade e pobreza”.

Considerou também que o objetivo é “um projeto extremista de sociedade assente na desvalorização dos direitos do trabalho”.

“Soubemos hoje outra coisa: A data de fecho do programa de ajustamento da troika em Portugal não é uma, são duas. 17 de maio antes das eleições para o fecho do programa político e teremos 30 de junho, depois das eleições, para o fecho do programa técnico. Antes das eleições o governo atira os foguetes depois das eleições vem ter com os portugueses para apanhar as canas” denunciou depois Marisa Matias.

A eurodeputada afirmou então: “A próxima versão do relógio de Paulo Portas terá que ter pelo menos dois fusos horários: um para o país real e outro para a campanha europeia”.

Marisa Matias afirmou também que “o fim do ajustamento só acontecerá se houver capacidade para derrotar o plano de ajustamento”. Considerando que “o tratado orçamental é a troika depois da troika”, a eurodeputada afirmou: “ Não podemos permitir que a austeridade tenha vindo para ficar e durar com ou sem programa político da troika, com ou sem programa técnico da troika”.

Marisa Matias disse ainda que “a aceitação do tratado orçamental é a aceitação da austeridade sem fim e a aceitação de que o Estado Social deve ser mínimo ou inexistente” e afirmou:

“A escolha nas próximas eleições europeias é muito simples é uma escolha entre duas políticas a política da austeridade ou a política do emprego, cumprir o memorando ou cumprir a Constituição, defender o tratado orçamental ou defender o país”.

A concluir, a eurodeputada bloquista sintetizou: “se as ordens que vêm de Bruxelas são incompatíveis com o desenvolvimento do nosso país, dos direitos de quem aqui trabalha, de quem aqui trabalhou uma vida inteira, de quem aqui perdeu o emprego, de quem aqui teve que emigrar, de quem aqui vive e quer continuar a viver então defender o nosso país é desobedecer a esta Europa da austeridade é dizer que queremos o nosso país nas nossas mãos”.

 

O Bloco de Esquerda nasceu contra o rotativismo ao centro”

Luís Fazenda começou por afirmar: “Há 15 anos iniciávamos esta aventura. Fizemos bem, fizemos muito bem”.

Considerando que o documento fundador do Bloco “Começar de novo” era uma enorme discussão acerca do socialismo, Luís Fazenda afirmou “estávamos numa encruzilhada, porque tinha havido equívocos grosseiros acerca do socialismo e caricaturas de regimes socialistas e dessa encruzilhada, depois do colapso da União Soviética, dos regimes de leste, todos nós tivemos que fazer uma espécie de salto em frente, não só para confirmar a atualidade dessa mensagem, mas para a conformar com os novos dados do desenvolvimento histórico”.

“O socialismo prevaleceu, sabendo que temos de ser socialistas de tipo novo que compreendam a democracia” disse o deputado bloquista, sublinhando que “a democracia tem um valor em si própria e que deve ser respeitado em quaisquer circunstâncias”, que “os direitos individuais têm um valor em si próprios, que devem ser respeitados em quaisquer circunstâncias”.

Luís Fazenda abordou depois o debate acerca da situação política no nascimento do Bloco e afirmou: “juntámo-nos numa perspetiva de cortar com o centrão, com o que chamámos rotativismo ao centro, que era uma espécie de fadiga do regime democrático, que foi absorvendo a perda de direitos e o afastamento no concreto e em todas as circunstâncias dos ideais do 25 de Abril”. “Contra esse rotativismo ao centro nasceu também o Bloco de Esquerda, como alternativa”, frisou, lembrando que “lutámos para ficar na primeira fila e fizemos a escolha de ficar na ponta esquerda do parlamento”.

Luís Fazenda afirmou ainda que “ficou também uma vontade plural” e salientou: “Unidades vingam quando resultam de uma pluralidade, a pluralidade não é meramente uma democraticidade, é a capacidade de representação das várias cores da esquerda que o Bloco é, foi e será”.

“O Bloco de Esquerda mudou o mapa político em Portugal e o mapa da esquerda. Temos de mudar o mapa do país, mudar numa perspetiva socialista”, afirmou a concluir Luís Fazenda.

 

Uma ferramenta de esperança”

A primeira intervenção da comemoração dos 15 anos do Bloco coube a Tiago Pinheiro, enfermeiro da Saúde 24, que afirmou que o “Bloco trouxe às pessoas uma ferramenta que desaprendemos de utilizar que é a esperança. Será eventualmente a ferramenta que mais nos falta neste momento”.

Salientando que “ fomos despedidos, humilhados, mas recusámos vender a nossa dignidade e a nossas honra”, Tiago Pinheiro afirmou “Tivemos esperança na nossa razão. É um caminho difícil. Sem a esperança do Bloco não tínhamos chegado aqui” e frisou que “o Bloco nunca será pequeno para nos dar esperança”.