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Boaventura de Sousa Santos estava numa reunião de trabalho em Quito, capital do Equador, quando recebeu um telefonema a avisá-lo: “Parece que está a haver um golpe de Estado”. Correu para a televisão, e soube que o presidente Rafael Correa já estava sequestrado. “Tinha-se dirigido ao regimento da polícia para tentar convencer os sublevados a desistir, e acabou por ficar lá. Foi ferido pelos polícias, teve de ser transportado ao hospital, e o hospital mais próximo era o da polícia”, recorda o sociólogo.
“Os polícias disseram a Rafael Correa que só o deixavam sair se a lei do Serviço Público, que eles contestavam, fosse revogada. Ele disse que a lei fora aprovada pela Assembleia e ele não a podia revogar. De maneira que só saía dali como presidente digno, ou como cadáver. Foi assim, desta forma dramática, que ele respondeu”, relata Boaventura de Sousa Santos.
O sociólogo português, que está em Quito no âmbito das suas investigações sobre as nações e os povos indígenas, dirigiu-se rapidamente à sede da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) para juntar-se aos seus dirigentes e discutir o que fazer. “As relações entre o presidente e os indígenas têm estado muito tensas”, explica Boaventura de Sousa Santos, “porque as leis sobre os recursos naturais têm sido aprovadas sem qualquer consulta prévia aos indígenas e sem o seu apoio”. Para piorar, o crescimento dos protestos – num dos quais houve confrontos e um indígena morreu – levou a que o governo abrisse uma investigação e acusasse a CONAIE de “terrorismo”.
Repúdio ao golpe
Apesar desta tensão, explica o sociólogo, “os indígenas sabem que os golpes de militares são sempre de direita, nunca favorecem a causa indígena. E por isso repudiaram este golpe.
A mobilização social em repúdio ao golpe foi forte, avalia Boaventura de Sousa Santos, “mas não tão forte como a da Bolívia diante de uma tentativa de golpe semelhante em 2008. Os povos indígenas não vieram à rua. Fizeram a declaração de repúdio ao golpe, mas não saíram para as ruas”.
Os outros movimentos sociais não fizeram uma mobilização maciça. “Mesmo assim, muita gente foi para a rua, mas os que se aproximavam do hospital eram recebidos a gás lacrimogéneo e ficavam intimidados.
Assim, avalia o sociólogo, o decisivo foi a posição do alto comando militar e do grupo de operações especiais que libertou o presidente equatoriano. “Há quem diga que os golpistas não eram mais de 30; seja como for, o grupo de operações especiais montou uma operação digna de Hollywood para libertar o presidente. Eu temia um banho de sangue, mas felizmente tudo correu bem.”
Segundo o diário La Jornada, a espectacular operação de resgate envolveu cerca de 500 soldados e foi transmitida ao vivo pela televisão pública equatoriana e durou cerca de 30 minutos.
“O imperialismo americano está de volta”
Num primeiro balanço do sucedido, Boaventura de Sousa Santos afirma que o presidente Rafael Correa tem muita dificuldade de dialogar com os movimentos sociais – gosta de dialogar directamente com o povo, mas não com os movimentos.
Mas, para se fazer uma análise do sucedido, é preciso também ver o contexto internacional. E o investigador português é peremptório: “O imperialismo americano está de volta.” Para ele, o que se passou no Equador não foi uma reivindicação salarial, foi um golpe de Estado “onde talvez tenha estado envolvido o ex-presidente Lucio Gutiérrez, que é apoiado pelos americanos”, acusa, ressalvando que a embaixada americana repudiou o golpe. “Mas em Honduras fez o mesmo”, recorda.
Boaventura de Sousa Santos diz não querer desenvolver uma teoria conspirativa, mas está certo de que os próximos anos vão ser muito difíceis. “Houve o golpe de Honduras”, enumera, “Chávez também teve problemas.” O sociólogo considera que o presidente venezuelano tonou algumas decisões erradas, “mas também houve muitas malas de dólares a financiar a oposição.”
Outro facto que cita foi o que envolveu a senadora colombiana Piedad Córdoba, que negociou a libertação de vários reféns das Farc, e que acaba de ser expulsa do Senado e está a ser acusada de terrorismo. “Ela é uma senhora de paz, que eu conheço, e agora fazem-lhe isto”.
Para Boaventura de Sousa Santos, há muitos sinais de que na próxima década começará a haver a penalização dos movimentos sociais: “Vão ser anos difíceis”, a que a Europa não está alheia. “Isto é uma antevisão do que se vai passar na Europa. Veja como o FMI começa a entrar em países da Europa, como fazia antes na América Latina.”
Entretanto, o golpe do Equador foi derrotado e foi com alegria que o sociólogo viu Rafael Correa de volta ao poder. “Ele prometeu que os revoltosos vão ser punidos. Espero que ele compreenda que esses são os verdadeiros terroristas, não os indígenas e os movimentos sociais organizados”, concluiu.